Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Vendas de imóveis têm alta de 27% no 1º trimestre, mas lançamentos crescem em ritmo menor

Diante de incertezas com o aumento nos custos de construção, o total de novos imóveis residenciais avançou 3,7% em relação ao mesmo período de 2020, segundo entidade do setor; estoque de unidades é o menor desde 2016 e preços devem subir

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2021 | 13h37

O mercado imobiliário nacional fechou o primeiro trimestre do ano com crescimento robusto nas vendas e um avanço discreto dos lançamentos pelas empresas, diante de incertezas com a pressão sobre os custos de construção. A consequência foi a redução dos estoques, de acordo com pesquisa da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) divulgada nesta segunda-feira, 24.

Os lançamentos de imóveis residenciais no País somaram 28.258 unidades de janeiro a março, alta de 3,7% em relação ao mesmo período do ano passado. No acumulado de 12 meses até março, o setor registrou um recuo de 10,5% nos lançamentos, para 168.673 unidades.

Por sua vez, as vendas atingiram 53.185 unidades no primeiro trimestre de 2021, um aumento de 27,1%. No acumulado de 12 meses, a alta foi de 12,8%, chegando a 207.946 unidades.

Com uma evolução mais forte das vendas em relação aos lançamentos, os estoques de imóveis (na planta, em obras e recém-construídos) caíram 14,8%, para 153.914 moradias. Esse é o patamar mais baixo já registrado pela CBIC desde que o início da série histórica da pesquisa, em 2016.

Considerando a média de vendas no período de 12 meses, se não houver novos lançamentos, a oferta final se esgotaria em 8,9 meses. Há um ano, essa métrica estava em 11,8 meses.

O presidente da CBIC, José Carlos Martins, afirmou que o aumento expressivo nos custos dos materiais está comprometendo a oferta de novos projetos imobiliários. Segundo ele, os empresários têm tido dificuldades em repassar esses aumentos dos custos para os preços finais de vendas, situação que afeta, principalmente, os empreendimentos destinados às pessoas de baixa renda, em regiões como Norte e Nordeste.

"O setor da construção tinha, em 2021, todas as características para ser um dos melhores anos de todos os tempos. Mas aconteceu um fato, que foram os aumentos absurdos em termos de insumos", afirmou. "Esse aumento aconteceu de tal forma que, em muitos projetos, talvez o preço vendido já não consiga absorver os aumentos de custos, levando à perda de rentabilidade"

Martins disse que o mercado continua com demanda aquecida, graças às taxas baixas de juros dos financiamentos. Com isso, a tendência é de continuidade na alta das vendas, mas não acompanhada no mesmo ritmo pelos lançamentos. Consequentemente, a previsão é de continuidade nas quedas dos estoques.

O presidente da Comissão Imobiliária da CBIC, Celso Petrucci, ressaltou a tendência de alta nos preços dos imóveis, como forma de contornar o aumento nos custos dos insumos. O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) acumulou alta de 12,99% nos 12 meses encerrados em abril. O custo com material se destacou no período, com aumento de quase 30%. Elevações nos custos com a mão de obra podem pressionar ainda mais o setor nos próximos meses. "Seguramente teremos aumentos nos preços dos imóveis neste ano", afirmou Petrucci.

Casa Verde e Amarela

O aumento acelerado nos custos dos materiais de construção está forçando as construtoras a levarem os empreendimentos originalmente enquadrados no Casa Verde e Amarela para fora do programa, onde têm liberdade para cobrar preços maiores. Os projetos do Casa Verde e Amarela representaram 44,4% dos lançamentos no País no primeiro trimestre de 2021, patamar abaixo dos 55,6% verificados no mesmo período do ano passado.

A migração de projetos para fora do programa acontece a despeito do anúncio feito há poucos meses pelo governo Jair Bolsonaro de reduzir as taxas de juros cobradas em algumas faixas do programa habitacional para famílias do Norte e Nordeste.

Petrucci avaliou ainda que a migração é uma tendência de mercado, para que as empresas consigam sustentar as margens e viabilizar os empreendimentos. "As empresas que atuam no programa já fizeram milagres nos últimos anos com ganho de produtividade para segurar os custos."

Petrucci disse ainda que a redução nas taxas de juros do Casa Verde e Amarela ajudaram a sustentar parte das vendas até aqui. O problema está concentrado, segundo ele, no lado dos materiais.

A disparada nos valores dos materiais foi sentida pelas construtoras no segundo semestre de 2020 e atribuída à desorganização da cadeia produtiva após as paralisações provocadas pela pandemia. No entanto, esse quadro está se prolongado por mais tempo que o previsto pelos empresários.

"Esperávamos que o aumento nos custos já estaria resolvido. No entanto, estamos no final de maio, mas os aumentos de insumos continuam a aparecer em nossas planilhas", observou Petrucci.

O presidente da CBIC, José Carlos Martins, disse que a situação é preocupante e tem desestimulado os empresários a lançar projetos no Casa Verde e Amarela. "No mercado de alto padrão, é possível diminuir a planta, mudar a localização ou aumentar os preços. Mas no mercado de baixa renda, não tem para onde correr", ponderou.

Martins voltou a cobrar do governo federal apoio para conter a disparada nos preços dos materiais, o que poderia ser feito por meio da redução de impostos para importação de insumos e retirada de barreiras técnicas que os materiais vindos de fora enfrentam. "O governo não tem estoques regulatórios, mas tem o poder da caneta para causar um choque de oferta", argumentou.

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