Daniel Teixeira/Estadão - 16/5/2017
Indústria teme que preço elevado do aço acabe por pesar nas compras do consumidor final. Daniel Teixeira/Estadão - 16/5/2017

Vendas de siderúrgicas crescem em ritmo chinês, apesar da alta no preço do aço

Puxado pelo aumento da demanda por máquinas, imóveis, eletroeletrônicos e caminhões, volume negociado pelas usinas no 1º quadrimestre do ano supera o do mesmo período de 2013, considerado o pico do setor, mas grandes consumidores preveem dificuldades se alta continuar

José Fucs, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2021 | 10h00

No mundo peculiar da indústria siderúrgica, no qual se fala um dialeto que inclui termos como alto-forno, aciaria, bobina a quente e vergalhão, os executivos costumam abrir as suas apresentações aos leigos discorrendo sobre a estreita correlação existente entre a evolução do Produto Interno Bruto (PIB) e o consumo de aço no País. “O aço e o PIB andam juntos”, afirmam.

Mas, quando se compara o desempenho do setor e o da economia como um todo nos últimos meses e as perspectivas que se desenham para o futuro imediato, a correlação entre os dois indicadores não se mostra tão próxima quanto se diz. Embora a atividade econômica esteja ganhando tração e alguns analistas já projetem um crescimento de cerca de 5% para o PIB neste ano, desmentindo as previsões catastrofistas que pipocavam por aí até algumas semanas atrás, o mercado de aço está crescendo em ritmo chinês, superando, de longe, a performance média da economia.

Segundo os dados mais recentes do Instituto Aço Brasil, a entidade que reúne as siderúrgicas do País, a produção de aço bruto deverá crescer 11,3% em 2021, mais que o dobro das previsões mais otimistas feitas para o PIB. Hoje, de acordo com dados do instituto, as usinas estão operando com 75% da capacidade instalada, em nível superior aos 63% do período pré-covid.

Puxadas pelo aumento do consumo dos setores de máquinas e equipamentos, construção civil, eletroeletrônico e veículos, especialmente caminhões, todos com crescimento muito acima do PIB, as vendas no mercado interno alcançaram 7,9 milhões de toneladas de aço no primeiro quadrimestre, superando o resultado de 2013, considerado o pico do setor, no mesmo período. Isso em cima de um crescimento de 3,5% registrado em 2020, já em meio à pandemia. “Estamos batendo recorde atrás de recorde”, diz Marco Polo de Mello Lopes, presidente executivo da entidade. “Ninguém acreditava quando o ministro Paulo Guedes dizia que a retomada viria em ‘v’, mas foi o que acabou acontecendo.”

Esse desempenho parece ainda mais impressionante quando se leva em conta que, além de ocorrer em plena pandemia, ele se dá num cenário de explosão dos preços do aço no País e no exterior, em decorrência da alta no custo do minério de ferro e de outras matérias-primas, e da mudança de posição da China no mercado, reduzindo exportações e aumentando importações do produto.

Um levantamento realizado para o Estadão pela S&P Global Platts, uma empresa de informações econômicas e financeiras que acompanha o setor com lupa, aponta que o preço médio por tonelada de aço plano (bobina a quente), utilizado em produtos da linha branca, eletroeletrônicos e veículos, subiu nada menos que 172,4% em reais nos últimos 12 meses, enquanto o preço do aço longo (vergalhão), usado na construção civil, aumentou 153,3%.

Até pouco tempo atrás, quando o dólar estava subindo, parte da explicação para a alta dos preços, que seguem parâmetros internacionais, recaía sobre o câmbio. Mas, com o dólar acumulando uma queda de 3,6% em relação ao real de junho de 2020 até maio de 2021, o efeito cambial já não entra mais na conta. “A alta de preços do aço é um fenômeno mundial”, afirma Carlos Loureiro, presidente do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda), “Se a produção está aumentando e o preço está subindo, é porque há consumo.”

Exportações em queda

Para atender o mercado interno, que até agora se mostra surpreendentemente resiliente ao salto nos preços, apesar da gritaria crescente dos grandes consumidores, as siderúrgicas reduziram as exportações. Ao mesmo tempo, houve um aumento considerável nas importações, que dobraram nos primeiros quatro meses de 2021 em relação ao mesmo período do ano passado. 

Ainda assim, num quadro que lembrou, de certa forma, o Plano Cruzado, implementado em 1986, quando a demanda explodiu e houve falta generalizada de produtos, mesmo com a cobrança de ágio para burlar o congelamento de preços, algumas montadoras de veículos chegaram a paralisar parte da produção por falta de aço e de outros insumos, no fim de 2020 e no começo deste ano. Construtoras e fabricantes de máquinas e equipamentos e de aparelhos eletroeletrônicos enfrentaram problemas semelhantes. 

Ainda hoje, apesar de haver maior equilíbrio entre a oferta e a demanda, há relatos de falta de aço na praça, em especial por parte de representantes da construção civil. Os prazos de entrega das encomendas se alongaram e os estoques dos distribuidores de aço, que vendem para os consumidores de pequeno e médio portes que não conseguem comprar diretamente das usinas, ainda estão 20% abaixo da média pré-pandemia. Temendo falta de produtos e novas altas de preços, muitas empresas passaram a fazer estoques preventivos, o que acaba por agravar o problema. Outras ainda estão tentando recompor os estoques desovados no auge da crise para fazer caixa e enfrentar a queda brusca na demanda.

“As siderúrgicas dizem que estão produzindo mais do que nunca, mas você conversa com os empresários e vê que eles não conseguem o produto de que precisam”, diz o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), José Carlos Martins. Alegando a necessidade de haver um “choque de oferta” de aço no País, para acabar com o ‘desabastecimento”, ele apresentou um pedido ao Ministério da Economia para reduzir a alíquota de importação do aço de 12% para 1% pelo prazo de seis meses, prorrogáveis por mais seis, mas a proposta até agora não foi para a frente.

Lopes, do Instituto Aço Brasil, que pediu ao presidente Jair Bolsonaro na segunda-feira, 14, para não reduzir a tarifa de importação, nega que haja desabastecimento hoje e diz que Martins é o único representante dos grandes consumidores do produto no País que afirma ainda haver problemas de oferta no mercado. “Eu pedi a ele para mapear os locais em que está havendo desabastecimento e disse que, se isso não fosse resolvido em três dias, iria com ele ao governo e o ajudaria a pedir redução do Imposto de Importação”, afirma. “Pergunta se apareceu alguma identificação de desabastecimento. É claro que não. A gente está acompanhando de perto o mercado e não observamos problemas de abastecimento.”

Preços elevados

Mais que o desabastecimento, o grande problema hoje parece ser mesmo a escalada dos preços e o impacto que ela pode ter nos produtos que usam o aço como insumo. A própria construção civil, que costuma vender imóveis com preço fechado e só iniciar a produção depois, talvez seja a área mais atingida pela questão e ainda busca formas de equacioná-la. Mas os setores de máquinas e equipamentos, eletroeletrônicos e veículos também estão sendo atingidos e já começam a projetar uma queda nas vendas se os preços não cederem, por não ter como absorver uma elevação nos custos dessa magnitude.

“A gente está muito preocupado”, diz José Jorge do Nascimento Júnior, presidente executivo da Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros), que reúne as maiores indústrias de eletroeletrônicos de consumo do País. Ele diz que o setor está operando com quase 100% da capacidade instalada e teme os efeitos que a alta dos insumos possa ter na produção e nas vendas. “Não estamos conseguindo mais absorver esse aumento e estamos repassando para o preço final. Isso poderá levar a uma estagnação ou a uma queda na demanda.”

No setor de máquinas e equipamentos, que está “bombando”, com crescimento de 28% no primeiro trimestre do ano, de acordo com dados do IBGE, há um movimento em curso para facilitar as importações de aço pelas empresas. O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso Dias Cardoso, conta que, no fim de maio, promoveu uma primeira reunião de 55 fabricantes com representantes de um grande grupo siderúrgico internacional, para discutir formas de favorecer as importações, e diz que pretende organizar outros encontros do gênero nas próximas semanas.

Na visão de Velloso, apesar da demora de cinco meses entre a realização do pedido e a entrega do produto aos compradores “vale a pena importar”. Segundo ele, o produto importado da China chegaria ao Brasil, já incluindo o frete, que subiu 240% desde o início da pandemia, e o Imposto de Importação, de 12%, mais barato do que o aço produzido aqui.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Mudanças trazidas pela pandemia motivam crescimento da demanda por aço

Novo estilo de vida, alta de commodities e juro baixo favorecem setores que mais usam o produto como insumo

José Fucs, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2021 | 10h00

O aumento expressivo das vendas de aço no País, em meio à pandemia e à escalada de preços, parece desafiar o princípio da racionalidade econômica, segundo o qual os indivíduos agem de forma racional ao tomar suas decisões de consumo e de poupança. Mas, ao contrário do que pode parecer à primeira vista, o aparente paradoxo tem a sua lógica.

O fenômeno reflete o crescimento da demanda por imóveis, máquinas e equipamentos agrícolas e industriais, produtos eletroeletrônicos e veículos, especialmente caminhões, que usam aço em larga escala, desde meados do ano passado, após o período mais agudo de isolamento social e de retração nas vendas.

Parte da explicação para a performance invejável desses setores se deve à própria pandemia, que provocou um deslocamento das “placas tectônicas” da economia. Subitamente, atividades que vinham “andando de lado” há anos ganharam tração, enquanto outros setores desaceleraram ou engataram a marcha à ré. Neste cenário, grandes consumidores de aço acabaram favorecidos pelas transformações provocadas pela pandemia na vida da população e das empresas, se é que se pode falar nisso com quase meio milhão de mortes e 17,3 milhões de pessoas infectadas pelo vírus letal até agora no País.

“Por causa da pandemia, houve uma mudança de estilo de vida e de consumo”, afirma José Velloso Dias Cardoso, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e equipamentos (Abimaq). “É impressionante o impacto que a pandemia teve na vida das pessoas e no modo de consumir”, diz José Jorge do Nascimento Júnior, presidente executivo da Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros).

Apesar de muita gente ter perdido o emprego, da queda da renda média da população e do fechamento de milhares de empresas durante a pandemia, quem conseguiu, de uma forma ou de outra, manter os seus ganhos alavancou a nova onda de consumo, dentro dos novos parâmetros trazidos pela covid-19.

De um lado, a classe média deixou de viajar ou passou a fazer viagens mais curtas para locais mais próximos. Também parou de ir ou reduziu de forma considerável as suas idas a bares e restaurantes e zerou os gastos com grandes eventos esportivos e culturais, atingidos pelas restrições impostas às aglomerações.

Ao mesmo tempo, o auxílio emergencial, que injetou cerca de R$ 300 bilhões na economia, beneficiou 66 milhões de pessoas, principalmente na faixa de renda mais baixa. Sobrou dinheiro, assim, para gastar em bens que se tornaram mais relevantes na nova realidade. De acordo com Nascimentoo Júnior,  o volume de recursos disponível compensou a perda dos consumidores que tiveram queda de renda no período.

Além disso, com a queda significativa dos juros, que chegaram ao patamar mais baixo de todos os tempos e ainda continuam bem abaixo da média histórica, apesar da alta recente, muita gente que tinha dinheiro aplicado no mercado financeiro preferiu ir às compras, investindo em seu próprio bem estar e no de sua família. O crédito mais barato também ajudou.

Por fim, com o novo boom das commodities, o mesmo que levou o preço do aço às nuvens no País e no exterior, e com a alta do dólar, que continua acima do nível de 2019, mesmo com a queda registrada nos últimos tempos, o agronegócio, que já vinha bem, reforçou ainda mais a musculatura, estimulando o investimento no campo.

Consumo em alta

Neste novo cenário trazido pela pandemia, as vendas de aparelhos de TV, ar condicionados, produtos da linha branca, ferros, liquidificadores e até “chapinhas” para alisar o cabelo explodiram, aumentando a procura das indústrias pelo aço, presente em metade dos produtos eletroeletrônicos fabricados no País.

De acordo com dados da Eletros, o setor opera hoje com quase 100% da capacidade instalada. Apenas no primeiro trimestre deste ano, as vendas registraram crescimento de 10% a 20% em relação ao resultado de 2020, conforme o produto, exceto no caso das TVs, que amargam perda de 3% no período.

Na área de construção civil, que tem nos vergalhões um de seus principais insumos, está acontecendo um fenômeno semelhante. Segundo José Carlos Martins, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), o volume de financiamentos imobiliários em 2020 atingiu R$ 110 bilhões, chegando quase no pico de 2013, de R$ 120 bilhões. “O pessoal decidiu investir na qualidade de vida”, afirma. “Todo mês estamos batendo recorde de vendas.”

No setor de veículos, que é também um dos principais consumidores de aço, as vendas de automóveis subiram 7,7% no primeiro quadrimestre em relação ao mesmo período de 2020, mas ainda estão abaixo do volume alcançado de janeiro a abril de 2019. Já no caso dos caminhões, o mercado parece que está voltando aos seus dias de glória. Pelos números da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), foram comercializados 34.121 caminhões no primeiro quadrimestre de 2021, um aumento de 48,1% em relação ao mesmo período do ano passado e o maior volume desde 2014.

Agora, entre todos os grandes compradores de aço, talvez a performance mais surpreendente seja a do setor de máquinas e equipamentos agrícolas e industriais, que teve um crescimento de 28% no primeiro trimestre do ano em relação ao último trimestre de 2020, segundo dados do IBGE. Isso alavancou o resultado da indústria de transformação e a taxa de investimento no País, que cresceu 17% nos primeiros três meses do ano, o melhor resultado desde 2010, para 19,4% do Produto Interno Bruto (PIB).

Embora alguns analistas atribuam tal desempenho ao baixo custo do crédito, Cardoso, da Abimaq, diz que ele se deu principalmente por parte das empresas que tinham caixa aplicado no mercado financeiro e com a queda dos juros decidiram investir na modernização do processo de produção.

Uma pesquisa realizada pela Abimaq apontou que, 76% das compras de máquinas no País estão sendo feitas com capital próprio. De acordo com Cardoso, os juros para a compra de máquinas, de 9% a 12% ao ano, ainda são considerados altos e as empresas ainda não conseguem ter esse retorno com os ganhos de eficiência e produtividade obtidos com a compra de novas máquinas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.