Daniel Teixeira/Estadão - 3/7/2020
Daniel Teixeira/Estadão - 3/7/2020

Vendas do varejo crescem 13,9% em maio, mas ainda não recuperam perda acumulada

Resultado superou as projeções de analistas; no ano, o comércio tem queda de 3,9% e, na comparação com o mesmo mês de 2019, houve recuo de 7,2%

Daniela Amorim, Douglas Gavras, Cícero Cotrim e Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2020 | 09h26

RIO E SÃO PAULO - As vendas do varejo em maio devem ajudar a atenuar as perdas esperadas para a economia no segundo trimestre, período considerado o fundo do poço para o comércio, pelos impactos da pandemia do novo coronavírus no País. Passado o baque provocado pelas medidas de isolamento, o varejo teve crescimento recorde de 13,9% no mês ante abril, segundo a Pesquisa Mensal de Comércio, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

O varejo em maio se saiu melhor do que o previsto pelos analistas, que esperavam que as vendas tivessem subido na casa dos 6% ante abril. Parte da melhora foi reforçada pelas medidas tomadas para preservação de empregos – como a redução de jornada e salário – e a distribuição do auxílio emergencial de R$ 600 para desempregados e informais de baixa renda. 

“Ao longo de maio, as medidas de isolamento foram mais frouxas, o que acaba se refletindo no movimento do comércio. Além disso, o auxílio emergencial ajudou, por mais que a renda das famílias não tenha sido totalmente recomposta. O varejo pôde sofrer menos”, avalia o economista sênior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fabio Bentes.

Segundo ele, a queda do PIB do País no segundo trimestre deve ser atenuada em dois pontos porcentuais, indo de uma expectativa de queda de 10% para retração de 8%. “Ainda é terrível para o País, mas no meio de tantas notícias negativas, não deixa de ser um alívio.” “A transferência de renda parece ter garantido a normalização de alguns componentes do varejo, as pessoas voltaram a consumir”, afirma o economista-chefe do banco de investimento Haitong, Flávio Serrano.

As vendas do varejo foram um dos fatores que contribuíram para a alta da Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, na última quarta-feira, 8. O principal índice, o Ibovespa, fechou o dia com alta de 2,05%, aos 99.769,88 pontos, próximo do patamar dos 100 mil pontos e no melhor nível para um fechamento desde 5 de março. 

Na passagem de abril para maio, todas as atividades varejistas cresceram, com destaque para Tecidos e vestuário (100,6%) e Móveis e eletrodomésticos (47,5%) – bens duráveis tidos como termômetro da confiança do consumidor.

Ainda assim, o desempenho foi insuficiente para reverter as perdas históricas acumuladas em março e abril. O varejo ainda está 7,3% abaixo do patamar pré-pandemia, em fevereiro. Quando se olha para o varejo ampliado – que inclui veículos e material de construção –, a retração é de 15,4% em relação ao patamar pré-pandemia, já considerando o avanço de 19,6% nas vendas obtido em maio.

Cautela

Na avaliação de pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), o varejo deve ajudar a amortecer as perdas da economia, mas ainda é preciso olhar para o comportamento do setor de serviços, que deve repetir em maio os baixos resultados que teve em abril. “Os dados do comércio são muito importantes para o PIB e aparentemente, as medidas de transferências de renda foram importantes. Ainda é preciso acompanhar os desdobramentos da pandemia, mas até agora abril parece ter sido o fundo do poço para o varejo”, diz Luana Miranda, pesquisadora da área de Economia Aplicada do Ibre.

Para o ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman, porém, os dados ainda são preocupantes e o desempenho do varejo em maio não deve ser comemorado, quando comparado aos resultados de fevereiro e de maio do ano passado. “A produção de automóveis explodiu em maio e junho, mas depois de ficar zerada em abril. No frigir dos ovos, a produção em junho ainda é inferior à metade de fevereiro.

Os dados de consumo, que incluem a utilização de serviços, devem ser ainda piores que os do varejo.”O comércio já deixou de faturar cerca de R$ 240,8 bilhões desde o início da crise, segundo cálculo da CNC. As perdas se acumulam desde a segunda quinzena de março até o fim de junho. Apesar da melhora a partir de maio, o comércio deixou de faturar R$ 69,5 bilhões naquele mês. Em junho, quando começou a flexibilização das medidas de isolamento social nos municípios de São Paulo e Rio, o rombo no faturamento ainda foi de R$ 54,6 bilhões. O cálculo da CNC se refere ao comércio varejista ampliado.

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