Tiago Queiroz/Estadão 3/4/2020
Tiago Queiroz/Estadão 3/4/2020

Com inflação, vendas no varejo caem 1,7% em junho

Resultado veio abaixo do esperando por analistas do mercado, mas especialistas dizem que o resultado não muda o cenário de retomada, ainda que gradual, até o fim do ano

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2021 | 09h25
Atualizado 12 de agosto de 2021 | 14h22

RIO - Após dois meses de alta, as vendas do varejo caíram 1,7% em junho sobre maio, informou nesta quarta-feira, 11, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A queda surpreendeu analistas do mercado financeiro, que esperavam alta de 0,7%, conforme pesquisa do Projeções Broadcast. A mais pessimista das projeções era de uma queda de 0,9%. Para especialistas, a pressão da inflação fez a diferença em junho, mas a queda em relação a maio não muda o cenário de retomada, ainda que gradual, até o fim do ano. No semestre, o setor acumula alta de 6,7%.

Segundo Cristiano Santos, gerente da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) do IBGE, desde o início de 2021, a atividade do varejo vem encontrando dificuldades de se sustentar nos níveis recordes atingidos em outubro e novembro de 2020. Na segunda metade do ano passado, em meio à retomada após o fundo do poço da crise causada pela covid-19, as vendas cresceram, impulsionadas pelo auxílio emergencial, por entregas a domicílio e por relaxamentos nas medidas de restrição por causa da pandemia.

De dezembro em diante, porém, o desempenho tem rateado. No primeiro trimestre, as vendas do varejo tombaram 4,4% sobre o quarto trimestre de 2020, informou Santos. Pesaram aí novas restrições ao funcionamento das lojas, por causa da pandemia, segundo o pesquisador do IBGE.

Ao longo do segundo trimestre, porém, as restrições foram reduzidas. Tanto que, em junho, 4,9% dos empresários entrevistados na PMC relataram impacto do isolamento social como motivo para a queda na receita - menor nível de 2021, e apenas o segundo menor desde março de 2020, perdendo apenas para dezembro de 2020, com 3,5%.

Mesmo assim, após duas altas expressivas em abril (2,5% ante março) e maio (2,7% sobre abril), a retomada dos níveis recordes de outubro e novembro voltou a se tornar insustentável em junho. A queda de 1,7% ante maio foi a maior para meses de junho, nessa base de comparação, desde 2002, quando houve recuo de 2,0%.

“Esse crescimento de dois meses, na margem (na variação ante meses imediatamente anteriores) já estava se aproximando desse nível recorde (de outubro e novembro) e, depois, temos esse rebatimento (em junho)”, afirmou Santos.

Para o pesquisador do IBGE, em vez das restrições ao funcionamento das lojas, o que impede agora a manutenção das vendas do varejo nos níveis recordes de outubro e novembro de 2020 foram fatores do lado da demanda, que impediram o “aumento da capacidade das famílias de consumir”. Santos citou a alta das taxas de juros, a inflação pressionada e o desemprego elevado como elementos a segurar o ímpeto do consumo das famílias.

“Olhando o desempenho setorial, esse resultado sugere que a inflação está produzindo efeitos importantes sobre a renda”, disse o economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani.

O economista destacou a contração de setores dependentes de renda, como tecidos, vestuário e calçados. Santos, do IBGE, chamou a atenção para a comparação do desempenho do volume de vendas com o da receita das empresas do comércio. Enquanto o volume de vendas do varejo restrito registrou a queda de 1,7% em junho ante maio, a receita nominal de vendas avançou 1,5% no mesmo período. “Essa invertida, no valor nominal, também tem esse fenômeno de pressões inflacionárias”, afirmou Santos.

Por outro lado, embora o pesquisador do IBGE tenha citado a alta dos juros como fator a segurar o consumo das famílias, Padovani disse que setores dependentes do crédito tiveram desempenho em linha com as expectativas. Foi o caso da expansão das vendas de material de construção (1,81%) e móveis e eletrodomésticos (1,59%), sempre na passagem de maio para junho.

O economista-chefe da gestora multiestratégia ASA Investments, Gustavo Ribeiro, destacou que segmentos que tiveram desempenho fraco em junho, como tecidos, vestuário e calçados (queda de 3,62% ante maio) e outros artigos de uso pessoal (cujas vendas caíram 2,60% ante maio) vinham de fortes taxas de crescimento nos meses anteriores. Em abril e maio, vestuário subiu 16,3% e 10,2%, respectivamente, e outros artigos de uso pessoal, 21,5% e 6,3%, nessa ordem.

“Então, parte da história tem a ver com o movimento de antecipação de consumo, que traz um pequeno viés negativo no curto prazo”, afirmou Ribeiro.

Apesar da surpresa negativa com o varejo em junho, Rodolfo Margato, economista da XP Investimentos, lembrou que a queda de junho se seguiu a duas fortes altas em abril e maio. Para o economista-chefe do Rabobank, Maurício Une, mesmo com a queda em junho, o varejo fechou o segundo trimestre de forma positiva, com alta de 1,2%. Agora, deverá passar por uma moderação. 

“Esperamos um crescimento tênue e mais estável do comércio no segundo semestre, sem avanços muito fortes”, afirmou Une. “A Selic (taxa básica de juros, elevada pelo Banco Central para 5,25% ao ano na semana passada) se encaminha para o terreno contracionista, e isso acaba dificultando o consumidor manter seu padrão de compra”, completou o economista.

Para a economista Natalie Victal, da gestora Garde Asset, a moderação no ritmo de vendas do varejo nos próximos meses não ameaça a retomada da economia neste ano, mas a elevação dos juros poderá levar a um crescimento econômico menor em 2022. A equipe da gestora de recursos vê riscos de a taxa Selic ser elevada acima de 7,50% ao ano, no fim do ciclo de aumentos por parte do Banco Central (BC) para conter a inflação.

“Começa a comprometer um pouco a retomada. A gente sabe que não adianta manter juros artificialmente baixos se a inflação não permitir isso. Mas tem efeito colateral”, disse Victal. / COLABORARAM CÍCERO COTRIM, THAÍS BARCELLOS e GUILHERME BIANCHINI

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