Tiago Queiroz/Estadão - 11/6/2020
Tiago Queiroz/Estadão - 11/6/2020

Vendas do varejo sobem 5,2% em julho, na terceira alta seguida no ano

Setor já está 5,3% acima do patamar de fevereiro, antes da pandemia de covid-19; material de construção, móveis e eletrodomésticos, farmácias e supermercados estão em nível superior ao pré-crise sanitária

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2020 | 09h28
Atualizado 10 de setembro de 2020 | 17h30

RIO - Turbinado pelo auxílio emergencial pago pelo governo, as vendas do varejo brasileiro praticamente voltaram ao patamar recorde alcançado em 2014. O volume vendido em julho estava apenas 0,1% abaixo do nível alcançado em outubro daquele ano. Os dados são da Pesquisa Mensal de Comércio divulgados nesta quinta-feira, 10, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“Esse ano está muito atípico”, resumiu Cristiano Santos, analista da Coordenação de Serviços e Comércio do IBGE.

Com o avanço de 5,2% nas vendas em julho ante junho, o varejo opera 5,3% acima do patamar de fevereiro, no pré-pandemia. As atividades de material de construção, móveis e eletrodomésticos, artigos farmacêuticos e supermercados estão todas em ritmo superior ao pré-crise sanitária.

O resultado surpreendeu analistas do mercado financeiro ouvidos pelo Projeções Broadcast, que esperavam uma alta mediana de 0,9%. Esse é o maior resultado para o mês de julho da série histórica do IBGE, iniciada em 2000, e a terceira alta seguida no ano.

Santos lembra que as altas no varejo em maio e junho se justificavam pela base de comparação baixa, mas que o avanço em julho para os patamares mais elevados já alcançados na pesquisa são surpreendentes.

“Não sei se é sustentável. Não tenho como afirmar algo nesse sentido, estamos num momento diferente de todos os anos. É um numero bastante surpreendente, é um contexto de aquecimento, de crescimento, e que não é homogêneo”, ponderou o pesquisador do IBGE.

A recuperação do varejo como um todo é puxada pelo setor de supermercados, mas o avanço das demais atividades que já superaram o pré-pandemia não é desprezível, ressalta Santos. A atividade de supermercados chegou a julho 8,9% acima do patamar pré-pandemia, enquanto material de construção está 13,9% além do nível de fevereiro. Móveis e eletrodomésticos estão 16,9% acima do pré-pandemia, e artigos farmacêuticos estão 7,3% superiores.

Por outro lado, o setor de vestuário está 32,7% abaixo do patamar pré-pandemia; veículos estão 19,7% aquém; livros e papelaria, 26,2% inferiores; combustíveis, 9,6% abaixo; equipamentos e materiais de informática e escritório, 6,0% aquém; outros artigos de uso pessoal e doméstico, 0,2% abaixo.

“Se a gente tivesse num ano normal, o que se esperaria? Que se tivesse homogeneidade entre as atividades. Se o varejo está atingindo o pico histórico, era de se imaginar que a atividade como um todo estivesse crescendo. Nesse caso não, a gente tem uma amplitude grande entre essas variações”, observou Santos.

O varejo ampliado, que inclui as atividades de veículos e material de construção, está 2,0% abaixo do patamar pré-pandemia. As vendas ainda operam 11,2% aquém do pico alcançado em agosto de 2012.

O bom desempenho do varejo em junho e julho tem relação direta com o pagamento do auxílio emergencial pelo governo, segundo Cristiano Santos. O avanço no volume vendido está muito ligado à melhora no rendimento, sobretudo, das famílias de baixa renda.

Ele lembra que o auxílio emergencial aumentou a renda especialmente das famílias mais pobres, que passaram a ter uma renda disponível na pandemia até mesmo maior que a habitual.

“Certamente parte desse excesso de rendimento acaba se convertendo em consumo, e consumo muito focado nessas atividades que a gente tem visto crescer. Além de supermercados, tem também móveis e eletrodomésticos e material de construção”, disse Santos.

A expansão do comércio eletrônico e a reabertura de lojas pela flexibilização das medidas de isolamento social também contribuíram para uma recuperação da receita, apontou o pesquisador do IBGE.

Os supermercados puxam a recuperação do varejo para níveis anteriores ao pré-pandemia, mas as vendas no setor mostraram uma acomodação “natural” nos últimos dois meses, segundo o pesquisador. Houve algum efeito de inflação de alimentos sobre o resultado, embora nada fora do padrão da série histórica da pesquisa até julho.

“No início da pandemia, tudo fechou. O que ficou aberto? Farmácias e supermercados. As grandes redes, que têm lojas muito grandes, vendem muita coisa que também são vendidas em outros segmentos. Às vezes tem móveis e eletrodomésticos, livros, jornais, equipamentos de informática. Isso também acabou sendo consumido nessa atividade. Depois disso, ela se estabiliza. Ainda em maio vem forte, depois acaba se estabilizando. É um comportamento natural desse segmento, à medida também que essa substituição não é mais necessária, que outras atividades voltam também a ter vendas em lojas físicas”, justificou Santos.

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