Sergio Castro/Estadão
Sergio Castro/Estadão

Vendas de eletroeletrônicos caem pela primeira vez em 4 anos, com renda menor e produtos mais caros

Em 2021, volume de vendas das fábricas para o varejo caiu 7,2%, segundo dados da Eletros, a associação do setor

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2022 | 10h00

A indústria de eletroeletrônicos de consumo fechou 2021 com o primeiro resultado negativo em quatro anos. Os volumes vendidos das fábricas para o varejo somaram 94,1 milhões de aparelhos, uma quantidade 7,2% menor comparada com o ano anterior, segundo levantamento da Eletros, associação que reúne os fabricantes do setor.

A maior queda ocorreu nos televisores, de 15,8%, seguida pelos eletroportáteis (-7%) e eletrodomésticos da linha branca, como fogões, geladeiras e lavadoras, com retração de 4,9%. A única linha cujas vendas cresceram no ano passado foi a de aparelhos de ar condicionado, que avançou 7,2%, somando 4,45 milhões de unidades. Mesmo assim, houve uma freada no ritmo de alta. Em 2020 as vendas do produto tinham aumentado 30% sobre o ano anterior. 

 

“Foi uma frustração, nem no primeiro ano da pandemia tivemos números tão ruins”, diz o presidente da Eletros, José Jorge do Nascimento Jr.  Em 2019 e 2020, o setor cresceu 5% a cada ano. E a expectativa era avançar mais 5% em 2021 ou, numa perspectiva otimista, até 10%.

Esse prognóstico até parecia viável por conta do desempenho do primeiro semestre, que registrou avanço na casa de dois dígitos sobre o ano anterior. Mas o mercado virou  no segundo semestre. Entre julho e setembro, as vendas caíram 16% em relação ao mesmo período de 2020. E o tombo de 28% veio no último trimestre, período que inclui Black Friday e Natal, as melhores datas de vendas para os eletroeletrônicos.

A queda nas vendas tem a ver com a disparada da inflação, que corrói o poder aquisitivo dos consumidores, e a consequente alta dos juros. Como boa parte das vendas dos eletroeletrônicos são financiadas, esse foi mais um obstáculo ao consumo a prazo. Fora isso, com o avanço da vacinação e a reabertura dos serviços, passou a haver uma disputa do bolso do consumidor  por outros setores, como turismo, segundo o presidente da Eletros.

A forte pressão de custos de produção - com forte alta no preço do aço, aumento da tarifa de energia elétrica e a questão do câmbio - também deixou os eletroeletrônicos mais caros. Isso inibiu vendas.

Neste início de ano o mercado continua fraco. “O varejo está bem estocado e estamos numa situação bem complicada para vender nossos produtos”, diz Nascimento Jr. Segundo ele, houve indústrias da linha de áudio e vídeo que deram dez dias de férias coletivas em janeiro para enxugar a produção.

Essa frustração das vendas  aparece nos estoques acumulados pela indústria. De acordo com a Sondagem da Indústria de Transformação da Fundação Getulio Vargas (FGV), o saldo de empresas do setor que declararam ter estoques excessivos em janeiro deste ano foi de 36,6%. É a maior marca desde dezembro de 2019 (37,7%) e também superior a dezembro de 2021, quando estava em 31,4%.

Quando um setor está com um número maior de empresas com estoques elevados, o passo seguinte é a redução ou estabilização da produção, explica Cláudia Perdigão, pesquisadora da FGV e responsável pelo estudo. De dezembro para janeiro, o nível de utilização da capacidade instalada das fábricas de eletroeletrônicos e itens de informática, por exemplo, caiu mais de quatro pontos porcentuais: de 74,4% para 70%, aponta a pesquisa. “Isso significa que o setor deu uma desacelerada na produção”, diz a economista.

Demissões na Zona Franca 

Esse recuo do mercado de eletroeletrônicos tem reflexos no Polo Industrial de Manaus, que concentra indústrias desse setor. Um levantamento do Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas, com base nas homologações realizadas na entidade, mostra  que empresas do Polo dispensaram 7,5 mil trabalhadores entre dezembro de 2021 e a primeira quinzena de janeiro, número considerado acima do normal. Dos demitidos nesse período, que representam quase 10% do total de empregados no Polo, 6 mil trabalhadores eram efetivos e 1,5 mil temporários.

Cerca de 70% dos cortes ocorreram, segundo o presidente do sindicato, Valdemir Santana, em indústrias do setor eletroeletrônico. “Geralmente quando termina um contrato temporário, 40% dos trabalhadores são efetivados, mas neste ano não ficou nenhum temporário.”

Só a Philco, por exemplo, demitiu 800 trabalhadores nesse período, segundo o sindicato. A empresa confirma os cortes. A companhia informou, por meio de nota, que todos os anos contrata trabalhadores para atender à sazonalidade do varejo e, nos últimos anos, conseguiu absorver as equipes após o período sazonal. “Em 2021, entretanto, a contratação para a produção específica de aparelhos de ar condicionado foi maior e isso se refletiu na necessidade de desligamentos após a finalização da produção adicional”, diz a nota.

O presidente da Eletros, no entanto, diz não ter conhecimento de demissões acima do normal no setor. Ele argumenta que as empresas estão segurando ao máximo a mão de obra na expectativa de que o mercado e o ambiente de negócios melhore no segundo trimestre. A expectativa é que o Dia das Mães e a Copa do Mundo impulsionem as vendas.

No entanto, se a conjuntura não melhorar, Nascimento Jr. admite que “inevitavelmente”  haverá demissões, retrações nos investimentos e reavaliação nas programações de produção. “É um cenário horrível, mas não é o que  a gente vislumbra.”

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