Vendas no atacado recuam 9,76% no primeiro trimestre

Apesar da retração devido à freada no consumo e à base de comparação forte de 2014, setor espera crescer 1,5% este ano

MÁRCIA DE CHIARA , O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2015 | 02h04

Os atacadistas que abastecem o varejo com itens de alimentação, higiene e limpeza sentiram a freada nas compras do consumidor no 1.º trimestre deste ano. De janeiro a março, o setor registrou queda de 9,76% na receita em relação a igual período de 2014, já descontada a inflação. O revés sofrido no início deste ano ocorre após o fraco desempenho de 2014. O setor encerrou 2014 com vendas de R$ 211,8 bilhões, cifra só 0,9% maior em relação a 2013. Foi a menor taxa de expansão de vendas desde o início da série histórica iniciada em 2001.

"Um crescimento de 0,9% é aceitável, diante da expansão do PIB (Produto Interno Bruto) de 0,1% registrada no ano passado. Mas isso nos deixa inquietos", diz o presidente da Associação Brasileira de Atacadista e Distribuidores de Produtos Industrializados (Abad), José do Egito Frota Lopes Filho. A expectativa era ter crescido 1,5% no ano passado, em termos reais. Para este ano, mesmo com a retração de quase 10% registrada no 1.º trimestre, a expectativa de ampliar o faturamento em 1,5% está mantida.

O presidente da Abad explica que o resultado do 1.º trimestre foi afetado pela base de comparação forte. Entre janeiro e março de 2014, as vendas tinham crescido 3% em termos reais na comparação anual. Ele pondera que, apesar de o 1.º trimestre ter sido ruim, ocorreu alguma melhora em março.

Nordeste. "Houve uma queda significativa nas vendas em janeiro, fevereiro e, em março, deu uma reagida", afirma José Gonzaga Sobrinho, presidente do Atacadão Rio do Peixe, com sede na Paraíba e presente em mais quatro Estados - Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte e Pernambuco. Ele diz que sua empresa, que tem 17 mil clientes, a maioria pequenos varejistas, teve queda real de 2% nas vendas do 1.º trimestre deste ano em comparação com 2014.

O movimento de queda nas vendas que ocorre na média do País ganha relevância no Nordeste, a região que nos últimos anos foi símbolo da expansão do consumo entre as classes de menor renda. Segundo Gonzaga Sobrinho, a classe C, que cresceu muito nos últimos dez anos, deu uma segurada nas compras desde o último trimestre de 2014. "Os consumidores do Nordeste estão indo mais vezes ao ponto de venda e comprando menos. Eles estão levando para casa mais itens da cesta básica", relata o empresário.

Segundo Olegário Araújo, diretor de atendimento ao varejo da Nielsen, consultoria especializada em mercado de consumo que audita cerca de um milhão de pontos de venda espalhados pelo País, diante da atual conjuntura, os consumidores da classe C estão revendo seus hábitos de compras. Isto é, cortando gastos tidos como supérfluos, como comer fora de casa, combinando os canais onde fazem as compras e optando por embalagens econômicas.

No contexto atual de retração de consumo, o pesquisador da Fundação Instituto de Administração (FIA), Nelson Barrizzelli, diz que o papel do atacadista ganha relevância. Ele conta que uma das alternativas buscadas pelos atacadistas para aumentar a competitividade e reduzir custos é consolidar as cargas na hora de distribuí-las. "Essa parceria entre os atacadistas pode representar uma redução de custos de 40%", observa.

Atacarejo. Enquanto os atacadistas tradicionais sentem a freada nas vendas, as lojas de atacado de autosserviço, também conhecidas como atacarejo porque vendem simultaneamente para o atacado e para o varejo, estão mais resistentes à crise. "Estamos melhores do que o atacado distribuidor", afirma o presidente da Associação Brasileira do Atacado de Autosserviço, Ricardo Roldão. As vendas do setor no 1.º trimestre deste ano estão empatadas com as de igual período de 2014, descontada a inflação. Ele conta que o gasto médio cresceu este ano na faixa de 10% e as lojas de atacarejo têm atraído novos clientes, afetados pela crise.

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