WILTON JUNIOR/ESTADÃO
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Estagnação nas vendas do varejo em maio pode ser sinal de retração da economia, dizem economistas

Segundo o IBGE, comércio varejista vendeu 0,1% do que em abril, com resultado pior que o esperado

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2019 | 09h26
Atualizado 11 de julho de 2019 | 21h27

RIO - As vendas do comércio varejista ficaram estagnadas em maio. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o varejo vendeu 0,1% menos do que em abril. Para alguns economistas, o ritmo lento do comércio aumenta as chances de a atividade econômica ter ficado parada no segundo trimestre ou, até mesmo, ter registrado uma retração, como ocorreu nos três primeiros meses do ano. 

A queda veio abaixo das estimativas de analistas do mercado financeiro, que sugeriam alta de 0,2% nas vendas de maio, conforme pesquisa do Projeções Broadcast.

Na visão de Isabella Nunes, gerente da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) do IBGE, os dados de 2019 sinalizam que parou a recuperação do comércio varejista, que vinha desde o fim de 2016. Nas contas do IBGE, o nível de vendas de maio está apenas 0,1% acima do patamar de dezembro de 2018.

Para a pesquisadora do IBGE, a parada é uma resposta às condições de consumo das famílias. Por um lado, o “elevado grau de incerteza deixa consumidor cauteloso”. Por outro, o “mercado de trabalho evolui com entrada muito grande de trabalhadores informais”. 

O trabalho informal, geralmente, paga salários menores do que os empregos formais, com carteira assinada. “Portanto, a renda média da economia está estável”, afirmou Isabella.

Segundo Fabio Bentes, chefe da Divisão Econômica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), os dados de maio sinalizam que o consumo das famílias não está avançando no segundo trimestre e há chances de a economia ter retraído no período de abril a junho.

“Se o PIB (Produto Interno Bruto, valor de todos os produtos e serviços produzidos na economia) vai ser -0,1% ou zero não faz diferença. A economia não andou no segundo trimestre”, disse Bentes.

O economista-chefe da Necton, André Perfeito, passou a estimar queda do PIB do segundo trimestre, de 0,1% ante os três primeiros meses do ano, após a divulgação dos dados de ontem pelo IBGE. O economista Mauricio Nakahodo, do banco MUFG Brasil, também vê chances de o desempenho do PIB ficar próximo a zero, com algum risco de queda.

Com a parada desde o fim de 2018, as vendas no varejo estão 7,0% abaixo do ponto mais alto da série histórica do IBGE (iniciada em 2001), que foi registrada em outubro de 2014. Para Bentes, que projeta crescimento de 2,1% nas vendas do varejo em 2019, a diferença para o pico, antes de o País entrar em recessão, só será recuperada em 2021.

A estimativa de Bentes para o ano fechado já contempla uma aceleração das vendas neste segundo semestre. Para o economista, o movimento poderá ser impulsionado de forma indireta pelo avanço da reforma da Previdência no Congresso Nacional. 

Com a aprovação da reforma, o governo poderá lançar mão de uma agenda de medidas de curto prazo, como liberação de recursos das contas do FGTS, queda da taxa básica de juros (Selic, hoje em 6,5% ao ano) e redução das exigências de depósitos compulsórios para os bancos, o que tende a levar a uma expansão do crédito, disse Bentes.

Mesmo os dados positivos do comércio em maio, como a alta de 1,4% nas vendas dos supermercados, não merecem tanta comemoração. Isabella, do IBGE, lembrou que essa alta foi insuficiente para anular a queda de 3,5% no acumulado de fevereiro a abril. Bentes, da CNC, lembrou que as vendas dos supermercados caíram 1,2% ante maio de 2018.

Nessa atividade, o destaque foi o comportamento da inflação de alimentos. A pesquisadora lembrou que o subgrupo “alimentação no domicílio”, dentro do IPCA, passou de uma alta de 0,62% em abril para uma queda de 0,89% em maio. “Essa atividade responde muito a preço”, afirmou Isabella.

No total, as vendas cresceram em seis das dez atividades do comércio pesquisadas pelo IBGE, na passagem de abril para maio. As duas atividades que entram apenas no cálculo do “varejo ampliado” (porque atendem não apenas o consumidor final no varejo, mas também empresas no atacado) também caíram em maio: as vendas de veículos recuaram 1,8% ante abril e as de material de construção diminuíram em 2,1%. O “varejo ampliado” avançou 0,2% em maio, por causa de efeitos estatísticos e do desempenho positivo dos supermercados, informou o IBGE. / COLABOROU THAÍS BARCELLOS

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