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Vende-se: Twitter

Se algo acontece, o primeiro rascunho com pegada social acontece no Twitter

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2016 | 05h00

O Twitter está à venda. Como sempre acontece nessas horas, o Twitter nega estar à venda. Mas seu conselho, responsável que é, não se recusa a avaliar ofertas. E não são poucas as empresas avaliando a possibilidade. Vai das principais teles americanas, como Comcast e Viacom, passa por gigantes de mídia como Disney e Fox, termina em companheiras de Vale, como Google e até mesmo o Facebook.

Medir valor é mais complicado. Porque o Twitter é complicado. Não se trata de uma gigante digital. Nunca chegou tão longe. Mas também não é daquelas histórias de fracasso e humilhação, como o Yahoo!, que não importa qual executivo esteja no comando, nunca parece descobrir a própria vocação.

O Twitter tem 313 milhões de usuários ativos. Sua maior vocação é noticiário em tempo real. Notícia e debate. Se algo está acontecendo, o primeiro rascunho com pegada social se passa no Twitter. Só depois vai para as outras redes. Há muita gente com influência por lá. E, por isso mesmo, jornalistas sentem-se obrigados a usar a plataforma para ouvir de atores a empresários, políticos e artistas.

No último ano, numa parceria com a liga de futebol americano profissional, NFL, a rede começou a transmitir partidas ao vivo. Em termos de audiência é traço perto do que a televisão oferece. Mas há muita gente prestando atenção. Pelo seguinte: é a mistura de vídeo com diálogo, com comentário de quem assiste. Este diálogo continuado gera engajamento. É assistir ao jogo e poder comentar com alguns milhões, entre eles gente cuja opinião se respeita.

À experiência da transmissão dos jogos, seguiu-se a política. O Twitter transmitiu o primeiro debate entre Hillary Clinton e Donald Trump e fará o mesmo com os próximos. De dentro de seu app para celular. Novamente se repetiu a mistura de notícia quente com debate público. Se o espectador presta mais atenção, pode atrair publicidade.

É por isso que há tantos prestando atenção. O Google, por exemplo, é grande em tudo, inclusive em vídeo, por causa do YouTube. Mas nunca conseguiu fazer uma rede social que emplacasse, que ao menos fizesse cócegas no Facebook. Do Orkut ao Google+, nada deu certo (ao menos, nada fora do Brasil). O Twitter pode ter uma fração dos usuários do Facebook, mas é uma rede de verdade com gente real que a usa muito.

Já o Facebook tem um problema distinto. Está, como aluno aplicado, tentando tornar-se relevante em vídeo. Mas não chega aos pés do YouTube. Além disso, mantém uma relação de amor e ódio com o jornalismo e o noticiário. No mundo ideal do Face, todo mundo ia conversar sobre suas próprias vidas. No mundo real, as conversas costumam ser sobre política. Adquirir o Twitter seria um atalho para dominar a arte da relação entre vídeo e noticiário.

Tanto Google quanto Facebook, porém, teriam de lidar com as reservas que agências antitruste dos EUA e, principalmente, da Europa, terão.

Para a Disney e a Fox, o problema é outro. Dominam imagem em movimento como ninguém, dominam notícia ao vivo, incluindo eventos esportivos – o que elas não têm é um pé no Vale do Silício. Ter uma rede social não seria muito caro e pode tornar-se um difusor de cultura digital. Quem não gosta da ideia são os banqueiros e a turma de Wall Street. Estas são empresas grandes e pesadas, e o Twitter representa uma daquelas ações irregulares, que nunca parecem subir muito.

Já as teles, estas andam aflitas com o risco de se tornarem a estrutura de encanamento burro para o negócio valioso dos outros. Querem molhar os pés nas redes sociais, no jornalismo, no entretenimento.

A roleta está girando. O preço gira entre US$ 18 bilhões e US$ 30 bilhões. Haverá quem pague?

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