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Vendedores de sonhos

Chegamos no fundo do poço e cavamos mais fundo várias vezes

Ana Carla Abrão*, O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2018 | 05h00

Chegamos ao fim de mais uma campanha eleitoral. Apesar de curta, esta foi talvez a mais intensa delas. Pela polarização, pela intolerância e também pela agressividade de uma militância cega de ambos os lados. As redes sociais deram voz e palco a ofensas, ataques pessoais e a muito ódio. Mas, felizmente, estamos chegando ao fim. Entre mortos e feridos, estamos todos aqui. Só não dá para dizer que salvos.

A partir da próxima segunda-feira, portanto, quem quer que seja o presidente eleito, ele terá de se desvestir das promessas vazias e enfrentar a realidade de um país em crise. Foram 45 dias de promessas criativas, de números jogados ao vento, de soluções mirabolantes e de muitas propostas populistas, várias inexequíveis e irresponsáveis.

Agora ao fim surgiram algumas mais desesperadas do que outras, como por exemplo, a de aumentar o Bolsa Família em 20% e de congelar o preço do gás. Essas chegaram já no apagar das luzes da candidatura petista. Na tentativa de angariar votos que desapareceram na onda de rejeição que vem canalizando votos para o adversário, o PT busca resgatar os truques que levaram o País à bancarrota mas que, aos ouvidos de uma população que sofre com o desemprego, soa como música. O que vale é vender sonhos, mesmo que sejam os mesmos sonhos que nos jogaram no atual pesadelo.

Pelo outro lado, também há os arroubos populistas. O 13.º para o Bolsa Família surgiu da mesma espinha – afinal, é apenas uma forma mais criativa e menos óbvia de prometer um aumento real no benefício. Mas, há que se reconhecer, aqui são ao menos mais responsáveis no discurso econômico. Ainda assim, os sonhos desse lado vêm embalados em soluções fáceis e rápidas. A começar pela zeragem do déficit público em um ano com a ajuda de privatizações que renderão R$ 1 trilhão de receitas que não se sabe de onde sairão. A promessa desconsidera que o déficit é recorrente – e o problema é muito mais de fluxo do que de estoque. A última vez que confundimos fluxo e estoque caímos no pesadelo do confisco da poupança do governo Collor.

Mas há também bons sonhos, como o de se cobrar mensalidades em universidades públicas de quem pode pagar. Medida necessária e justificável num país tão desigual, recordista de gastos com o ensino superior e carente de investimentos na qualidade do ensino básico gratuito. Inverter essa equação significa mudar um sistema perverso, que reserva aos ricos as vagas nos cursos superiores gratuitos, reforçando ainda mais a desigualdade.

Um sonho básico e que ninguém vendeu foi o da reforma do Estado. Base para tudo o que se discute e se promete, passou ao largo das propostas dos dois finalistas. No máximo passaram na tangente, com uma discussão de redução de ministérios e com a retórica da privatização. Mas o sonho todo ninguém vendeu, nem sequer sonhou.

Mas a verdade é que a realidade é complexa. Há sonhos impossíveis, vendidos para ludibriar e conquistar votos. Há sonhos possíveis e necessários, cujas dificuldades estão minimizadas num discurso que subestima um sistema que está montado para resistir.

Chegamos à reta final desta eleição surreal sabendo muito pouco sobre o que de fato é real de tudo que se tem debatido – e menos ainda o que o novo presidente conseguirá fazer dado o poder de um Congresso em grande parte fisiológico, inexperiente e muito sensível às pressões corporativistas.

A verdade é que o Brasil já passou por momentos e situações muito complicadas. Já tivemos a hiperinflação, já fomos muito mais vulneráveis em momentos de grandes crises externas, já sofremos um confisco de poupança, já tivemos de recorrer ao FMI por falta de alternativa melhor. Sobrevivemos a vários planos econômicos que não deram certo e a uma orientação criativa de política econômica que quebrou o País subvertendo os conceitos econômicos em nome de uma tal nova matriz. Chegamos no fundo do poço e cavamos mais fundo várias vezes. E cá estamos de novo.

Na próxima semana, estaremos acordando dessa campanha. Ali começaremos a entender para onde nos levarão os sonhos que, na decisão de domingo, escolhemos comprar.

* ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN. O ARTIGO REFLETEEXCLUSIVAMENTE A OPINIÃO DA COLUNISTA

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