Vender ativos do BNDES está mais difícil

Com desvalorização de 53,7% em 5 anos das participações do banco em empresas, estratégia de gerar receita extra para ajuste fiscal fica comprometida

Vinicius Neder / RIO, O Estado de S.Paulo

18 Julho 2016 | 03h00

A estratégia de vender participações societárias do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em outras empresas para gerar receita extra e ajudar no ajuste fiscal de 2017 vai se deparar com uma carteira de investimentos que vale menos da metade do que valia há cinco anos. A carteira do BNDESPar, braço participações societárias do banco de fomento, encerrou o primeiro trimestre avaliada em R$ 48,8 bilhões, 5,3% maior do que no fim de 2015, mas 53,7% menor do que no primeiro trimestre de 2011.

Em recente entrevista ao Estado, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles citou a venda de participações do BNDES como uma possível fonte de receita extra para cumprir a meta fiscal de 2017. O objetivo de registrar déficit primário (saldo negativo entre despesas e receitas públicas, sem contar juros) de R$ 139 bilhões ainda depende de uma receita extra de R$ 55 bilhões.

Segundo a presidente do BNDES, Maria Silvia Bastos Marques, a nova diretoria do banco está estudando a carteira de investimentos do BNDESPar, mas não há uma meta de venda. A executiva disse que não há conversas sobre isso com o Ministério da Fazenda. “Se em algum momento entendermos que aquele investimento está na hora de ser desmobilizado, vamos fazer. Até porque o objetivo da carteira é sempre investir em novos projetos. Agora, a gente não pode ter uma meta”, disse Maria Silvia na semana passada, após participar de um seminário, na FGV, no Rio.

Para William Eid Jr., professor da FGV em São Paulo, embora a estratégia de se desfazer de parte das participações societárias seja positiva para o BNDES, não dá para contar com essas operações como fonte de receita. O problema é que essas fatias são difíceis de vender, disse. “Muitas empresas foram favorecidas com aportes sem ter muitas condições”, criticou.

JBS. O BNDESPar fez investimentos polêmicos, como a compra de participação e de títulos da dívida do frigorífico JBS. A fatia do banco de fomento na empresa é de R$ 6,1 bilhões, com dados do primeiro trimestre. Também houve operações que deram prejuízo, como a compra de 30% da fabricante de lácteos LBR.

Apesar disso, o principal investimento na carteira do BNDES é na Petrobrás. O BNDESPar tem R$ 11,4 bilhões em ações da petroleira, 23% do total de investimentos. Além disso, o banco de fomento possui participação direta na estatal. No total, 17% do capital da Petrobrás pertencem ao BNDES. Essa fatia encerrou 2015 avaliada em R$ 16,3 bilhões – em 2012, antes da operação Lava Jato, de atrasos na publicação do balanço e da crise da Petrobrás, a mesma fatia valia R$ 43,9 bilhões.

No primeiro trimestre, o BNDESPar registrou prejuízo de R$ 1,8 bilhão, sobretudo por causa de uma baixa contábil de R$ 2,6 bilhões por causa dos investimentos na Petrobrás. Ano passado, o prejuízo foi de R$ 7,6 bilhões, na esteira de uma baixa contábil de R$ 12,6 bilhões por causa da petroleira.

Como o momento de mercado não é favorável, o BNDESPar teria de lançar mão de operações estruturadas para vender suas participações com lucro, disse Wallim Vasconcellos, sócio da gestora Iposeira Capital. Algumas das opções são testar o apetite de investidores, escolher empresas que tenham mais interessados e fazer leilões de fatias inteiras nas companhias, em vez de vender as ações aos poucos. “O momento não é propício, por isso tem de fazer esse tipo de estrutura”, disse Vasconcellos, ex-diretor do BNDES. Segundo ele, não é possível vender uma carteira de R$ 48 bilhões, “nem no médio prazo”, mas seria possível levantar de R$ 2 bilhões a R$ 3 bilhões.

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