Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

'Vendo sem saber a margem; é absurdo'

Por falta de consenso com Petrobrás, preço da nafta está em aberto; Fadigas diz esperar ao menos uma solução de curto prazo

Entrevista com

Carlos Fadigas, presidente da Braskem

MARINA GAZZONI, O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2015 | 02h02

Para a Braskem, pior do que estar em uma queda de braço há dois anos com a Petrobrás, seu maior fornecedor e acionista dona de 36% da empresa, é não ter com quem sentar para negociar. Em meio ao iminente vencimento do contrato de fornecimento de nafta, principal insumo da indústria petroquímica, no fim do mês, o presidente da Braskem, Carlos Fadigas, já apelou para o governo para pedir que o tema seja prioridade do novo presidente da estatal, Aldemir Bendine, anunciado na sexta. A Braskem diz que sua situação é dramática. O preço da nafta está em aberto desde agosto e a empresa não tem garantia da entrega do produto a partir de 1.º de março - o que fez com que seus investimentos e os de clientes ficassem congelados. Além disso, a empresa passou a vender seus produtos sem saber qual é sua margem de lucro. A seguir, trechos da entrevista com Fadigas:

Como está a negociação com a Petrobrás?

Está muito difícil por causa da situação da própria Petrobrás. Mas hoje, não vou dizer que está difícil porque nem temos um interlocutor na empresa.

Com quem a Braskem negociava o preço da nafta?

Com a diretoria de abastecimento (o diretor José Cosenza renunciou quarta-feira).

Por que não houve acordo?

É fato público que a diretoria estava sob pressão e já tinha pedido para sair. Como eles iriam discutir a fórmula dos próximos cinco anos para o preço da nafta se nem o balanço conseguiram publicar?

A Petrobrás anunciou hoje (sexta) seu novo presidente. Dá tempo de negociar a nafta com ele?

Entendo que, para quem chega agora na Petrobrás, fechar isso em dez dias úteis é além do razoável. Queremos pelo menos renovar o aditivo por seis meses para depois desenhar com a nova equipe uma solução de longo prazo. Muitas pessoas vão procurá-los para tratar de temas pendentes. Por isso, eu e outros oito presidentes de indústrias químicas estivemos ontem (quinta) em Brasília para pedir a ajuda do ministro do Desenvolvimento, Armando Monteiro, nessa questão.

O sr. acha que é o caso de uma intervenção do governo?

Eu não usaria a palavra intervenção. Seria mais uma orientação do governo, que é o acionista controlador da Petrobrás, para que a diretoria priorizasse esse assunto e evitasse um prejuízo maior para a economia brasileira.

O que acontecerá se o contrato não for renovado até dia 28?

Não sei o que acontece no dia seguinte. Nas outras vezes em que discutimos a renovação do contrato, a Petrobrás disse que, sem contrato, não haveria fornecimento de nafta.

Então existe um risco de a Braskem ficar sem produto?

No pior cenário, sim. Eu sinceramente não sei se a Petrobrás vai mesmo parar de nos fornecer nafta, porque foi uma posição colocada no passado, mas felizmente encontramos uma solução. Mas, agora, sem contrato, isso é um risco real.

Existe um risco real de as fábricas pararem?

Existe. O Brasil tem quatro polos petroquímicos. Só o do Rio de Janeiro não seria afetado, porque é movido a gás. Os de São Paulo, Rio Grande do Sul e Bahia usam nafta e seriam afetados com certeza.

Vocês podem importar para suprir a demanda?

Hoje importamos 30% da nafta que consumimos. Importar mais é inviável do ponto de vista logístico e financeiro. Pagamos um adicional de frete.

Qual o preço cobrado pela Petrobrás atualmente?

O preço está em aberto e será fechado no futuro. Desde agosto do ano passado estou comprando matéria-prima por um preço que não sei qual é.

E como a Braskem vende para os clientes se não sabe o custo?

Temos contratos com preço estabelecido, então, vendo sem saber a margem. É absurdo.

Como são negociados os contratos em meio a esse impasse?

Essa incerteza tem prejudicado decisões de investimento da Braskem no Brasil e das indústrias químicas que usam nossos produtos como insumo. Eu tive de dizer para meus clientes que só tínhamos contrato de dois, três meses para receber matéria-prima. Hoje é um contrato de duas semanas. Tenho clientes que querem expandir suas fábricas e outros querem fazer projetos novos, mas todos nos pedem um contrato de longo prazo para lhes fornecer insumos, algo como 15 anos. Com esse impasse sobre a nafta, nós não temos condições de negociar nada por 15 anos. Então ninguém investe.

O sr. pode dar exemplos de investimentos congelados?

Temos uma fábrica nova de ABS, um químico usado para fabricar computadores, na Bahia, e outra de borracha sintética no Rio Grande do Sul que dependem da decisão sobre o nafta. A soma desses investimentos chega a R$ 1 bilhão.

Qual o impacto do reajuste da nafta para a Braskem?

O setor petroquímico tem margem de 8% e briga muito para ganhar 10% ou 12%. Se tivermos de pagar 7% a mais pela nafta, podemos perder 70% do resultado e algumas fábricas ficam inviáveis. Teremos de parar a planta. Não dá para rodar perdendo dinheiro.

Quantas fábricas são inviáveis com um reajuste de 5%?

Aproximadamente um terço da nossa capacidade produtiva estaria comprometida e isso deixaria sem insumos todas as indústrias que são nossas clientes. Pelas contas que fizemos seis meses atrás, o polo de São Paulo e uma parte das nossas fábricas da Bahia não seriam viáveis. É por isso que não aceito esse aumento. O setor petroquímico foi criado para agregar valor ao petróleo brasileiro. De repente, a Petrobrás tenta inverter uma lógica de 50 anos só porque o consumo de gasolina subiu e dizer para o setor 'se virem com nafta importada, porque o produto virou gasolina'. É absurdo. Não cabe a nós pagar a conta da política do combustível do governo.

Se a decisão da Petrobrás for elevar o preço da nafta em 5%, novos projetos são viáveis?

Com 5% a mais não rodamos nem o que temos, quanto mais fazer fábrica nova.

A Petrobrás é, ao mesmo tempo, a maior fornecedora da Braskem e a segunda maior acionista. Não há conflito de interesse?

Não. Cada equipe comercial defende o seu lado.

Hoje seus maiores acionistas, Odebrecht e Petrobrás, são investigados pela operação Lava Jato. Como isso afeta a Braskem?

É claro que gostaríamos que os nossos acionistas estivessem em outro momento. Mas isso não nos afeta diretamente. A Braskem tem administração independente. Indiretamente, (a investigação) afeta a economia do Brasil inteiro.

A Braskem está sendo investigada?

Não.

Três conselheiros da Braskem são diretores da Petrobrás que renunciaram. Eles continuarão?

Essa decisão não cabe a mim, mas ao acionista. Entendo que, havendo uma diretoria nova, a Petrobrás indicará novos nomes para o conselho da Braskem. Obviamente, algumas decisões específicas, como aquisições, temos de submeter ao conselho de administração. Mas hoje temos um conselho.

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