Venezuela entrou cedo no Mercosul, avaliam especialistas

A entrada da Venezuela no Mercosul foi precipitada e motivada puramente por interesses políticos, não econômicos, segundo especialistas reunidos no seminário Mercosul + 1: conseqüências da entrada da Venezuela, que ocorre no Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).A economista Sandra Rios, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), disse que poderá haver dificuldades em harmonizar a Tarifa Externa Comum (TEC) do Mercosul com a Venezuela, porque apesar da tarifa média de importação lá ser próxima à TEC, os interesses de proteção por setor são opostos aos dos demais sócios. Ela citou que a Venezuela protege muito a agricultura e agroindústria, setores em que a posição dos demais sócios é ofensiva.De acordo com ela, não havia muito interesse econômico para o Brasil trazer a Venezuela a não ser pela integração energética, mas que depende de questões regulatórias ainda a negociar. Sandra lembrou que o Mercosul já tinha acordo com a Comunidade Andina de Nações (CAN), feita em 2003, pelo qual a Venezuela já tinha o compromisso de livre comércio total com o Mercosul a partir de 2018. O ingresso da Venezuela ao Mercosul "só adiantou esse prazo para 2014", disse.Do lado político, a professora Francine Jàcome, do Instituto Venezuelano de Estudos Sociais e Políticos, acha que a adesão de seu país à sociedade fundada por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai "foi precipitada dos dois lados" e prevê que a "autoproclamada liderança da Venezuela no Mercosul" vai provocar tensões no bloco.De acordo com ela, tanto se o Mercosul pretender harmonizar as políticas exteriores de seus integrantes, quanto se quiser fazer uma "cláusula democrática, com condições como a independência entre os três poderes e transparência nas eleições, a presença da Venezuela levará a desacordos". Francine também disse que uma eventual radicalização no confronto entre Caracas e Washington pode provocar problemas para o Mercosul ou levar o bloco a um papel de mediador do conflito.EUAO professor do Instituto de Estudos Superiores de Administração da Venezuela, José Manuel Puente, comparou as relações entre seu país e os Estados Unidos a "um casamento sem amor, em que os parceiros seguem juntos se odiando, porque é mais custoso romper" Ele observou que, "apesar do discurso incendiário, os Estados Unidos são o principal parceiro comercial da Venezuela". Metade das exportações de seu país são para os Estados Unidos, que também são o principal país de origem da importações venezuelanas.Já a entrada da Venezuela no Mercosul para ele é como "um casamento medieval", em que os noivos antes de tudo se casam, em vez de primeiro namorarem e pensarem nas vantagens e desvantagens do casamento antes de se decidirem. De acordo com Puente, a intenção do presidente Chávez ao propor a entrada da Venezuela no Mercosul foi "minimizar as relações econômicas e políticas com os Estados Unidos".Puente e Francine Jàcome não acreditam que o governo Chávez levará a cabo a idéia que está sendo discutida no país de destinar à China as exportações de petróleo que hoje vão para os Estados Unidos. "Uma coisa é retórica e outra é prática. É muitíssimo mais fácil e mais barato transportar petróleo para os Estados Unidos que para a China", disse Francine.O presidente do Cebri, embaixador José Botafogo Gonçalves, irônico, destacou a "absoluta simetria no Mercosul: Chávez (presidente venezuelano, Hugo Chávez) decidiu que a Venezuela entraria no Mercosul sem consulta a ninguém (exportadores, importadores, trabalhadores etc) e os presidentes dos outros países do Mercosul também aceitaram sem consulta a ninguém".

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