Venezuela representa riscos e benefícios ao Mercosul

A entrada da Venezuela no Mercosul representa, ao mesmo tempo, riscos e benefícios para uma eventual retomada das negociações comerciais entre o bloco sul-americano e a União Européia. Essa é a avaliação do embaixador João Pacheco, chefe da Delegação da Comissão Européia no Brasil.Embora as negociações para um acordo comercial entre os dois blocos estejam praticamente paralisadas há mais de um ano, por conta das dificuldades de se concluir a Rodada Doha, na Organização Mundial de Comércio (OMC), Pacheco acredita que as negociações bilaterais poderão ser retomadas de imediato, caso a finalização de Doha se mostre inalcançável ainda neste ano.Nesse caso, o novo sócio do Mercosul seria um elemento novo para os negociadores. Para o embaixador europeu, a Venezuela poderia vir a ser um risco porque o presidente Hugo Chávez criou alguns atritos com vizinhos, com os Estados Unidos e até com o Brasil, e esse comportamento poderia desagregar ainda mais Mercosul.Mas, ao mesmo tempo, Pacheco não acredita que Chávez terá um comportamento controverso dentro do bloco. Ao contrário. Politicamente, o Mercosul é importante à Venezuela porque integra o país a um ambiente democrático, de respeito a regras. E isso facilita o fechamento de acordos internacionais. "Talvez por isso Chávez não deseje desagregar o bloco", afirmou.Do ponto de vista exclusivamente comercial, a Venezuela é um grande exportador de petróleo e um grande importador de quase tudo. "É uma grande oportunidade para os exportadores", disse, ressaltando que, mais cedo ou mais tarde, o Mercosul e os Estados Unidos fecharão um acordo comercial, mesmo com a Venezuela fazendo parte do bloco.Oferta agrícolaPacheco afirmou ainda acreditar que a União Européia tem condições, agora, de melhorar suas ofertas na área agrícola no caso de uma eventual retomada das negociações comerciais com o Mercosul. "Não será por causa da agricultura que deixaremos de fazer um acordo bilateral", afirmou, ressaltando que entre 2004 e 2006, período em que as negociações ficaram paralisadas, a UE fez a reforma da Política Agrícola Comum (PAC) e foi condenada na OMC por subsidiar a produção de açúcar - em ação movida pelo Brasil."Nossa margem para negociação com o Mercosul é muito maior hoje e podemos oferecer mais abertura", disse. E exemplificou: em 2004, a UE ofereceu abrir ao Mercosul um mercado de 100 milhões de tonelada de carne ao ano, de forma gradual. Nas negociações da OMC, a UE ofertou abrir seu mercado para 800 milhões de toneladas. Isso significa que, nas negociações bilaterais entre os blocos, há agora outro cenário.Pacheco ressaltou, no entanto, que um dos entraves ao fechamento de um acordo bilateral em 2004 foi a posição argentina, que resistia, e ainda o faz, a ser um exportador basicamente de produtos agrícolas e importadora de automóveis e autopeças. Agora, no entanto, a Argentina demonstra recuperação econômica e teria melhores condições de absorver manufaturados europeus e eventualmente se transformar em uma plataforma de exportações de manufaturados para a região e outras partes do mundo.

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