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Verdade e consequências

Nos dois países, as eleições presidenciais levaram ao poder líderes inexperientes

Albert Fishlow*, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2019 | 04h00

Brasil e Estados Unidos estão ignorando que boa governança incorpora diferenças de opiniões. Em lugar disso, ambos procuram regularmente atender apenas a alguns interesses especiais e minoritários. Exemplos não faltam.

Aqui, o procurador-geral William Barr tenta desviar as atenções do Relatório Muller investigando “erros” da comunidade de informações desde 2014. A CIA concordou em colaborar. O presidente Trump deixou clara sua posição: não há nada de errado em acessar informações sensíveis de outros países.

Mas o controle da Câmara acaba de passar para as mãos da oposição democrata. Ela vem convocando regularmente audiências sobre matérias decisivas, como a intenção de se inquirir sobre a cidadania de todos no censo de 2020. Há uma tentativa de se reduzir a contagem de imigrantes ilegais. A questão se estende à distribuição de recursos para a educação entre os Estados.

Isso não desestimula a busca de mais informações sobre o Relatório Mueller. Há mesmo um crescente interesse em alimentar acusações de impeachment contra Trump. Mas Nancy Pelosi desencorajou (corretamente, em minha opinião) tais esforços

A política externa dos Estados Unidos continua um desastre. Trump tem uma predileção por líderes da mesma estirpe diversionista. Ele gosta de impor tarifas e de outras intervenções. Está sempre em busca do grande acordo, além da capacidade de todos, para mostrar sua superioridade. É nada menos que um moderno Nero.

No Brasil, o ministro da Justiça, Sergio Moro, acaba de se confrontar com a divulgação de gravações de suas mensagens a um promotor sobre o caso Lula. Todas as pesquisas indicavam Lula na frente na corrida presidencial de 2018. Sua ausência foi crítica para a vitória de Bolsonaro. Isso está causando duas preocupações.

Uma é que a Lava Jato esteja naufragando. Lula já pediu sua libertação – legitimamente, segundo algumas autoridades legais. O grande poder do Judiciário, muito ampliado pelas investigações, vai inevitavelmente diminuir.

A segunda preocupação é o inevitável estresse adicional que surgirá entre o Congresso e o presidente, que já tentou sugerir que a informação divulgada transmite uma impressão errada. Moro concordou em testemunhar no Senado. A situação pode facilmente desviar as atenções do debate sobre a reforma da Previdência, matéria que precisa ser resolvida com urgência.

Nos dois países, os resultados de recentes eleições presidenciais levaram ao poder líderes inexperientes e com notórios preconceitos de gênero, orientação sexual e religião. Além disso, há uma determinação em fugir da supervisão federal e da responsabilidade pública. O setor privado sempre está certo, mesmo quando não está.

Nos dois países há uma sensação de volta a raízes nacionais fortes e clara rejeição ao globalismo que antes prevalecia. Regras sensatas, como a redução gradual de grandes déficits, deram lugar a uma crescente se equivocada crença na política de baixar impostos e diminuir regulamentações. Nos EUA isso já está em andamento.

No caso do Brasil, logo haverá um grande aumento de gastos, graças, por meio de um novo mecanismo que evita a contenção anterior. Mas isso pouco fará por um crescimento rápido. Mesmo a reforma da Previdência social é uma investida necessária, mas insuficiente. E essa salvação final presume um índice mais alto de expansão do que é possível com um investimento que continua baixo.

O déficit fiscal conta, e deveria ser uma fonte de preocupação nos dois países. Taxas de juros mais baixas reduziriam o custo do governo, mas é improvável que levem a um crescimento econômico consistente de longo prazo. Isso exigiria não apenas uma melhor avaliação dos problemas, mas iniciativa que una governo e todos os setores da sociedade.

De algum modo, no século 21 o mundo parece ter evoluído rapidamente de uma democracia global em expansão para um crescente populismo nacionalista. Isso pode deixar muitos deprimidos, mas o centro, enfraquecido, ainda pode se recuperar e voltar à cena. Como disse William Shakespeare: “Nosso destino não pertence aos astros, mas a nós mesmos”. Oportunidades não faltam. /TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*ECONOMISTA E CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR EMÉRITO NAS UNIVERSIDADES DE COLUMBIA E DA CALIFÓRNIA EM BERKELEY

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