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Verdadeiro risco sistêmico estaria na Itália

Sistema italiano precisaria de € 80 bi a € 100 bi para superar dúvidas que pairam nos mercados

Andrei Netto | CORRESPONDENTE - PARIS, O Estado de S. Paulo

02 de outubro de 2016 | 05h00

Enquanto as ações do Deutsche Bank sofrem nas bolsas de valores, a verdadeira bola de neve do sistema financeiro da União Europeia continua rolando montanha abaixo. Trata-se dos bancos da Itália, terceira maior economia da zona do euro. Em estagnação desde 2009, a economia italiana não estimula a lucratividade do setor, ainda minado pelos créditos de baixa qualidade.

O alerta se reforçou nos últimos meses em razão da instabilidade do sistema financeiro italiano. Quatro instituições faliram e duas foram resgatadas com recursos privados – entre os quais o Monte dei Paschi di Siena (MPS), o terceiro mais importante do país. A situação só não é pior, e comparável, por exemplo, à da Grécia, porque dados macroeconômicos como o superávit primário e o início da retomada econômica têm compensado parte da fragilidade. 

Mas fatores locais, como as dívidas de pequenas e médias empresas, muito dependentes da conjuntura econômica, são outra fonte de instabilidade, entendem especialistas. Com a inadimplência em alta – de 10% em 2008 para 28% em 2016 –, essas empresas fazem pesar um risco suplementar, já que representam 17% do capital dos bancos do país. Estimativas indicam que, em caso de nova crise de crescimento aguda ou prolongada, € 360 bilhões em créditos podem não retornar aos cofres dos bancos – o que representa 22% do PIB da Itália. 

Para Nicolas Veron, cofundador do Instituto Bruegel, a ameaça de uma crise de grande alcance não está na Alemanha, mas na Itália, onde o sistema financeiro fragmentado e endividado corre o risco real de desmoronar. “O verdadeiro problema é o sistema italiano, que é um caso clássico de sistema bancário zumbi”, entende Veron. “Há um círculo vicioso: os bancos estão em mau estado, o que pesa sobre o crescimento, que por sua vez pesa sobre o desempenho dos bancos.”

Em entrevista ao jornal Le Monde, o diretor de estudos e pesquisas do banco Natixis afirmou que o sistema italiano é hoje um problema político maior no interior da União Europeia. “Seria necessário recapitalizar os bancos italianos em € 80 bilhões a € 100 bilhões para que eles possam enfrentar seu estoque gigante de ativos duvidosos não provisionados”, diz. 

Não bastassem os problemas internos dos bancos, a incerteza política na Itália também pesa. Ainda em 2016 os italianos irão às urnas em um plebiscito que decidirá pela adoção ou não da reforma política realizada pelo primeiro-ministro Matteo Renzi. Caso o texto seja rejeitado, ele promete renunciar ao cargo. Soma-se ainda ao pacote de instabilidade a política de juros próximos a zero do Banco Central Europeu, que mina a rentabilidade do sistema financeiro no continente. 

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