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Veteranos de Wall Street criam 'Bolsa de Valores' para negociar maconha

Erva legalizada já gera US$ 5 bilhões em negócios nos EUA, com potencial para chegar a cerca de US$ 40 bilhões; maior dificuldade é padronizar o produto

Brian Louis, Bloomberg

08 de março de 2016 | 16h44

A maconha legalizada já é um negócio de US$ 5 bilhões nos Estados Unidos e Steve Janjic achou que poderia abocanhar uma parte com uma bolsa de negócios da commodity. Um produto que não pode ser transportado através das fronteiras estaduais. Mas sem preocupação. "Nunca é fácil ser pioneiro de um setor", diz Janjic, ex-executivo da área de câmbio da Tullet Prebon que injetou um milhão de dólares na Amercanex Corp.,  plataforma eletrônica de transações com maconha com vendas de cerca de 45 a 68 quilos da erva por semana. Não é exatamente um enorme sucesso num país com cerca de 20 milhões de consumidores. Mas não é tão mal para uma bolsa ainda iniciante de uma substância psicoativa que está em parte legalizada, considerando que ela é ilegal com base na lei federal. 

Janjic e outros veteranos de Wall Street que apoiam a Amercanex pensam a longo prazo. Apenas quatro Estados e o Distrito de Colúmbia autorizaram a venda do produto para uso recreativo e Nevada poderá se juntar a eles depois da votação de novembro. Em 23 Estados a droga é autorizada para fins medicinais. Pesquisas mostram que para a maioria dos americanos ela deve ser considerada tão lícita quanto a cerveja, o que dá à empresa grandes esperanças. "Penso que a situação é igual à da Nymex (New York Mercantile Exchange) no seu início. Acho que a empresa vai se tornar um motor de busca muito importante para reunir compradores e vendedores", disse Richard Schaeffer, ex-presidente da New York Merchantile Exchange. 

 Schaeffer, 63 anos, é  chairman da Amercanex e Janjic, 49, é diretor executivo e cofundador. Entre outros executivos  envolvidos estão o operador de futuros Timothy Petrone, membro da Nymex e da Chicago Board of Trade, o ex-membro da Nymex, David Greenberg e James McNally, que é membro da Nymex, da Commodities Exchange e da Hong Kong Futures Exchange. Ao que conste, nenhum deles é usuário de maconha, o que não tem a mínima importância. Mesmo pessoas intolerantes ao glúten podem enriquecer na bolsa de futuros de trigo.  

Mas o dinheiro obtido com transações de flores e folhas da maconha é sério? O fato é que a Amercanex não será a única a apostar no negócio. Sohum Shah, 26 anos, formado na Universidade do Arizona, lançou a CCE - Cannabis Commodities Exchange três meses antes da Amercanex. A CCE opera somente no Colorado, que se tornou em 2012 o primeiro Estado a votar pela legalização da maconha para fim recreativo. 

A Amercanex está no Colorado e na Califórnia, o primeiro Estado a autorizar a erva para esse fim. Janjic diz que existem planos para expandir o negócio. Os obstáculos são consideráveis. Para uma bolsa funcionar plenamente, uma commodity tem de ter especificações padronizadas e se submeter a uma fiscalização por parte de órgãos reguladores, do mesmo modo que produtos como milho ou metais, para que todos tenham segurança do que estão comprando e vendendo, diz Dale Rosenthal, professor de finanças na Universidade de Illinois em Chicago. "Também não existe um preço de referência claro" para a maconha pura, um outro aspecto problemático, segundo o professor. 

A erva é oferecida numa faixa muito ampla de qualidade, potência e preço; a maconha legalizada não está à venda há muito tempo, portanto ainda não existem padrões nacionais. Os pontos de venda tradicionais e os mercados de futuros no caso do trigo ou do petróleo bruto estão ligados a uma única variedade, amplamente aceita com um padrão de qualidade mínimo. 

Os compradores da Amercanex não estão operando às cegas, diz Janjic, porque a bolsa envia o que é vendido em sua plataforma para um laboratório para avaliação e compartilhamento dos resultados. Mas há um problema: compradores e vendedores têm de estar no mesmo Estado. O governo dos Estados Unidos é que fiscaliza o comércio interestadual e a venda ou posse de maconha são crimes federais. Portanto, o problema é vender o produto através das fronteiras - e a Amecarnex é uma bolsa para negócios à vista de compras físicas e não de futuros ou contratos de opção. 

No momento a lei federal ainda é o risco", diz Janjic. No Colorado, até janeiro de 2015 os fornecedores estavam obrigados a cultivar o que vendiam e muitos ainda o fazem. "Na minha opinião, a única maneira de nos sairmos bem é plantar nossa própria erva", diz Bruce Nassau, CEO da Tru Cannabis, que possui cinco lojas. "Se comprar de um atacadista, você está lascado". 

No Oregon e no Alasca, os comerciantes podem usar sua própria matéria prima, mas Washington legalizou a maconha em 2014 com uma lei que proíbe os varejistas de plantarem a erva. "Num sistema como este, as bolsas são mais úteis", diz Adam Orens, sócio fundador do Marijuana Policy Group.  

A Amercanex foi criada  em julho de 2014 com 20.000 títulos patrimoniais, embora tenha dado baixa em 8.000. Os títulos começaram a ser vendidos por US$2.500 cada um e estão hoje em US$ 10.000, diz Janjic. Sete mil ainda estão à venda. Dixie Brands Inc, fabricante de produtos à base de tetraidrocanabinol adquiriu um título no ano passado e tem uma participação acionária. 

A Amercanex ajudará a distribuir os produtos da Dixie Brands de modo mais eficiente, diz o CEO Tripp Keber. "Você começa a ver outros players entrando no mercado, e acho que este  é um forte endosso". Para McNally, que integra o conselho consultivo de três membros e detém um título, fazer parte de um novo setor é empolgante. "Lembro-me quando comecei a trabalhar", diz ele, lembrando seus dias como operador de opções no Hang Seng Indez em Hong Kong, nos anos 90. "É ótimo". 

No ano passado as vendas de maconha legalizadas aumentaram 17%, para US$ 5,4 bilhões, de acordo com informe da ArcView Market Research e New Frontier, e se cada Estado tivesse legalizado o comércio de maconha o montante poderia chegar a US$ 36,8 bilhões.  Foram iniciadas campanhas para coletar assinaturas para a votação de novembro. "A Califórnia é muito importante. Está em vias de se tornar o maior mercado no mundo". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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