Sandy Huffaker/AFP -20/5/2020
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Viagens aéreas aumentam 123% nos EUA! (Cuidado com informações falaciosas como essa)

Tecnicamente, esse é um número preciso, mas tudo está errado se você souber algo sobre a realidade do setor aéreo; na semana até o último domingo, 221 mil pessoas passaram pelos aeroportos americanos, enquanto no mesmo período do ano passado o movimento era de 2,4 milhões de pessoas por dia

Neil Irwin, The New York Times

21 de maio de 2020 | 10h00

Você ouviu falar sobre a crescente indústria de viagens aéreas? Cresceu 123% nos Estados Unidos apenas no último mês! 

Tecnicamente, esse é um número preciso. Nos sete dias terminados no domingo, 17, uma média de 212.580 pessoas passaram pelos postos de segurança dos aeroportos dos Estados Unidos, acima das 95.161 na semana encerrada em 17 de abril. 

Mas é claro que tudo está errado se você souber algo acerca da realidade subjacente do setor de viagens aéreas. Neste período, há um ano, 2,4 milhões de pessoas por dia passaram pelos mesmos postos de segurança. Qualquer medida razoável usada para a comparação mostra que esses são tempos desastrosos para o tráfego aéreo. Só que a paralisação das atividades em março e no início de abril fez com que até a leve recuperação ocorrida parecesse um enorme aumento em termos percentuais. 

Prepare-se para que o mesmo efeito se aplique a todos os tipos de números - principalmente com dados econômicos. Essas oscilações são artefatos da aritmética da mudança porcentual. Mas se você não estiver sintonizado com o efeito ioiô que provavelmente veremos em dados cruciais nos próximos meses, poderá ter uma impressão enganosa de onde se encontram os Estados Unidos (no meio disso tudo).

Em particular, quando parte da atividade comercial paralisada pela pandemia começar a voltar, os dados econômicos podem criar a impressão de uma economia em expansão no verão e no outono - mesmo que seja o equivalente a aqueles números de viagens aéreas. 

Isso, por sua vez, aumenta a possibilidade de que os formuladores de políticas declarem que “suas missões foram cumpridas com sucesso" e não tomem ações para fazer reagir uma economia profundamente abatida por causa dos aparentes tempos de expansão.

Isso também estabelece uma discussão no ano eleitoral em relação à economia, na qual o presidente Donald Trump e seus aliados se orgulham do maior crescimento já registrado, enquanto os democratas argumentam que a economia está em um estado desastroso. Ambos estariam corretos.

Quando algo cai 10% e depois aumenta 10%, pode parecer que termina no ponto em que começou. Mas não é assim que a matemática funciona.

Uma queda de 10% de 100 para 90, seguida de um ganho de 10%, retornaria apenas para 99. Com oscilações maiores, esses efeitos se tornam mais impressionantes. Uma queda de 40% seguida de um ganho de 40% resultaria em uma quantidade 16% abaixo do ponto inicial.

Em extremos ainda maiores, você acaba com números absurdos como os do exemplo do tráfego aéreo, nos quais uma queda de 96% seguida por um ganho de 123% deixa você com um número ainda 91% abaixo do habitual.

Quando se trata de Produto Interno Bruto (PIB), que é a medida mais ampla de como a economia está, as coisas ficam ainda mais esquisitas por causa das convenções acerca da divulgação desse cálculo nos Estados Unidos. Os economistas geralmente analisam os dados anualizados do PIB, mostrando quanto a mudança na produção econômica ao longo de um período de três meses se traduziria se mantida por um ano. 

Em tempos normais, isso funciona bem o suficiente. Se a produção da economia for 0,5% maior no segundo trimestre do que no primeiro, isso se traduz em um crescimento anualizado de cerca de 2%. 

Mas em 2020, essa convenção exagerará ainda mais o efeito ioiô das mudanças percentuais. Com as paralisações em massa por causa da pandemia, os Estados Unidos produzirão muito menos bens e serviços no atual trimestre, de abril a junho, do que no primeiro trimestre. 

Suponha que a queda do PIB seja um pouco acima de 13%. Por causa da convenção de números anualizados, isso geraria manchetes dizendo que o PIB do segundo trimestre caiu 42,8% - o que, por acaso, é o número atualmente calculado pela estimativa em tempo real do PIB do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de Atlanta.

Então, imagine que, no terceiro trimestre, o nível real de atividade aumente 5%, à medida que algumas empresas reabrem. Por causa das convenções de anualização, isso seria relatado como um aumento de 21,6% no PIB.

Esse seria o melhor trimestre de crescimento já registrado, com uma ampla margem. Você pode apostar que o governo Trump a promoveria como evidência da volta da economia à grandeza. E observe que a primeira estimativa do número está programada para ser divulgada em 29 de outubro, apenas cinco dias antes da eleição presidencial.

No entanto, a produção econômica ainda estaria 9% abaixo de onde começou. Ainda estaria em um buraco cuja profundidade é cerca do dobro daquele da recessão de 2008-2009.

Provavelmente haveria uma reviravolta especialmente na dinâmica política que acompanharia um número de crescimento no terceiro trimestre nesse sentido. Nos primeiros três anos do governo Trump, a Casa Branca promoveu dados como a baixa taxa de desemprego e o forte nível de atividade econômica. 

Os democratas enfatizaram que as taxas de crescimento apenas mantiveram o nível estável do segundo mandato do presidente Barack Obama. É provável que o padrão seja revertido neste verão e outono, com Trump e seus aliados enfatizando as taxas de crescimento e democratas enfatizando os níveis.

Portanto, nos próximos meses, será mais importante do que o habitual entender claramente o que um número está realmente nos dizendo. Os dados mensais ou trimestrais tornam-se menos significativos quando os padrões habituais desses dados são completamente alterados.

A estratégia sensata é comparar as informações recebidas com os mesmos dados mostrados antes da crise - como analisar os níveis do PIB em relação ao quarto trimestre de 2019 em vez de oscilações trimestrais. Isso significa evitar números anualizados por enquanto.

E, mais do que tudo, isso significa pensar cuidadosamente sobre o que um determinado número realmente significa e não apenas assumir uma mudança porcentual aparentemente de tirar o fôlego pelo valor nominal. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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