Amanda Perobelli/Reuters
Amanda Perobelli/Reuters

‘Na Vibra, os custos caíram 40% após a privatização’, diz presidente da empresa

Para o executivo, aumento de eficiência e investimentos em novos negócios levaram valor de mercado da companhia a mais que dobrar em dois anos

Entrevista com

Wilson Ferreira Jr, presidente da Vibra Energia e ex-presidente da Eletrobras

José Fucs, O Estado de S. Paulo

05 de junho de 2022 | 05h00

O presidente da Vibra Energia, Wilson Ferreira Jr., ex-presidente da Eletrobras, assumiu o comando da empresa em março de 2021, dois anos depois da privatização da antiga BR Distribuidora. Neste período, concluiu o “choque de custos” na companhia, iniciado ainda antes da desestatização, e diversificou as suas atividades, na direção do que ele chama de “transição energética”, por meio de investimentos nas áreas de biocombustíveis e de energia solar e eólica.

Em entrevista ao Estadão, Ferreira Jr. diz que o Brasil “tem a matriz de energia mais limpa do mundo” e que a demanda de combustíveis fósseis não vai diminuir da noite para o dia, mas de forma lenta e gradual. Ele mergulha também nas mudanças que está promovendo na gestão e na estratégia da Vibra. “Eu estou muito feliz”, afirma, ao comentar o desafio de atuar numa nova área, depois de mais de 40 anos dedicados ao setor de energia elétrica. “O que me fascina é que este é um setor muito competitivo. Tem que ter qualidade de produto e custo.  No setor de energia, o mercado era regulado e os clientes compravam o que a gente vendia. O mercado estava garantido. Aqui, não. Você tem que ir atrás. Para mim, o legal é isso.”

O ministro Paulo Guedes costuma dizer que o Brasil tem de aproveitar logo o petróleo, extraindo o que for possível o quanto antes, porque daqui a 20 anos, com a crescente preocupação com o meio ambiente e o aquecimento global, vai perder valor e relevância. O sr. concorda com ele?

Não. Eu sempre digo que a idade da pedra não acabou por falta de pedra e que a era do petróleo não vai acabar por falta de petróleo. Nós vamos continuar precisando de petróleo. Só que o uso do petróleo não vai crescer no ritmo em que vem crescendo. Vai ter de crescer num ritmo mais comportado, para conter as emissões. Isso não vai acontecer só com o petróleo. Hoje, você não consegue fazer uma termoelétrica a carvão, porque não obtém financiamento. Termoelétrica, se você tem o gás, é melhor fazer a gás do que a óleo combustível. Nós vamos ter de fazer esta transição energética, saindo do carvão, do óleo combustível, e indo para o gás natural. Mais para a frente, vamos entrar também no hidrogênio e no biometano. Há outros biocombustíveis que também vão cumprir este papel. É um processo. O compromisso que estamos assumindo, que todos os países estão assumindo, desde a COP 15 (Conferência das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas), em 2009, e nós já estamos na COP 26, é de diminuir o ritmo das emissões causadas pela geração de energia. É importante lembrar que 70% das emissões de gases poluentes no mundo são para gerar eletricidade. No caso brasileiro, são 18%, porque temos a matriz elétrica mais limpa do mundo. Então, não temos que fazer a mesma coisa que outros países.

Como o sr. vê as iniciativas do Brasil para enfrentar essa transição energética?

Como eu falei, o Brasil já tem a matriz elétrica mais limpa do mundo, por causa da presença de usinas hidrelétricas, solares, eólicas e de biomassa, que representam mais ou menos 85% do total. Só 15% da energia vêm do diesel ou do gás. Na parte de transporte, de carga leve ou pesada, a gente também é um exemplo, porque somos o segundo maior produtor de etanol do mundo. 70% da nossa frota é flex. A nossa gasolina tem 27% de etanol. O nosso diesel para veículos tem 10% de biodiesel, podendo chegar a 15%. Então, somos também um dos maiores produtores de biocombustíveis do mundo. O nosso transporte por quilômetro rodado emite menos gás carbônico do que o resto do mundo. À medida que o etanol ficar mais competitivo, ele vai ocupar um espaço ainda maior. A nossa expectativa é de que o etanol aumente a sua participação de mercado em mais ou menos 10% até o fim desta década. Os desafios do Brasil, portanto, não são nesta área. O Brasil precisa basicamente trabalhar nas questões ligadas ao desmatamento ilegal, que é o nosso principal desafio, e na questão da emissão de metano, no caso do agronegócio, que  já tem ações em andamento para reduzir as suas emissões. 

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Nós precisaremos ter uma oferta maior de biocombustível no futuro
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Como a Vibra está se preparando para o novo cenário?

A Vibra reconhece essa transição. Nós precisaremos ter uma oferta maior de biocombustível no futuro. Agora, a demanda por combustíveis fósseis vai diminuir gradualmente. É importante que gente tenha isso claro. Mas, de um jeito ou de outro, a venda de combustíveis  no Brasil vai continuar crescendo. Então, o nosso cliente vai continuar recebendo o melhor combustível, gasolina, diesel etanol, da linha Grid e a linha Podium de todos eles, que são os mais potentes e menos poluentes, mas poderá querer ter o biometano, o biodiesel. Então, a Vibra se associou com a Copersucar para formar a maior comercializadora de etanol brasileira, para gerar mais oferta e mais demanda. A gente se deu conta de que, para aumentar competitividade do etanol,  tem de trabalhar na produção. Então, nós fizemos uma parceria com a Zeg Biogás, que desenvolveu o processo para produção de biometano, que é um gás renovável, a partir da vinhaça, um resíduo orgânico da cana-de-açúcar. Acreditamos que, em cinco anos, vamos produzir trinta milhões de metros cúbicos por dia de biometano. Outra forma de trabalhar no desenvolvimento de biocombustível é produzir o diesel verde, a partir de óleo de palma, de folha de palma, em áreas certificadas da Amazônia. O nosso parceiro nesta área, a Brazil Biofuels (BBF), está plantando 120 mil hectares para produzir diesel verde e combustível sustentável da aviação. Também vamos oferecer isso a partir de 2025. O diesel verde funciona em qualquer caminhão. Não precisa fazer nenhuma mudança no motor.

Agora, além destas iniciativas na área de combustíveis, a Vibra já anunciou que está entrando também na área de energia elétrica. O que levou a empresa a entrar neste mercado?

A Vibra tem 18 mil clientes corporativos, como a Vale e a Gerdau, usando os seus combustíveis, e mais 30 milhões de consumidores que consomem gasolina e etanol na rede de 8,2 mil postos que nós temos. Então, a gente decidiu colocar em cima do core business, que é o combustível líquido, a energia renovável e o bicombustível. A Vibra está liderando o bloco de controle da Comerc, que atua na área de energia renovável. Estamos fazendo novos parques de energia eólica e solar, para gerar 2 mil megawatts e vender no chamado “mercado livre”.  Hoje, 80% dos nossos clientes corporativos não estão no mercado livre, em que os consumidores podem comprar a energia de uma comercializadora de eletricidade, em vez de comprar de uma distribuidora. As vendas de energia no mercado livre representam hoje, 32% do total e esta participação deve aumentar para 50% até 2025. Além disso, eles estão atrás de uma energia renovável, solar ou eólica, certificada, para mostrar que está fazendo a transição energética, e podem se tornar clientes da Comerc. É o tal do cross selling.  Dos 30 milhões de clientes da nossa rede de postos, só cerca de um milhão usam energia solar, mas precisam de uma marca. A gente pode vender isso nos postos de gasolina. Não tem risco nesta operação.

A Vibra está entrando também na área de eletromobilidade. De que forma vocês vão atuar neste segmento?

Nós temos uma participação numa companhia chamada EZ Volt, que é a maior carregadora de carros elétricos do Brasil. Hoje, ela está em nove Estados, com 300 carregadores. Vamos aumentar isso para mil carregadores, porque normalmente, o dono do carro elétrico carrega em casa ou em pontos específicos da vida dele, com um supermercado, um shopping, uma loja de conveniência. Nós estamos viabilizando também rotas de viagem com algumas montadoras, vendo com elas para onde os donos dos veículos viajam e precisam de carregamento rodoviário. É um negócio sofisticado. No painel de rotas de um BMW elétrico, por exemplo, dá pra saber qual a autonomia, onde encontrar carregamento no percurso, fazer a reserva do carregador e viabilizar isso por meio do cartão de crédito.

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Quando a BR Distribuidora foi privatizada, o seu valor de mercado estava em torno de R$ 12 bilhões. Hoje, chega a quase R$ 30 bilhões 
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No negócio tradicional da antiga BR distribuidora, de distribuição de combustíveis líquidos, o que mudou desde a privatização?

A essência deste negócio é a logística.  A circunferência da Terra tem 45 mil quilômetros. A gente faz 45 mil quilômetros por hora, com os 6 mil caminhões que atendem a companhia. Dá uma volta na terra por hora. Nós somos a única distribuidora que está em todos os Estados e em mais de 2.200 municípios. Temos 95 bases de operação no Brasil inteiro e uma participação no mercado de combustíveis líquidos de 29%. Se tiver uma rota  mais rápida, menos distante, dá para economizar combustível, custo de frete. Tínhamos 150 empresas que prestavam este serviço para nós. Não havia otimização de rotas, de cargas, de locais. Nós reduzimos este número para 50. Hoje, elas carregam mais, com os caminhões certos. Isso fez com que a gente tivesse uma economia de R$ 250 milhões por ano, o equivalente a 6% do nosso custo. A Vibra tinha 5.500 empregados, hoje tem 3.336, dedicados principalmente a operar as nossas bases, recebendo, misturando e abastecendo combustível.  Tivemos uma redução de custo, principalmente de pessoal e de frete, da ordem de 40% em dois anos. Ao mesmo tempo, tivemos 99% de redução de eventos como vazamento de combustível e 83% de redução de acidentes com veículos na frota em dois anos.

O que isso tudo representou em termos de investimento da empresa?

A Vibra praticamente aumentou o investimento dela no negócio próprio em 50%, para R$ 1,5 bilhão. Ela investia R$ 1 bilhão e hoje investe 1,5 bilhão por ano. Graças ao aumento de eficiência, a Vibra passou a dar lucro, pagando dividendo para o acionista. No ano passado, a Vibra foi a empresa de maior dividend yield (índice calculado pela divisão do valor da ação pelo valor do dividendo) do mercado. Nós devolvemos ao acionista R$ 3,5 bilhões, equivalentes a uma rentabilidade de 15% sobre o valor das ações. Hoje, as ações da Vibra estão entre as 15 maiores em termos de liquidez na B3, com um volume de negócios de R$ 400 milhões por dia. Quando a BR Distribuidora foi privatizada, o valor de mercado da companhia estava em torno de R$ 12 bilhões. Hoje, chega a quase R$ 30 bilhões. A marca Vibra Energia é nova, mas está conquistando o mercado.

Agora, para finalizar, uma pergunta pessoal. Ao longo de 40 anos, durante quase toda a sua trajetória profissional, o sr. atuou no setor de energia elétrica. Como está sendo essa nova experiência na área de distribuição de combustíveis?

Primeiro, eu estou muito feliz. Tive oportunidade de chegar no segundo momento da companhia, após a privatização, e entregar os resultados de eficiência que ela buscava. Hoje, somos a empresa de menor custo do setor e a quem tem maior margem ebtida (sigla em inglês para lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização), fruto de uma maior eficiência em custos. O ebitda da companhia dobrou em dois anos. O que me fascina é que este é um setor muito competitivo. Tem que ter qualidade de produto e custo.  No setor energia, o mercado era regulado e os clientes compravam o que a gente vendia. O mercado estava garantido. Aqui, não. Você tem que ir atrás. Para mim, o legal é isso. Eu estou fascinado. Tenho 62 anos e estou com a felicidade de uma criança de 9 anos, como a minha filha. É vibrante.


 

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