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Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

Vice-presidente boliviano concorda em retomar negociações

O vice-presidente da Bolívia, Alvaro García Linera, concordou com as autoridades brasileiras em retomar as negociações bilaterais em todos os níveis, desde a discussão sobre reajuste do preço do gás, a nacionalização dos investimentos da Petrobras naquele país, novos investimentos e cooperação bilateral em diferentes áreas. Esse entendimento, segundo fontes do governo, tem como contrapartida da Bolívia a promessa de que as relações prosseguirão "na base da confiança", ou seja, sem ruptura de regras estabelecidas.Também ficou acertado que as discussões sobre o reajuste do preço do gás continuarão na órbita da Petrobras e da estatal boliviana, a YPFB e somente serão levadas ao grupo de alto nível, que reunirá ministros dos dois países, caso a pendência se torne mais grave. O entendimento desta quinta-feira foi durante reunião, no Palácio do Planalto, entre Linera e os ministros da Casa Civil, Dilma Rousseff, de Minas e Energia, Silas Rondeau e de Relações Exteriores, Celso Amorim e do presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli. Durante a reunião, Linera reiterou que em nenhum momento o governo da Bolívia havia pensado em interromper o fornecimento de gás ao Brasil. O vice-presidente boliviano reuniu-se em seguida, por cerca de 25 minutos com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva o ministro Amorim e o assessor especial da Presidência para Assunto Internacionais, Marco Aurélio Garcia. A ausência de autoridades que tratam diretamente da questão do gás na reunião com o presidente remarcou a posição do governo brasileiro de que as discussões sobre o preço do gás não se dariam de governo a governo, como queria a Bolívia, mas sim de empresa a empresa.MinistroLinera afirmou que não se surpreendeu com a decisão do Senado boliviano de aprovar moção de censura contra o ministro de Hidrocarbonetos, Raúl Solíz Rada, e de pedir o seu afastamento. O Senado boliviano aprovou a moção com base em denúncias de corrupção feitas contra Solíz Rada e dirigentes da Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB). Ele observou que o presidente Evo Morales foi eleito com 54% dos votos válidos, mas seu partido não conseguiu a maioria no Senado. Além disso, destacou o fato de a decisão ter sido tomada pelo Senado, que "é o último reduto de poder das forças conservadoras", e não pelo Congresso. "Nos surpreendeu que o Senado tivesse demorado tanto", acrescentou. Linera afirmou que a decisão do Senado não desviará "em um só milímetro" a decisão do governo do presidente Evo Morales de implementar o decreto de nacionalização do setor de gás e petróleo. Ao contrário, disse o vice-presidente, a decisão vai "redobrar o ímpeto" do governo. PetrobrasLinera disse também que o governo do presidente Evo Morales considera a Petrobras uma sócia estratégica e que pretende manter a presença contínua da estatal brasileira no território boliviano. Ele salientou que a negociação entre os dois países sobre possível reajuste das regras que definem o preço do gás boliviano exportado para o Brasil será definida em conversas entre dirigentes da Petrobrás e da estatal boliviana YPFB (Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos), mas citou Lenin ao fazer a ressalva de que poderá haver interferências políticas de Brasília e de La Paz no resultado desse negociação. "Não se deve esquecer que a economia é a política concentrada, como dizia Lenin. Portanto, esse tema econômico será tratado pelas empresas, mas haverá um seguimento político para que tenha uma feliz solução", disse Linera, matemático e sociólogo, considerado um intelectual e articulador político do governo da Bolívia. Diplomatas brasileiros comentam que Linera, no espectro ideológico, é considerado à esquerda de Morales. BrasilO assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, afirmou nesta quinta que o governo brasileiro está satisfeito e otimista com as conversas mantidas com o vice-presidente da Bolívia a respeito do fornecimento de gás boliviano ao Brasil e da adequação da Petrobras ao decreto que nacionalizou o setor de gás e as instalações da Petrobrás naquele país.Segundo relato de Marco Aurélio Garcia, o vice-presidente boliviano afirmou que está em Brasília para "eliminar qualquer ruído do passado" - uma referência à crise desencadeada pela decisão do governo de La Paz de nacionalizar o setor de gás e petróleo e as instalações da Petrobrás na Bolívia. García Linera disse também, segundo o assessor brasileiro, que as discussões entre Brasil e Bolívia deverão ganhar novo dinamismo e salientou dois pontos: os dois lados concordaram em não negociar por intermédio da imprensa (os ataques mais sérios de Evo Morales contra a Petrobras foram feitos em entrevistas coletivas convocadas pela sua assessoria; e pode haver interferência do Palácio do Planalto e do governo de La Paz nas negociações entre a Petrobras e a YPFB sobre reajuste do preço do gás exportado para o Brasil. "As conversas se darão entre duas estatais sobre um tema estratégico. É impossível separar uma questão técnica da órbita política", afirmou Marco Aurélio García. Ele informou ainda que as negociações serão retomadas imediatamente, dentro de um espectro mais amplo, que envolverá o conjunto de temas da relação bilateral.Matéria alterada às 17h56 para acréscimo de informações

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