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Viciados no Apocalipse

Washington passou os três últimos anos, e mais um pouco, espalhando o terror da crise da dívida dos Estados Unidos, que continua não acontecendo

PAUL KRUGMAN/THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2013 | 02h05

Antigamente, se uma pessoa andasse por aí gritando "o fim está próximo", seria considerada excêntrica, alguém que não deveria ser levado a sério. Mas hoje em dia, as melhores pessoas andam por aí advertindo que o desastre não tardará. Na realidade, a gente tem de mais ou menos aceitar as fantasias do apocalipse fiscal para ser considerado respeitável.

E eu me refiro a fantasias mesmo. Washington passou os três últimos anos, e mais um pouco, espalhando o terror da crise da dívida que continua não acontecendo e, na realidade, não pode acontecer num país como os Estados Unidos, que tem a própria moeda e toma dinheiro emprestado nessa mesma moeda. Contudo, as Cassandras não conseguem parar de profetizar o fim.

Vejamos, por exemplo, Stanley Druckenmiller, o investidor bilionário que ultimamente fez um estardalhaço advertindo sobre o custo dos nossos programas de benefícios (Mas por que será que ninguém ainda pensou em destacar essa questão?). Ele poderia falar dos problemas que enfrentaremos daqui 10 ou 20 anos. Mas, não. Aparentemente, ele acha que deve chamar a atenção para a ameaça de uma crise financeira pior que a de 2008.

Ou vejamos a organização Fix the Debt, que se dedica a ensinar o público a respeito da dívida, e é dirigida pelos onipresentes Alan Simpson e Erskine Bowles. Era de se prever, imagino, que ela reagiria ao recente acordo sobre o orçamento com um press release tentando desviar as atenções para seu assunto predileto. Mas a organização não se contentou em declarar que as questões orçamentárias de longo prazo dos Estados Unidos continuam sem solução, o que é verdade. Sentiu-se na obrigação de alertar que, "se continuar adiando a questão da nossa dívida, o governo estará fomentando uma situação que poderá escapar do controle a qualquer momento".

Como já sugeri, há duas coisas notáveis a respeito do catastrofismo. Uma delas é que os catastrofistas nunca reveem suas premissas embora estejam constantemente erradas - talvez porque a mídia continue tratando-os com imenso respeito. A outra é que, pelo que me consta, ninguém, e quero dizer ninguém mesmo, entre os profetas do apocalipse, tentou explicar exatamente como funcionaria de fato o desastre previsto.

Quanto às Cassandras: é realmente espantoso constatar há quanto tempo os gritos de alerta do desastre próximo enchem as páginas dos articulistas e as ondas de rádio. Por exemplo, acabei de reler um artigo assinado por Alan Greenspan no The Wall Street Journal, advertindo que o nosso déficit do orçamento estimulará a inflação e levará a juros vertiginosamente elevados. E o que faremos agora, quando na realidade, hoje, a inflação é baixa e os juros também? Essa situação, ele declara no artigo, é "lamentável, porque estimula uma sensação de autossatisfação".

É curiosa a rapidez com que as pessoas que normalmente reverenciam a sabedoria dos mercados passam a declarar que os mercados estão errados quando não entram em pânico como deveriam. Mas o mais impressionante, a essa altura, é a data: o artigo de Greenspan foi publicado em junho de 2010, há quase três anos e meio - e tanto a inflação como as taxas de juros continuam baixas.

Será que o ex-maestro reconsiderou os seus pontos de vista depois de se dar conta de que esteve tão errado por tanto tempo? Nem um pouco. Seu último livro (aliás bastante ruim) declara que "a propensão a gastos desenfreadamente deficitários é o principal problema econômico do nosso país".

Ao mesmo tempo, falando da respeito da crise da dívida tão frequentemente profetizada e nunca concretizada: em sua sabatina no Senado, há mais de dois anos e meio, Bowles alertou que provavelmente enfrentaríamos uma crise fiscal no prazo de dois anos, e instou os seus ouvintes a "parar por um minuto para pensar sobre o que acontecerá" se "os nossos banqueiros na Ásia" deixarem de comprar os nossos títulos da dívida. Mas será que ele, ou qualquer outro do seu lado, tentou realmente refletir sobre o que aconteceria? Não, não realmente. Eles só supõem que sua decisão levaria os juros a alturas assustadoras e ao colapso econômico, quando na realidade teoria e evidências sugerem o contrário.

Não acreditam em mim? Olhem o Japão, um país que, como os EUA, tem a própria moeda, toma dinheiro emprestado nessa moeda, e tem uma dívida muito maior em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) do que nós.

Na realidade, desde que assumiu o cargo, o primeiro-ministro Shinzo Abe gerou exatamente a perda de confiança que os que se apavoram por causa da dívida mais temem - ou seja, ele convenceu os investidores de que a deflação acabou e a inflação está próxima, o que reduz o atrativo dos títulos japoneses.

E, no entanto, os efeitos para a economia japonesa têm sido totalmente positivos! As taxas de juros continuam baixas, porque as pessoas esperam que o Banco do Japão (o equivalente do Fed) as mantenha baixas; o iene caiu, o que é bom, porque torna as exportações japonesas mais competitivas. E o crescimento econômico japonês na realidade acelerou.

Por que, então, devemos temer o apocalipse de dívida aqui? Seguramente, o leitor pensará, alguém da comunidade do apocalipse da dívida apresentou uma explicação clara. Mas, não.

Portanto, da próxima vez que vocês virem um homem aparentemente sério de terno declarar que o fim do mundo fiscal está perto, não tenham medo. Até o momento, ele e seus amigos estiveram errados a respeito de tudo, e literalmente não têm a menor ideia do que estão falando. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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