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Vida melhora, mas não para todos

Para alguns cortadores, mecanização trouxe oportunidades; para outros, rotina segue árdua

José Maria Tomazela, ENVIADO ESPECIAL / GUARIBA (SP)

21 de maio de 2017 | 05h00

O avanço da mecanização da colheita de cana empurrou a maior parte dos cortadores para longe das lavouras, mas alguns viram ali a chance de mudar de vida. Cortador de cana desde os 16 anos, Valdemir Araújo, por exemplo, conseguiu mudar de profissão sem trocar de lugar. Hoje, aos 43 anos, comanda uma colheitadeira que custa R$ 1 milhão. 

Depois de alguns anos na linha de frente do corte de cana, os patrões perceberam que ele gostava de máquinas. Em 2014, depois de fazer cursos na própria usina, ele assumiu o comando de uma colheitadeira. “Vim de baixo e fui subindo com muita dedicação e sacrifício.” O salário também evoluiu. “Hoje, recebo quase R$ 3,5 mil por mês. Se tivesse continuado como cortador, não tiraria mais que R$ 1,5 mil.” 

Para outros, a mudança veio por motivos diferentes. José Aristides da Veiga, o “Zezão”, de 64 anos, trocou o facão pela tesoura. Após 35 anos nos canaviais, montou uma barbearia no bairro Monte Alegre, periferia de Guariba, e dos tempos de trabalho duro na cana só guarda o antigo uniforme. “Agora, só corto barba e cabelo.” Mineiro, veio ainda jovem para a cidade paulista, em 1971. Ele abandonou os canaviais porque contraiu doença de Chagas e também porque a remuneração diminuiu. 

Mas, apesar de ser uma profissão quase em extinção, cortar cana ainda é o ganha-pão de pessoas como Leandro Honorato Ferreira, de 32 anos. Ele nasceu em Guariba e sempre achou que essa atividade fosse coisa para migrante. Ele estudou até a quinta série, fez curso de soldador e trabalhou em várias empresas. Mas, ao ficar desempregado no ano passado, não viu alternativa. “Já tinha feito bicos como cortador. Uma usina estava pegando gente e entrei.”

Ferreira ocupou a vaga de migrantes que não chegaram do Maranhão. Ele sai de casa às 5 horas e conta que puxa o facão até as 16 horas para ganhar uma diária de R$ 70. O corte de cana crua – que servirá de muda para uma nova planta, atividade que ainda depende da intervenção humana – dura três meses. Quando termina o serviço, volta o desemprego. 

A rotina do maranhense Adão Alves da Silva é igualmente desgastante. O dia dele começa às 4 horas. Sai da cama, põe o arroz no fogo, esquenta o feijão e prepara o uniforme. “O ônibus passa às 5 horas, mas tem uma hora de viagem.” Às 17h30, quando volta para o cômodo alugado por R$ 150 mensais, ele ainda vai lavar roupas e preparar o feijão para o dia seguinte. Solteiro, Adão guarda dinheiro para levar para o pai, a mãe e seis irmãos que ficaram em Timbiras (MA), para onde vai em dezembro. Ele ganha R$ 1.500 por mês, “um bom dinheiro”, diz, e sonha em comprar uma casinha no Maranhão. “A vida lá não é ruim, só não tem trabalho.” 

Em uma década de canavial, Maria Lucinete Caetano, de 35 anos, quatro filhos e sete netos, ganhou o suficiente apenas para dar de comer à família. Para pagar o aluguel do casebre, precisou empurrar também as duas filhas para as linhas de corte. “Até cinco anos para trás era bom, mas tem semana que a gente trabalha só três dias.”

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