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Vietnã prospera seguindo a receita da rival China

Indústria do país asiático avança graças à fartura de mão de obra barata e a um acordo de livre comércio firmado com os chineses

Wayne Arnold, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2010 | 00h00

Um dos maiores beneficiários da rápida ascensão econômica chinesa não é apenas a própria China, mas também seu rival histórico, inimigo ocasional e vizinho socialista ao sul, o Vietnã.

Há menos de uma década, muitos economistas e executivos afirmavam que a China havia criado um "gigantesco aparelho de sucção" de investimentos que podia ser ouvido nas distantes Hanói, capital do Vietnã, ou na cidade de Ho Chi Mihn.

Mas o Vietnã conseguiu seguir as pegadas chinesas graças a um programa de reformas econômicas, à mão de obra barata proporcionada pela população de 87 milhões de habitantes e a um acordo de livre-comércio que permitiu ao país fazer parte da vasta cadeia de produção e distribuição que alimenta a máquina manufatureira chinesa.

Depois de seguir os passos da China na direção do comunismo após a Segunda Guerra Mundial, o Vietnã agora respira os novos ares vindos daquele país. Desta vez, Hanói se direciona para o que chama de "economia de mercado de orientação socialista", para evitar ser atropelada pela jamanta econômica chinesa.

Expansão. "Se a China não estivesse ali, o Vietnã talvez não tivesse aberto sua economia", afirma Jonathan Anderson, economista do UBS em Hong Kong. O Vietnã reabriu oficialmente suas portas para os investidores estrangeiros em 1986. Começou, no entanto, a participar de fato do boom econômico asiático depois que os Estados Unidos, seu antigo inimigo, suspenderam o embargo econômico em 1994 e normalizaram o comércio com o país em 2000.

Com esse acordo comercial com os Estados Unidos, incentivos especiais foram oferecidos para fabricantes de roupas e têxteis locais, com a redução das tarifas americanas sobre artigos vietnamitas de 60% para zero. As fábricas de roupas e do setor têxtil da Coreia do Sul e de Taiwan afluíram para o Vietnã, abrindo novas fábricas.

Outras áreas de manufatura foram abertas, como fábricas de eletrodomésticos e montadoras de motocicletas, além de um outro setor que antes era dominado pela China - o de móveis. "Praticamente todo esse setor mudou-se gradativamente para o Vietnã", disse Frederick Burke, advogado do escritório Baker & McKenzie na cidade de Ho Chi Minh, que trabalha no Vietnã e assessora o governo do país há mais de uma década.

Quando a China aderiu à Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001, muitos temiam que os dias do Vietnã e de todo o Sudeste Asiático como destino bem cotado pelos investidores estrangeiros no setor de manufatura estivessem contados. Alguns economistas chegaram até a alertar que a região teria de renunciar ao desenvolvimento impelido pelas exportações de produtos manufaturados e pensar em alimentar a fome voraz da China por matéria-prima.

Livre comércio. A China firmou um acordo de livre comércio com o Vietnã e nove outros países membros da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) em 2002, o que reforçou esses temores. Embora o acordo desse aos países mais pobres, como o Vietnã, acesso a produtos chineses até 2015, os chineses eliminaram as tarifas sobre seus produtos agrícolas em 2003.

O acordo foi de grande ajuda para o Vietnã que, além de ser grande exportador de arroz, pimenta e café, também vende petróleo. Mas, enquanto outras nações, como Cingapura, Malásia e Tailândia, lutaram para aumentar o valor agregado com produtos de nicho ou bens mais avançados tecnologicamente, que lhes permitissem ao menos se manter na corrida com a China, o Vietnã parecia destinado a ser apenas um fornecedor para uma China que se desenvolvia rapidamente.

Crise. A China, então, tropeçou. A pirataria tecnológica galopante, manifestações nacionalistas e escassez de mão de obra especializada levaram muitas empresas estrangeiras, particularmente as japonesas, a trazer parte da produção de volta para o Sudeste Asiático. E ainda pior: os salários na China começaram a subir muito rápido. "No fim da década de 90 e início de 2000, você podia contratar a mão de obra como quisesse na China. Hoje, fala-se em custos trabalhistas em ascensão", disse Jonathan Anderson.

Mas o Vietnã estava esperando com sua mão de obra instruída, disciplinada e muito mais barata. O salário mínimo nas duas maiores cidades vietnamitas é de US$ 75 por mês, e metade disso é pago a um trabalhador numa fábrica em Guangdong, província chinesa, segundo Dinh Tuan Viet, economista do Banco Mundial em Hanói.

Este ano, a Intel abriu uma nova fábrica de semicondutores no valor de US$ 1 bilhão, próxima à cidade de Ho Chi Minh, que substituirá suas fábricas da Malásia, Filipinas e China. A fábrica da Canon perto de Hanói, com mais de 18 mil empregados, é a maior da companhia.

O Vietnã conseguiu se estabelecer solidamente na cadeia de produção e distribuição da China. Muitas das peças para a fábrica da empresa Canon vêm da China, por exemplo, fato que sublinha um ponto negativo para os esforços vietnamitas de seguir as pegadas chinesas no campo da manufatura - as importações de máquinas e equipamentos da China contribuem para um déficit comercial com esse país de US$ 11,5 bilhões, à medida que o Vietnã corre para desenvolver sua capacidade de manufatura e infraestrutura.

Agora, com a China tentando dar o grande salto em setores mais direcionados para o consumo limpo de energia, a dúvida é se o Vietnã conseguirá avançar no ritmo chinês, disse Tuan Viet. "O Vietnã estará pronto e capaz de absorver um novo afluxo de investimento estrangeiro, resultante da "mudança estrutural" da China? Na minha opinião, ainda existem muitas limitações para o país aproveitar essa oportunidade: existe abundante mão de obra de baixa renda, mas não qualificada etc."

Apesar dos muitos obstáculos enfrentados pela China, o Vietnã ainda ocupa uma posição muito baixa no ranking do Banco Mundial de países onde é fácil realizar negócios.

Segundo o levantamento, no entanto, o Vietnã ocupa uma posição melhor que a da China quando se trata de abrir uma empresa e contratar mão de obra, mas fica numa posição abaixo no item proteção dos investidores e cumprimento de contratos.

No Índice de Percepção da Corrupção, da Transparência Internacional, o Vietnã ocupa o 116.º lugar, comparado com a posição 78 da China. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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