Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

'Vindo de quem vem, tomo como elogio', diz Aloysio Nunes sobre crítica de Trump

O ministro das Relações Exteriores reagiu ao ataque do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, às relações comerciais com o Brasil

Lu Aiko Otta e Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2018 | 20h25

BRASÍLIA - O ataque do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, às relações comerciais com o Brasil causou surpresa no governo brasileiro, pois a relação é vista como positiva, embora tenha ainda muito espaço para evoluir. O norte-americano afirmou que as empresas de seu país são tratadas “injustamente” e que o Brasil está “entre os mais duros do mundo, talvez o mais duro.”

“Quando é o presidente Trump quem diz que nossos negociadores são duros ,vindo de quem vem, eu tomo isso como elogio”, reagiu o ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes.

“O comércio bilateral tem crescido nos últimos anos, com ganhos importantes para ambos os países”, disse o ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, Marcos Jorge. “Há investimentos cruzados em diversos setores produtivos e parte relevante da pauta comercial é de transações intrafirmas.” Ele acrescentou que os dois países têm trabalhado em uma agenda “construtiva”, para atuar em temas como facilitação de comércio, cooperação regulatória e propriedade intelectual. “Há muito ainda para avançarmos em conjunto, mas entendo que estamos na direção correta", disse.

O secretário de Comércio Exterior, Abrão Neto, informou que nos últimos 10 anos a balança comercial entre os dois países tem sido superavitária para os norte-americanos, com um saldo positivo para o país de US$ 90 bilhões.

“Precisamos entender mais em detalhes o contexto e o teor dos pontos de preocupação externados pelos Estados Unidos”, comentou. “A relação comercial entre Brasil e EUA tem um viés positivo e crescente nos últimos anos.”

Em 2018, as exportações brasileiras para o país aumentaram 6,2% enquanto as importações de produtos norte-americanos subiram 13,3%. O saldo do ano é superavitário para o Brasil em apenas US$ 45 milhões. “Nossa avaliação é que ainda há uma avenida de temas a serem discutidos e que podem aprofundar ainda mais as relações dos dois países”, completou Neto.

Neto ressaltou que a relação entre os dois países são “muito positivas” e que a corrente de comércio tem um perfil “complementar e estratégico”. Os EUA são o segundo principal parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China.

O déficit para o Brasil aparece nas estatísticas americanas, informou o secretário. Elas são diferentes dos dados coletados pelo governo brasileiro, que apontam para um comércio equilibrado. No ano passado, por exemplo, foi registrado um superávit de US$ 2 bilhões a favor do Brasil, numa corrente de comércio que atingiu US$ 51,7 bilhões. Em 2016, ocorreu um déficit de US$ 650 milhões.

“Essa afirmação causa espanto à indústria”, disse o diretor de Desenvolvimento Industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Carlos Eduardo Abijaodi. Ele explicou que há um grande número de empresas americanas instaladas aqui e brasileiras atuando nos Estados Unidos, de modo que o comércio intrafirmas é forte. “Exportamos muito e importamos muito”, comentou. O diretor acrescentou que os norte-americanos têm muitos investimentos aqui, o que torna a relação com o Brasil diferente da que ele tem com países primordialmente exportadores, como a China.

“O Brasil é um país extremamente difícil para fazer negócios, por causa da burocracia e da tributação, mas não há nenhuma discriminação para os americanos”, avaliou o consultor Welber Barral, da Barral M Jorge. “O Brasil é difícil para os brasileiros, e isso prejudica a todos, principalmente a nós mesmos.” Ele acrescentou que na área de negócios de Trump, o de serviços, o Brasil é mais aberto do que o norte-americano.

Os embates entre os dois países no campo comercial já foram mais numerosos, disse Barral. Ainda assim, há muita reclamação de parte a parte.

O caso mais recente foi o da ameaça de imposição de tarifas adicionais de 25% sobre as exportações de aço e de 10% sobre as vendas de alumínio produzidos Brasil. Concretizada, a medida provocaria fortes perdas à indústria nacional. Mas, depois de muito barulho, foi fechado um acordo que estabeleceu cotas para as exportações brasileiras. “Elas satisfizeram ao setor”, comentou Abijaodi.

Uma briga antiga é a do comércio do açúcar. Os Estados Unidos consomem 12 milhões de toneladas por ano e produzem 9 milhões de toneladas. Metade dessa deficiência é suprida pelo México. O restante é dividido entre os demais países produtores do mundo. A fatia do Brasil, maior produtor mundial, é de menos de 20%, segundo informou a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).

Os Estados Unidos, por sua vez, se queixam da vantagem que o Brasil dá à Argentina na importação de trigo. Mas, explicou Barral, isso se deve ao fato de o país vizinho integrar o Mercosul.

Um levantamento feito no ano passado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) aponta que as tarifas elevadas aplicadas pelos EUA prejudicam as exportações de carnes bovinas e de peru, produtos lácteos, frutas, amendoins, óleo de soja, açúcar de cana e beterraba, tabaco, cachaça e rum. Em todos esses casos, a participação do produto brasileiro no mercado americano é menor do que em outros países que importam esses mesmos produtos daqui.

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