Vinho importado da Austrália pode desaparecer do Brasil

Produto pode sumir caso salvaguardas contra as bebidas importadas sejam aprovadas pelo governo brasileiro

LÍLIAN CUNHA, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2012 | 03h06

Eles mal chegaram e talvez já tenham de ir embora. Não faz nem 15 anos que as primeiras garrafas de vinho australiano começaram a chegar ao Brasil, um dos países onde o consumo de vinho mais cresce. Mas, conforme especialistas, elas poderão em breve desaparecer caso sejam aprovadas as salvaguardas pedidas por produtores nacionais.

"Se houver barreiras para importação, será ruim para todos exportadores. Para os australianos, porém, será pior: vamos sumir do mercado. Só vai existir uma garrafa aqui, outra ali", diz o enólogo Bill Hardy, da tradicional vinícola australiana Hardys, que esteve no País na semana passada.

A Austrália é a quarta maior exportadora de vinhos do mundo - atrás apenas da líder Itália, Espanha e França. No Brasil, entretanto, os vinhos australianos foram os últimos a chegar, depois, até mesmo, dos sul-africanos. Hoje, os maiores exportadores da bebida para o mercado nacional são o Chile, a Argentina e a Itália. A Austrália está em nono lugar, segundo dados do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin).

"O Brasil é um mercado incrível. Criar protecionismos pode prejudicar a expansão desse mercado, até mesmo para o vinho nacional. O consumo de vinho, em qualquer país, só cresce se a oferta se expande. Os importados contribuem para expandir a oferta e gerar mais interesse pela bebida", diz Hardy.

A Austrália, segundo ele, já teve uma política protecionista. Até meados dos ano 90, o governo australiano cobrava 10% além de um porcentual que variava conforme o teor alcoólico da bebida - o que fazia a carga tributária chegar a até 15%. A porcentagem variável foi eliminada no fim dos anos 90. "Desde então, o mercado se expandiu e o consumo doméstico de vinhos nacionais cresceu mais de 20%", lembra.

Aqui, os impostos aos importados passarão de 27% para 55% do preço final caso as salvaguardas sejam consideradas procedentes pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e pela Câmara de Comércio Exterior. A expectativa do setor é de que o ministério divulgue seu parecer em setembro.

"Se depender de argumentos técnicos, as salvaguardas não passarão", diz Ciro Lilla, vice-presidente de vinhos da Associação Brasileira de Bebidas. Um dos argumentos, segundo ele, é o perfil do consumo no País. Enquanto em Portugal e na Argentina cada pessoa toma anualmente mais de 30 litros, o brasileiro toma, em média, 1,9 litro de vinho ao ano. O famoso vinho de garrafão, feito com açúcar e uvas de mesa, é 85% do consumo. "O vinho fino fica só com 0,4 litro por pessoa. O nacional já é a grande maioria. Não há o que proteger", afirma Lilla.

Para os produtores nacionais, porém, o Brasil está em um momento histórico. "O País precisa decidir se quer ser só um país importador de vinhos ou se também deseja ter uma produção nacional reconhecida", defende o Ibravin.

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