Gordon Welters|NYT
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Vinhos checos ganham fãs pelo mundo

Região da Morávia tem vinhedos excepcionais com variedades de uva difíceis de encontrar

Hana de Goeij, The New York Times

31 de agosto de 2016 | 05h00

Há 12 anos, Mike Mazey fazia vinhos na sua terra natal, a Austrália, quando recebeu uma oferta de emprego inesperada na Europa: “Venha para a República Checa e nos ensine sua arte”. Intrigado, Mazey se mudou para a Morávia do Sul, a principal região produtora de vinho da República Checa. Ele nunca havia ouvido falar da Morávia, nem de algumas das variedades de uva com as quais trabalharia, mas ficou encantado com seu novo lar.

“A Morávia tem alguns dos vinhedos mais espetaculares que já vi”, afirmou. E para melhorar, sob as ruas das cidades de Valtice e a vizinha, Lednice, existem adegas centenárias, sem falar em variedades de uva como a Palava e a Irsay Oliver. “Foi uma experiência inesquecível.”

No coração da indústria vinícola da Morávia está Valtice, uma cidadezinha na fronteira checo-austríaca, para onde Mazey, que vive em Brno – cerca de 64 quilômetros dali – vai regularmente para dar aulas de inglês aos produtores de vinho locais e para participar do júri de uma competição de vinho.

Dominada por um impressionante palácio barroco, e cercada por montanhas forradas de vinhedos cuidadosamente organizados, Valtice foi por muito tempo uma cidade sonolenta. Durante o governo comunista, muitas das pessoas que passavam por lá eram checos que tentavam atravessar a cerca de arame farpado da cortina de ferro em busca de uma vida melhor no Ocidente.

Atualmente, Valtice atrai turistas interessados nos vinhos da região e nos chalés de caça das montanhas, que, além disso, é repleta de ciclovias. No verão, a cidade se enche de atividade – com exposições de arte, festivais de música e degustação de vinhos – o que significa que os hotéis ficam cheios.

Valtice já foi dominada pela Casa de Liechtenstein, que comprou propriedades na região ainda no século 14. Durante o século 19, a família Liechtenstein transformou a área entre Valtice e Lednice em uma paisagem repleta de lagos artificiais, alamedas de nogueira e chalés de caça que se tornaram Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Eles também eram grandes apreciadores e colecionadores de vinho, mantendo suas melhores safras em uma rede cada vez maior de adegas subterrâneas que continuam sendo utilizadas atualmente.

A presença da família Liechtenstein em Valtice chegou ao fim após a 2.ª Guerra, quando foram forçados a deixar a Checoslováquia e suas propriedades foram transferidas para o Estado. Assim como todos os outros empreendimentos da nação comunista, os vinicultores da Morávia também foram forçados a converter suas empresas em estatais.

Os vinhedos foram transformados em enormes fazendas que permitiam colheitas maiores e mais automatizadas. O sistema favorecia a quantidade em detrimento da qualidade, com variedades de uva que exigiam mais atenção sendo substituídas por outras que ofereciam safras volumosas.

Os vinicultores que trabalhavam nas fazendas tinham o direito de ficar com uma parte da uva para consumo pessoal e os vinhos que produziam com ela geralmente só apareciam no mercado negro. Séculos de conhecimento sobre a produção de vinhos na Morávia praticamente desapareceram.

Com a privatização, os produtores de vinho checos gradualmente voltaram a ocupar os espaços que haviam perdido. Métodos que já eram comuns no Ocidente, como o uso de inox e de fermentação com temperatura controlada, chegaram à região.

Prêmios. Agora, os vinhos checos estão começando a ganhar espaço nas competições internacionais. Em 2010, um Chateau Valtice Gruner Veltliner 2009 recebeu uma dupla medalha de ouro na Competição Internacional de Vinho de São Francisco. “Desde que cheguei, vi os produtores checos evoluírem; eles estão dispostos a abrir mão da quantidade para aumentar a qualidade”, afirmou Mazey.

Apesar da crescente reputação, os vinhos checos continuam conhecidos apenas por poucos estrangeiros. Uma das razões é que a maior parte do vinho produzido é consumida no próprio país, já que a bebida local representa mais de 40% do mercado doméstico.

Especialistas como Mazey acreditam que, com o tempo, os vinhos da Morávia vão começar a aparecer em lojas do mundo todo. Por enquanto, os produtores parecem contentes com a visita dos fãs de vinho, mesmo que muitas pessoas ainda brinquem dizendo que os vinicultores continuam guardando os melhores vinhos para si.

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