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Vinhos franceses procuram o Brasil

Tradicionais caves e produtores da França estão contratando sommeliers brasileiros para explorar potencial de consumo do País

Andrei Netto - Correspondente em Paris, O Estado de S. Paulo

04 de outubro de 2015 | 07h15

A crise econômica e a explosão do dólar e do euro em relação ao real não abalaram a confiança de caves tradicionais e produtores de vinhos e champanhes da França no futuro das vendas para o Brasil. Empresas tradicionais do setor ilustram o interesse renovado pelo mercado brasileiro, que une casas tradicionais, como a cave Legrand, uma das mais respeitadas de Paris, a novos e refinados produtores, como a Brimoncourt. Agora com sommeliers brasileiros, essas maisons francesas tentam impulsionar as exportações ao País.

O cenário de desvalorização monetária, que faz exportadores repensarem suas estratégias no que diz respeito às vendas ao Brasil, não abala a convicção do setor vinícola no potencial brasileiro. Nos últimos dez anos, as exportações de vinhos ao País cresceram dez vezes, atingindo em 2014 um recorde histórico também no mercado de champanhes. Em 2014, quando o dólar já estava em alta, as vendas de garrafas de champanhes francesas aumentaram 10,2%, chegando a 1,1 milhão de unidades. Esse crescimento faz empresas tradicionais do setor acreditarem que a maturidade dos clientes brasileiros ainda renderá bons negócios.

Atual 21.º mercado mundial de vinhos, o Brasil representa uma nova fronteira a ser explorada por produtores europeus, que encontram um público cada vez mais educado e preparado para degustar vinhos de alta complexidade. "O Brasil não é mais um mercado emergente. Creio que já emergiu", entende Gerard Sibourd-Baudry, diretor da Maison Legrand Filles et Fils, uma instituição do vinho na França. Situada no coração de Paris, a cave foi adquirida em 2013 pela família japonesa Nakashima, e cada vez mais aposta na internacionalização de seus produtos, entre os quais vinhos de exceção de domínios como Romainée Conti e Leroy, de Bourgogne, Grange des Pères, de Languedoc, e Jacques Selosse, de Champagne.

Para explorar o potencial do mercado brasileiro, Legrand agora tem uma sommelier brasileira, a ex-jornalista Ana Carolina Dani. "Há algum tempo tínhamos em mente criar uma ação mais estruturada em relação ao mercado brasileiro. A procura da qualidade vem com o tempo, e vejo no Brasil uma procura recente por vinhos de exceção. Se vamos nos encontrar? É o que espero", diz Sibourd-Baudry.

O desafio de Legrand é não apenas conquistar uma fatia do mercado brasileiro, como desbancar do primeiro lugar outra cave francesa, a Lavinia, a número 1 da preferência dos clientes que visitam Paris. Traçar estratégias de vendas e expandir a presença da Legrand no Brasil é um dos projetos de Ana Carolina, que não se intimida com a valorização do dólar e do euro. "Há uma série de dados comprovando que o brasileiro bebe cada vez mais vinho no seu cotidiano", diz a sommelier, lembrando que a perspectiva de crescimento é de 30% nos próximos cinco anos. "Há um interesse que não se traduz só pelas vendas, mas também pelo interesse pelo vinho, que se reflete na busca por escolas, pela educação e pela cultura do vinho."

Caminho semelhante faz a produtora de champanhes Brimoncourt. Adquirida em 2008 pelo advogado Alexandre Cornot, a maison se tornou em pouco tempo uma produtora de bebidas de exceção, reconhecida pela alta qualidade. Suas garrafas são distribuídas na França pela Rothschild Distribuition, subsidiária do Grupo Baron Philippe de Rothschild, e podem ser encontradas em restaurantes incensados pelo Guia Michelin ou nos banquetes oficiais do Palácio do Eliseu.

Refinamento

Apostando na expansão internacional, Brimoncourt transformou o Brasil em um de seus mercados privilegiados no exterior, depois dos Estados Unidos e da Austrália. "O mercado brasileiro cresceu muito, e com o crescimento vem uma qualificação do paladar, da educação. O cliente brasileiro já sente a necessidade de consumir produtos de maior qualidade", entende o sommelier Diogo Veiga, coordenador do Mercado Brasileiro da Brimoncourt, que tem como missão nada menos do que desbancar marcas como Veuve Clicquot e Moët et Chandon, da gigante do luxo LVMH. "Há um processo de refinamento em curso no Brasil. Mesmo com preços elevados, o brasileiro continua disposto a comprar."

Ana Carolina e Veiga são provas do interesse crescente dos produtores e exportadores de vinhos da França pelo Brasil. Mas o auxílio de profissionais brasileiros especializados e que, ao mesmo tempo, conhecem o mercado e falam a língua, ainda esbarra no protecionismo do País. A partir de 1.º de dezembro, a alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) vai subir 10% sobre a venda de cada unidade. O impacto para o consumidor é brutal. Uma garrafa de Brimoncourt, cujo preço de exportação gira em torno de € 17 na França, ou R$ 75, chega ao Brasil a € 42, ou R$ 185, mas não será aberta pelo consumidor por menos de R$ 250 ou R$ 300.

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