Ricardo Barp/Estadão
Parreiras da Luiz Argenta: produção ampliada Ricardo Barp/Estadão

Vinícolas enfrentam falta de garrafas e estoques secam

No Rio Grande do Sul, empresas já começam a fazer melhorias para tentar atrair novos clientes neste ano

Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

31 de janeiro de 2021 | 05h00

A vinícola Luiz Argenta – batizada em homenagem ao pai do sócio Deunir Argenta – está localizada em Flores da Cunha (RS), município da região de Caxias do Sul que fica a cerca de uma hora de carro de Bento Gonçalves. Produzindo vinhos finos, o empresário é exceção em Flores da Cunha: é uma das poucas propriedades que planta uvas viníferas em uma região em que a fabricação de vinhos de mesa é predominante.

Atuando em um nicho bem menor, que representa só 6% do mercado total, Argenta diz ter crescido fortemente em 2020. “Tínhamos um plano de crescimento de cinco anos que previa uma expansão média de 15% a 18% ao ano. Como a Luiz Argenta cresceu 43% no ano passado, acabou que conseguimos atingir o que prevíamos só para dezembro de 2021”, explica.

A companhia, que fica no centro de Flores da Cunha e possui com um restaurante panorâmico do qual se pode apreciar as parreiras, se encaixa na categoria de “vinícola butique”, em virtude da produção diminuta: no ano passado, foram 180 mil garrafas, entre vinhos e espumantes. As garrafas de Argenta são personalizadas e compradas antecipadamente – por isso, a empresa não sofreu com a falta do insumo. 

Diante do resultado de 2020, Argenta já projeta um crescimento da produção ao adicionar mais 12 hectares à sua lavoura na atual safra, que está em plena fase de colheita. “Eu vou de 42 para quase 55 hectares. Com isso, vou passar das 200 mil garrafas no ano que vem e praticamente dobrar a quantidade de vinhos branco e rosé vendida em 2020. No ano passado, houve falta desses produtos, que esgotaram.”

Garrafas

Na Casa Valduga, a falta de garrafas e de caixas para despachar a produção chegou a afetar as fábricas durante alguns dias. Segundo Jones Valduga, no entanto, o fim do estoque de determinados vinhos foi um fator mais prejudicial do que a questão dos insumos (contando todas as marcas, a família hoje produz 5 milhões de garrafas por ano). “Em um caso, a venda programada para um ano se esgotou em cinco meses”, conta. O empresário concorda com Argenta e diz ver uma boa expectativa de crescimento para brancos, rosés e tintos leves.

Entre os vetores de crescimento da Casa Valduga está o incentivo ao enoturismo, atividade que ajuda a girar a roda da economia de Bento Gonçalves. De olho na retomada das viagens nacionais à medida que a vacinação contra a covid-19 avance, os Valduga estão construindo um novo restaurante e uma nova pousada, que devem ficar prontos em meados de 2021, para as férias de inverno.

Apesar de ainda incipiente, as marcas da família Valduga também começam a dar os primeiros passos em exportações. Hoje, as vendas para o exterior representam apenas 2% da produção da companhia. No entanto, segundo o empresário, o plano estratégico prevê que, nos próximos essa proporção se amplie para 5% ou 10% do movimento total. 

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Vinho brasileiro tem salto histórico no ano de pandemia

Consumo per capita do produto saltou 30% em 2020 e registrou um recorde; segmento de vinho fino nacional dobrou de tamanho

Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

31 de janeiro de 2021 | 05h00

Em um ano muito difícil para a economia brasileira, o mercado de vinhos foi na direção oposta e deu um salto histórico em 2020. O consumo per capita subiu 30% no País, em meio ao isolamento social, chegando à máxima de 2,78 litros para cada habitante com mais de 18 anos. No entanto, o ano foi especialmente positivo para o nicho historicamente menos prestigiado das vinícolas nacionais: o de vinhos finos. Segundo a Ideal Consulting, que acompanha a evolução do setor, as vendas desses produtos dobraram.

Excluindo os espumantes da conta, o mercado brasileiro ainda está bastante concentrado nos vinhos de mesa, explica Felipe Gualtaroça, presidente da Ideal Consulting. Esse produto – associado principalmente aos garrafões de 5 litros, mas não mais restrito a eles – representa 63% da produção nacional, enquanto o produto importado abocanha mais 31%. Resultado: o vinho local produzido a partir de uvas viníferas só representa 6% do consumo total.

Uma confluência de fatores contribuiu para o mercado como um todo, mas principalmente os vinhos brasileiros de preço mais alto, tivessem uma expansão de consumo fora da curva em 2020. O principal deles foi a alta do dólar, que se manteve bem acima de R$ 5 por boa parte do ano. No entanto, as vinícolas nacionais se beneficiaram também de uma melhor distribuição – tanto no varejo tradicional quanto no e-commerce – e pela qualidade da safra 2019/2020, que garantiu a oferta de um produto de melhor qualidade nesse momento de experimentação.

“Foi uma chance para o consumidor se livrar do preconceito que tinha em relação ao vinho fino brasileiro”, diz Gualtaroça. O especialista lembra que a safra que está sendo colhida neste momento também é considerada de qualidade superior à média brasileira graças à condição climática favorável. 

Espumantes

Enquanto o vinho fino local ainda tem um caminho ladeira acima, os fabricantes de espumante já haviam conseguido cair no gosto do consumidor brasileiro. Hoje, as vinícolas locais dominam o mercado nacional de espumantes. Durante a pandemia, esse peso do produto local se ampliou ainda mais: passou de 81%, em 2019, para 84%, no ano passado.

Membro do conselho da família Valduga – que reúne seis das principais marcas de vinho e espumantes do País, como Casa Valduga, Casa Madeira e Ponto Nero –, Jones Valduga diz que o ano de 2020 “com certeza foi atípico”. O empresário projeta que será possível manter em 2021 o ritmo de expansão agregado de 25% do ano passado. “A Ponto Nero, que trabalha exclusivamente com espumantes, cresceu 30% em 2020. E estamos vendo também um aumento do interesse por nossos vinhos branco e rosé.” 

Sócio-proprietário da vinícola Luiz Argenta, da cidade gaúcha de Flores da Cunha, o empresário Deunir Argenta, que também é presidente da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), diz que o “alento” percebido de 2020 veio em boa hora: “Vínhamos quase sem crescimento – em 2017, 2018 e 2019, praticamente o mercado se estagnou”, aponta.

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