Virada de semestre, meio vazia e meio cheia

A virada do primeiro semestre deste ano, por exemplo, mostra frustrações no desempenho da economia brasileira

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

12 Julho 2018 | 20h30

As medições do tempo não servem apenas para medir o tempo. Podem servir, também, para avaliar o que ficou para trás e o que vem pela frente.

As empresas fazem balanços trimestrais, semestrais e anuais. É uma convenção destinada a passar uma régua e conferir a situação dos negócios em determinada data.

A virada do primeiro semestre deste ano, por exemplo, mostra frustrações no desempenho da economia brasileira. Mas não mostra apenas isso.

O baixo avanço do PIB, o desemprego alto demais, a deterioração ainda maior das contas externas, a falta de vontade política para levar adiante as reformas... e as incertezas. São elementos um tanto aleatórios que perfazem o lado ruim dessa métrica.

Mas isso não é tudo. Apesar dos estragos produzidos pela paralisação dos caminhoneiros em maio, a inflação segue rastejante, como há muito não se via. As contas externas, setor que dispara sempre os primeiros alarmes de crise, seguem brilhantes, o agronegócio continua dando show, a área do petróleo tende a bater recordes e no setor financeiro não há problemas de saúde.

Mas vamos aos pontos já citados. O ano começou apontando para avanço do PIB próximo dos 3,0%. Agora ninguém espera mais do que 1,8%. Os últimos levantamentos do Boletim Focus mostram que a média das projeções dos mais de cem analistas e instituições financeiras consultados não passa de 1,5%. Menos crescimento segura também o consumo e o investimento. A percepção da hora é como aqueles sonhos maus, em que a pessoa quer andar, mas sente que uma rede invisível tolhe seus passos. Por conta disso, também o mercado de trabalho não reage. O desemprego segue acima dos 12% da força de trabalho. Sem contratações, as pessoas tentam ganhar a vida do jeito que dá e, por isso, o trabalho por conta própria vem crescendo mais do que o emprego formal.

Na área das contas públicas, as notícias negativas se sucedem neste início da temporada eleitoreira. A última foram as decisões do Congresso que aumentam despesas ou reduzem arrecadação em mais R$ 100 bilhões. A dívida bruta que estava a 73,1% do PIB em maio avança aos 80% (Veja os gráficos).

Mas é preciso olhar para a outra metade do copo. Apesar da alta de junho comandada pelo colapso da distribuição que se seguiu à paralisação dos caminhoneiros, a inflação deve fechar o ano em torno dos 4,0%, portanto, abaixo da meta da inflação. E isso não é pouco. É a principal razão pela qual os juros básicos (Selic) estão nos 6,5%, nível em que devem terminar o ano. São os juros mais baixos desde 1997.

Se o setor produtivo segue engatinhando, o agronegócio vai bem, obrigado. As safras deste ano deverão ser em torno de 5,0% mais baixas do que as de 2017. Mas essa quebra nada tem de anormal. Simplesmente seguiram o ano mais exuberante de que se tem notícia. São quase 230 milhões de toneladas de grãos (a safra do ano anterior foi de 240,6 milhões de toneladas). Apesar da queda da produção física, os preços das commodities seguem relativamente bons, o que garante manutenção da qualidade da renda e aumento das exportações.

As incertezas maiores continuam sendo políticas. Estamos a pouco mais de dois meses das eleições e pouca gente sabe em quem  vai votar. Mais preocupante, os primeiros debates mostram impressionante falta de conhecimento de alguns dos pré-candidatos sobre matérias de política econômica. Não chega a consolar a lembrança de que poucas vezes isso não foi assim.

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