Virada do ano volta a ser pretexto para reajustar serviços

De 18 itens que tiveram altas expressivas em janeiro, 17 são serviços e 11 destes tiveram aumentos maiores que no mesmo mês de 2013

Márcia de Chiara, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2014 | 02h06

Ano novo, preço novo. A velha prática de aproveitar a virada da folhinha para subir preço voltou neste início de ano. Em janeiro de 2014, a chamada inflação gregoriana atingiu especialmente os serviços e uma gama variada deles: da diária do encanador ao transporte escolar, passando pela consulta médica, entrada de cinema, manutenção do jazigo, por exemplo.

Um levantamento feito pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) com base no Índice de Preços ao Consumidor (IPC) mostra que de 18 itens, cujos preços tiveram reajuste praticamente zero em dezembro do ano passado e tiveram altas expressivas em janeiro deste ano, 17 são serviços. Dessa lista de 17 serviços, 11 deles registraram altas no mês passado mais expressivas do que em janeiro de 2013.

A mensalidade do transporte escolar, por exemplo, subiu 6,34% no mês passado, o dobro do reajuste de janeiro do ano passado (3,12%). Em dezembro de 2013, o preço do transporte escolar ficou estável, aponta a Fipe.

Trajetória semelhante ocorreu com os preços da consulta médica e da diária do encanador. A consulta médica subiu 2,2% em janeiro deste ano, ante alta de 1,67% em janeiro do ano passado. No caso da diária do encanador, o aumento foi de 2,46% no mês passado, enquanto a variação foi de 0,49% em janeiro de 2013.

A inflação alta, mantida acima do centro da meta de 4,5% nos últimos quatro anos, entre 2010 e 2013, leva os agentes econômicos a se protegerem de perdas e a reajustarem preços, explica o coordenador do IPC-Fipe, Rafael Costa Lima. "A expectativa de uma inflação maior tende a referendar o reajuste de preço e os prestadores de serviços aproveitam a virada do ano. Isso realimenta a alta de preços", afirma o economista.

Ele diz que, se a inflação nos últimos anos tivesse girado em torno de 4%, os agentes econômicos não estariam tão preocupados com reajustes. No entanto, com a inflação beirando 6%, todos buscam proteção e aumentam os seus preços. Segundo o economista, esse movimento é mais nítido nos serviços, especialmente na virada de ano, porque os prestadores não podem aumentar preços o tempo todo, caso contrário perdem clientes.

Já na avaliação do professor da Faculdade de Economia e Administração da USP, Heron do Carmo, que durante 25 anos esteve à frente do IPC-Fipe, os aumentos de preços na virada do ano atingem mais o setor de serviços porque é uma decisão mais fácil de ser tomada e muitas vezes envolve apenas uma pessoa: o prestador de serviço. "Cada um está olhando para os seus aumentos de custos."

Incertezas. Além dos aumentos reais de custos, Heron acrescenta dois outros fatores que pressionam os preços para cima no início do ano. O primeiro, de menor impacto, é o arredondamento das unidades monetárias. Ele lembra que os prestadores de serviços não usam preços com centavos.

Outro fator, que é o mais importante e que alimenta a alta de preços, é a incerteza que paira sobre o ambiente econômico. Neste ano, diz Heron, um conjunto de variáveis está contribuindo para que a incerteza aumente. Entre elas, ele aponta os juros em alta, a elevação da taxa de câmbio e as indefinições sobre o cenário da economia mundial e o crescimento do País. "Ninguém sabe o que vai acontecer com o câmbio após a retirada dos estímulos monetários nos EUA, qual será o impacto das eleições, da Copa do Mundo e das crises da Argentina e da Venezuela no País."

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