Virtude e conhecimento

O tradicional torpor natalino foi este ano agravado pela percepção generalizada quanto à impotência do governo Bush no seu último mês de mandato. O custo aumentou dramaticamente com o agravamento da crise econômica nos Estados Unidos e no mundo. Tudo ainda coroado pela ofensiva israelense na Faixa de Gaza.As conexões entre a atual crise econômico-financeira e a deterioração da situação política internacional não encontram paralelo na história mundial recente. Para encontrar alguma comparação, talvez seja necessário voltar à grande disputa entre França e Grã-Bretanha na virada do século 18 para o século 19, coroada pela vitória britânica em Waterloo. A crise de 1929-1933 teve, é claro, papel crucial no sucesso eleitoral nazista em 1932 e no aumento da agressividade expansionista do Japão e da Itália. Assegurou que as previsões de Ferdinand Foch e John Maynard Keynes em relação ao fim da "paz de 20 anos", alcançada em Versalhes, fossem exatamente confirmadas. Mas não houve, em contraste com os tempos atuais, ameaça à paz mundial coincidente com o auge da crise econômico-financeira.Hoje o mundo está imerso em crises tanto de natureza econômica quanto política de enorme gravidade, sem perspectivas de solução no médio prazo. A solução da crise econômico-financeira, que pareceria em princípio mais simples, enfrenta dificuldades significativas pelo menos no próximo biênio. Como ressaltou Martin Wolf no jornal Financial Times do último dia 6, há argumentos sólidos que condicionam a recuperação da economia mundial à recuperação da economia dos Estados Unidos. A recuperação norte-americana, por sua vez, depende de políticas compensatórias que levem em conta o déficit estrutural do balanço de pagamentos e a reviravolta no endividamento do setor privado, a partir do terceiro trimestre de 2007. No cerne do problema está a incapacidade norte-americana de produzir bens e serviços competitivos. Estima-se que o déficit fiscal requerido para a manutenção do pleno emprego seja da ordem de 10% do PIB, grosso modo o dobro dos US$ 760 bilhões do pacote já previsto. Déficits dessa magnitude seriam de sustentabilidade difícil e certamente estimulariam tentativas protecionistas de "conter a demanda" em benefício dos bens produzidos nos Estados Unidos. Seria a repetição dos erros dos anos 30: a infame tarifa norte-americana de 1930 (Smooth-Hawley), que provocou respostas protecionistas de outros países. Todos pretendiam exportar a recessão (beggar-my-neighbour) e acabaram por agravar ainda mais a crise.A solução da crise política do Oriente Médio e, mais globalmente, das fricções dos países ocidentais desenvolvidos com o islamismo jihadista é ainda mais complexa do que a superação das atuais dificuldades econômicas. A crise econômica atual ocorreu em meio ao fracasso da estratégia dos Estados Unidos no Iraque e a dificuldades quanto à campanha no Afeganistão. As difíceis relações com o Irã podem tornar ainda mais crítica a situação no Oriente Médio, com possível envolvimento além-fronteiras de Israel. As dificuldades em relação às negociações para criação de um Estado palestino têm sido ilustradas pela atual invasão israelense da Faixa de Gaza. As declarações de autoridades de Israel e do Hamas - ecoadas por seus aliados em escala global - dão margem a escassa esperança de um entendimento estável que livre a população israelense de ataques sistemáticos e permita condições de vida aceitáveis sob soberania palestina na Faixa de Gaza. A discussão do que seria ou não "reação desproporcional" israelense às provocações do Hamas tem enfrentado resistência dos que apoiam sem reservas a atual ofensiva israelense. Mas é discussão necessária, embora a opinião pública mundial esteja acostumada a aceitar enormes contrastes a respeito do valor da vida humana, dependendo da nacionalidade das vítimas. As ordens de magnitude são desoladoras: uma baixa israelense para cem palestinas. Argumentos baseados em contrastes entre potenciais demográficos são passíveis de objeção se o objetivo é a solução política do conflito entre árabes e judeus.A crise econômica provavelmente agravará as fricções políticas hoje existentes. As relações da Rússia com algumas outras ex-Repúblicas soviéticas e os seus dependentes energéticos na Europa podem se complicar. As relações entre as potências atômicas no subcontinente indiano podem também se agravar. A situação política interna em diversos países, inclusive na China, é também vulnerável.As demandas sobre o novo presidente dos Estados Unidos serão ciclópicas. E as soluções demandarão ações de prazo longo. Na economia, embora medidas de prazo mais curto devam surtir efeito, em última instância a volta ao crescimento estável da economia mundial dependerá do aumento da competitividade de bens e serviços produzidos nos Estados Unidos e de reajustamento da composição da demanda dos grandes exportadores, especialmente da China. Quanto à política internacional, a agenda de Obama envolverá não apenas uma solução de curto prazo para a crise de Gaza e a questão do Iraque, mas também acomodar russos, conter iranianos, atenuar os conflitos Índia-Paquistão.É hora de invocar com fervor a incitação de Ulisses a seus companheiros em Gibraltar: "Considerai a vossa semente, não fostes feitos para viver como brutos, mas para seguir a virtude e o conhecimento" (Considerate la vostra semenza: fatti non foste a viver come bruti, ma per seguir virtute e conoscenza, Dante Alighieri, Inferno, canto XXVI, 118-120). *Marcelo de Paiva Abreu, Ph.D. em Economia pela Universidade de Cambridge, é professor-titular do Departamento de Economia da PUC-Rio

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