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Visão 20/20

Cenário global ganha viés positivo com fim das incertezas de guerra comercial e Brexit

Paulo Leme, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2020 | 00h00

Nada como começar o ano reavaliando os prognósticos para a economia mundial e do Brasil para 2020. A ressalva é que o novo cenário global tem tudo menos a acuidade de uma visão 20/20.

Em termos quantitativos, as previsões para o crescimento da economia mundial para 2020 são praticamente as mesmas àquelas que discuti nesta coluna em novembro de 2019. No entanto, há cinco mudanças qualitativas importantes no cenário global, o que introduz um viés de risco positivo para as previsões de crescimento e mercados financeiros.

A primeira é o anúncio do acordo comercial entre os Estados Unidos e a China. A primeira fase deve ser concluída em janeiro e a segunda fase no segundo semestre. Os danos causados pelas barreiras comerciais impostas até 2019 sobre o comércio internacional e atividade econômica são irreversíveis, mas pelo menos a incerteza gerada pela guerra comercial foi abafada.

A segunda é a reeleição do primeiro-ministro Boris Johnson na Inglaterra, o que permitirá que o Reino Unido e a União Europeia cheguem a um acordo para as regras de transição do Brexit.

A terceira é o alívio gerado pela eliminação destas duas grandes fontes de incerteza sobre os investimentos privados nos Estados Unidos, China e Europa e o aumento do apetite por risco no mercado financeiro. A quarta é o efeito positivo sobre a demanda agregada e o crescimento global gerados pelo estímulo monetário implementado por quase que a metade dos bancos centrais no mundo. Estas quatro boas notícias nos levam à quinta variável positiva para o cenário global: a aparente retomada da produção industrial e a melhora dos indicadores antecedentes para a atividade econômica nos Estados Unidos e Europa (principalmente Alemanha).

Neste novo cenário, a expansão econômica global crescerá 3,4% em 2020, comparado com 3,0% em 2019 e 3,6% em 2018. A retomada do crescimento das economias emergentes para 4,5% em 2020 versus 4,2% em 2019 explica o aumento da taxa de crescimento global. Isto inclui uma melhora das perspectivas para o crescimento do PIB no Brasil, México, Turquia, Índia e Rússia. Na China, o PIB continuará a se desacelerar, para 5,8% em 2020, comparado com 6,6% em 2018 e 6,1% em 2019. As economias desenvolvidas crescerão no mesmo ritmo lento de 1,7% obtido em 2019, já que o crescimento do PIB dos Estados Unidos e da Europa se estabilizarão em 2,3% e 1,2%, respectivamente. 

Estas são praticamente as mesmas previsões que o FMI apresentou em outubro de 2019 para o PIB global, a qual discutimos em novembro. Hoje, a grande diferença é qualitativa: a eliminação de duas grandes fontes de incerteza (guerra comercial e Brexit) introduz um viés de risco positivo para o cenário global, comparado com o forte viés negativo que havia anteriormente. 

A melhora do cenário global aumentou o apetite por ativos de risco e permitiu que os mercados financeiros fechassem o ano com chave de ouro. Em 2019, o índice S&P 500 da bolsa americana subiu 29%, enquanto que o Ibovespa chegou a 117,000 em dezembro, apresentando um retorno de 32% no ano.

Para 2020, a política monetária dos bancos centrais continuará sendo expansionista. O Fed manterá a taxa de juros entre 1,50% e 1,75%; o BCE continuará com o seu programa mensal de recompra de ativos e, provavelmente, voltará a cortar a taxa de juros.

Este cenário global se traduziria em um crescimento de 8% para a Bolsa americana em 2020, elevando o índice S&P 500 para 3.500. O dólar deve se valorizar de forma modesta em 2020. O preço do petróleo (WTI) deve ficar próximo a US$ 60 por barril; o minério de ferro tem tendência de queda; enquanto que a o preço da soja ficará à mercê de choques climáticos.

O maior risco para a economia mundial seria um conflito direto e prolongado entre os Estados Unidos e o Irã causado pelo ataque aéreo americano em Bagdá.

Eu também estou mais otimista com o cenário para o Brasil para 2020. As primeiras reformas aprovadas pelo governo e uma possível retomada do crédito estimulada pela queda da taxa Selic para 4,50% acelerarão o crescimento econômico. Na medida em que isto se traduza em um aumento do investimento e do consumo privado, é provável que o PIB cresça entre 2,0% a 2,5% em 2020, comparado com 1,2% (acima do esperado) em 2019.

A retomada do crescimento da economia brasileira mostra que ela responde bem à boa política econômica. A moral da história é que mesmo aqueles que não tem visão 20/20 enxergam que se formos mais ambiciosos em matéria de estabilização macroeconômica, reformas estruturais e redução do tamanho do Estado poderemos ter grandes ganhos em matéria de crescimento, emprego e distribuição de renda ainda nesta década.

PROFESSOR DE FINANÇAS  

NA UNIVERSIDADE DE MIAMI 

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