Adriano Machado/ Reuters
Keith Krach, subsecretário para Crescimento Econômico, Energia e Meio Ambiente do Departamento de Estado dos EUA Adriano Machado/ Reuters

Visão dos EUA sobre 5G e riscos da Huawei unifica republicanos e democratas, diz secretário

Segundo Keith Krach, não se trata de uma guerra comercial entre EUA e China, mas sim 'nações livres contra nações autoritárias'

Anne Warth, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2020 | 18h03

BRASÍLIA - A preocupação dos Estados Unidos sobre a segurança das redes 5G e sobre os riscos que a chinesa Huawei oferece para as redes mundiais é compartilhada pelos partidos Republicano e Democrata, disse o subsecretário para Crescimento Econômico, Energia e Meio Ambiente do Departamento de Estado dos EUA, Keith Krach. Em visita ao Brasil, o subsecretário garantiu que não haverá mudança em relação a essa política.

"Esse assunto relacionado ao Partido Comunista Chinês é o mais unificador, bipartidário para os dois lados, tanto para republicanos quanto para democratas. Isso não vai mudar de jeito nenhum. Os dois lados entendem o significado estratégico do 5G e as implicações que isso tem. É uma enorme mudança de tecnologia e republicanos e democratas entendem que a Huawei é a mais importante empresa para a China, é uma extensão do braço de vigilância do estado chinês", disse ele, em conversa com jornalistas.

Krach não mencionou nem Donald Trump nem Joe Biden, mesmo com a iminente mudança de governo em 20 de janeiro, com a posse do democrata. Ele disse que espera uma "transição pacífica" entre as duas gestões.

O subsecretário veio ao Brasil para defender a adesão do País à iniciativa "Clean Network", que une países e empresas em favor de fornecedores confiáveis, uma tentativa de impedir que os equipamentos da empresa chinesa, líder mundial na tecnologia 5G, sejam utilizados nas redes de telecomunicações. Segundo ele, não se trata de uma guerra comercial entre EUA e China, mas sim "nações livres contra nações autoritárias".

Na terça, em cerimônia no Itamaraty, ele anunciou que o Brasil aderiu à iniciativa diplomática. O secretário de Negociações Bilaterais e Regionais nas Américas, embaixador Pedro Miguel da Costa e Silva, disse que o Brasil apoia os princípios da iniciativa por um ambiente seguro, transparente e compatível com valores democráticos e valores fundamentais.

O governo brasileiro, porém, não confirmou a adesão ao protocolo. Embora tenha contado com a presença do chanceler Ernesto Araújo, o ministro das Comunicações, Fábio Faria, cuja pasta tem relação direta com o 5G, não participou da cerimônia. Banir a Huawei do Brasil é uma decisão que dependeria da publicação de um decreto presidencial.

Mesmo sem essa adesão oficial, Krach disse considerar que o Brasil já é o 50º país a aderir à Clean Network. Ele também minimizou o fato de que as operadoras que atuam no Brasil não tenham aceitado o convite para encontrá-lo.

"Temos 50 países e 170 companhias de telecomunicações dentro da Clean Network. O CEO da Telefónica, José López, foi um dos primeiros a aderir e garantiu que haverá redes limpas na Espanha, Brasil, Alemanha e Reino Unido", disse. O subsecretário citou ainda conversas com a Telecom Itália e a Claro no México nesse sentido.

Uma das principais resistências das operadoras ao banimento da Huawei é o custo. Os equipamentos são até 40% mais baratos que os das concorrentes, e estão presentes em 35% a 40% das redes de 2G, 3G e 4G brasileiras. Substituí-los demandaria investimentos bilionários.

Para o subsecretário, a presença da Huawei nas redes brasileiras se deve a subsídios do governo chinês. "Claro que é mais barato, é uma companhia subsidiada pelo governo chinês. A companhia quer os dados, é por isso que é tão barato", disse.

Krach afirmou ainda que o Brasil pode ter oportunidades de investimento e empregos com o protocolo Open RAN, padrão que permite a combinação de equipamentos e programas de diferentes fornecedores que conversem entre si. "Ficar com a Huawei é um caminho sem volta. Qual o custo dessa decisão no longo prazo? O quanto vocês confiam na China?", questionou.

O subsecretário lembrou ainda que os EUA estão dispostos a financiar investimentos de 5G no Brasil e reativou recentemente o banco de importações e exportações.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'Cheio de mentiras!', diz embaixador da China após declaração de secretário dos EUA sobre 5G

Durante evento no País, Keith Krach pediu ajuda para evitar que dados sigilosos cheguem ao alcance dos chineses; na última terça, Brasil entrou para programa dos EUA que visa banir 'fornecedores não confiáveis' do 5G

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2020 | 18h15

A disputa pelo 5G no País voltou a ser palco de polêmica nesta quarta-feira, 11, após o embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, chamar o secretário de Crescimento Econômico, Energia e Meio Ambiente do Departamento de Estado dos EUA, Keith Krach, de mentiroso e desavergonhado. A declaração veio após Krach, em um evento realizado em Brasília, pedir ajuda aos aliados dos EUA para evitar que dados sigilosos cheguem ao alcance do Partido Comunista Chinês, por meio da empresa de tecnologia Huawei.

"Cheio de mentiras! Desavergonhado! As mentiras já são a figura dos oficiais do departamento do Estado do governo dos EUA,  que agora com suas próprias ações está ensinando ao mundo inteiro qual é o modelo e a forma da "democracia americana"", diz Wanming em sua conta oficial do Twitter.

Ele também compartilhou as declarações dadas por Krach no evento realizado em Brasília, que foram divulgadas pelo perfil oficial do Instagram da própria embaixada americana. Em uma delas, o secretário diz que "os EUA são de longe o maior investidor no Brasil, totalizando mais de 5 vezes o investimento de qualquer outra nação. Esse investimento cria empregos e desenvolve liderança empresarial da classe mundial", disse.

Depois, ele faz um apelo para que aliados e parceiros dos EUA "se unam à crescente maré para proteger nossos dados e interesses de segurança do Partido Comunista Chinês e de outras entidades malignas". 

Rede Limpa

Na última terça-feira, 10, o governo brasileiro anunciou que aderiu ao Clean Network (Redes Limpas, em português), um programa do governo Trump que tem justamente como iniciativa convencer países a banir de suas redes de telecomunicações “fornecedores não confiáveis”.

O anúncio ainda não oficializou a negociação com sistemas de empresas defendidas pelos americanos, mas deixou mais distante a possibilidade de o Brasil firmar uma parceria com a Huawei em relação ao 5G. No entanto, um banimento oficial da empresa chinesa de tecnologia do leilão do 5G do País ainda depende da publicação de um decreto presidencial.

A decisão foi comemorada pelos americanos. “O Brasil é o primeiro país da América Latina a respaldar os princípios da Rede Limpa”, celebrou Krach na ocasião. Segundo ele, 31 dos 37 países da OCDE já fazem parte do programa.

O País é um dos palcos mundiais da disputa entre China e EUA pela liderança na tecnologia de última geração, com um leilão do 5G agendado para 2021. A chinesa Huawei é líder em fornecimento de aparelhos para rede 5G e outros de telecomunicações no Brasil e no mundo. No entanto, a empresa sofre constante ofensiva dos EUA, que acusam a companhia de permitir brechas nas redes para espionagem e controle por parte do governo do Partido Comunista Chinês.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.