University of Missouri
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Walt Disney: visionário e louco como um rato

Ícone da criatividade, Walt Disney estava longe de ser um gênio dos negócios, descreve biógrafo

Neal Gabler*, O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2015 | 02h03

WASHINGTON - Pode ser uma surpresa, mas Walt Disney, esse ícone da engenhosidade americana, teve dificuldades financeiras na maior parte da sua vida profissional. Todo mundo pensa que ele era um gênio dos negócios, um exemplo a seguir. Mas Disney era um empresário atroz, constantemente administrando sua companhia até quase a destruição. Mas, ao mesmo tempo, era um visionário cuja aversão a práticas comerciais normais levaram ao colosso que se tornou a Walt Disney Company.

Mesmo antes de ter idade suficiente para assinar os documentos legais de uma empresa, Disney reuniu alguns amigos, levantou dinheiro e fundou o Laugh-o-Gram, um estúdio em Kansas City, Montana, que produzia desenhos animados cômicos em curta-metragem baseados em contos de fada. Mas Walt parecia menos interessado em lucrar e mais em se divertir, e a companhia logo faliu, levando-o, à época com 21 anos, para Los Angeles para procurar na indústria cinematográfica.

Foi salvo quando um distribuidor em Nova York selecionou um curta-metragem que ele havia produzido sobre uma menina real chamada Alice, que vivia no mundo do desenho animado. Tudo correu bem por um tempo.

Mesmo quando a série de filmes com Alice chegou ao fim, Disney conseguiu inventar um novo personagem de sucesso, Oswald o Coelho Sortudo. Mas Disney era financeiramente egoísta e imprudente. Seu distribuidor o apunhalou pelas costas e, sem aviso, contratou seus desenhistas, que se ressentiam do seu comportamento despótico. Como o distribuidor possuía os direitos de Oswald, Disney, então com 27 anos, teve de começar novamente.

Rato. Ele substituiu Oswald por uma nova invenção: Mickey Mouse, que se transformou num sucesso imediato. Mas à medida que a criatividade de Walt florescia, sua perspicácia comercial enfraquecia. Mesmo o irmão mais velho de Walt, Roy Disney, que administrava as finanças do novo estúdio, dizia que o irmão seria constantemente espoliado economicamente não fosse por ele.

No caso do Mickey Mouse, ele foi. Um empresário de Nova York chamado Pat Powers conseguiu que Disney contratasse seus serviços de sonorização em condições onerosas. Apesar de os desenhos de Mickey terem sucesso, quando a Disney pagou Powers pelo trabalho e as despesas do estúdio, pouco restou. Somente quando ele convenceu a Columbia Pictures a comprar os direitos de distribuição de uma segunda série de desenhos animados chamada Silly Symphonies é que registrou fluxo de caixa contínuo. Na época, a Columbia também se protegeu contra Powers quanto aos direitos sobre os desenhos animados de Mickey.

Walt Disney poderia ter ampliado vigorosamente sua companhia com base no sucesso do Mickey Mouse. Em vez disso fez uma arriscada aposta em filmes animados. Branca de Neve e os Sete Anões ficou quatro anos em produção e custou mais de US$ 2 milhões (US$ 33,5 milhões atuais), a maior parte tomada emprestada do Bank of America para ser paga com a receita de desenhos curta-metragem. A aposta compensou. Branca de Neve rendeu US$ 7 milhões (US$ 117 milhões hoje) e a maior parte do dinheiro foi imediatamente aplicada numa nova sede do estúdio em Burbank, Califórnia, e numa série de novas produções.

Por mais difícil que seja imaginar hoje, os novos filmes - Pinóquio, Fantasia e Bambi - eram muito caros, ao passo que a Segunda Guerra Mundial havia estancado o mercado europeu e o interesse do público em filmes de animação. Os prejuízos foram catastróficos - US$ 1,5 milhão só no caso de Pinóquio, ou mais de US$ 25 milhões atualizados. Devendo milhões para o Bank of America, a companhia mais uma vez viu-se em dificuldades financeiras e somente sobreviveu à guerra deixando de lado a animação e produzindo filmes de treinamento e propaganda para o governo.

Walt Disney, que depois do fracasso de Oswald insistiu que nunca cederia o controle da sua empresa, vendeu as ações para investidores e logo depois trouxe para a companhia uma equipe de administração externa. Chegou a contratar especialistas em rendimento para determinar se os filmes de animação poderiam ser simplificados. No período pós-guerra, o estúdio descartou filmes que o próprio Disney considerava inferiores. E tomou emprestado US$ 1 milhão da RKO, sua distribuidora, para evitar um novo colapso.

Dinheiro. Disney deixou a situação ainda pior ao demonstrar desprezo pelas pessoas que lhe prestaram socorro financeiro. Ele não dava a mínima importância para dinheiro. Mesmo sua mulher, Lillian, dizia não entender porque ele não era mais rico. Afinal, era Walt Disney. Se ele não fosse a força criativa do estúdio, se o seu nome não estivesse tão associado ao nome da companhia, certamente teria sido destituído. Ele não ouvia os banqueiros e nem o próprio irmão, que o pressionaram para controlar suas ambições e se comprometer com a qualidade dos seus filmes.

Apesar de todas as dificuldades, Walt Disney resistiu a um compromisso. Ao contrário de tantos empresários, Walt apostou no longo prazo. Em 1936, recusou-se a firmar um acordo de distribuição porque o contrato abrangia direitos de TV que ele queria reter. E não muito tempo depois lançou a ideia de relançar os filmes a cada cinco anos - o que, no fim das contas, propiciou lucros enormes.

A qualidade provou ser também uma estratégia excelente para elevar o moral da companhia. Até uma virulenta greve em 1941 que destruiu o sentimento de camaradagem reinante no estúdio, desenhistas brigavam para trabalhar no estúdio porque desejavam fazer parte da missão artística de Disney.

Apesar dos caprichos de Disney e da constante reinvenção da sua companhia deixarem malucos seu irmão e outros, o estúdio Disney continuou ativo, até chegar em 1955 à Disneylândia, um triunfo que acabou por dar à companhia uma sólida base financeira. Não por acaso, a Disneylândia nasceu de uma outra crença de Walt Disney: a de que era difícil extrair excelência da burocracia. Ele e sua equipe projetaram o parque como uma entidade separada do estúdio.

Nada disso seria possível sem a consciência de Roy Disney de que sua tarefa principal era realizar os sonhos do irmão. Ele era o empresário que Disney necessitava para lidar com outros empresários. Walt Disney, no fundo, era um artista que jogou no lixo o manual corporativo e operou, como os artistas normalmente fazem, usando a inspiração. No fim, a companhia floresceu exatamente porque ele era um empresário indiferente. / Tradução de Terezinha Martino

* Neal Gabler é autor do livro "Walt Disney: The Triumph of the American Imagination"

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