Visto, deportação e sonhos de uma vida melhor

Visto, deportação e sonhos de uma vida melhor

Veja as histórias de quatro valadarenses que já moraram ou pensam em ir para os Estados Unidos

Luiz Guilherme Gerbelli , O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2015 | 03h00

'É UM SONHO DE CONSUMO’

Nos planos da microempresária Josilaine Rocha, de 29 anos, o encontro com o marido que mora nos Estados Unidos vai acontecer até o fim do ano. Em novembro, ela pretende conseguir o visto de turista e embarcar para o país.

O marido vive próximo de Miami e já está com o processo para a obtenção da cidadania americana em andamento. Em 2001, ele chegou aos EUA de forma ilegal. Fraudou documentos para conseguir embarcar. Viveu assim por dez anos e se casou com uma americana. 

Descoberto, coube ao pai dele assumir a culpa pela fraude na papelada e livrar o filho da Justiça americana. “Ele se casou lá, depois se separou e conseguiu a documentação por meio da ex-mulher americana.”

Sem culpa na Justiça americana, voltou ao Brasil. Josilaine o conheceu há quatro anos. O casal tem uma filha de dois anos, que também deve se mudar para os EUA. “Morar nos EUA é um sonho de consumo. Viver num país de primeiro mundo e ter mais segurança são questões de qualidade de vida.” 

Se os planos derem certo, ela vai deixar uma outra filha no Brasil, de oito anos. “Ela não larga a avó de jeito nenhum.”

CRISE REDUZ PERSPECTIVAS

Nuno Luiz Pereira, de 23 anos, está no quinto semestre de engenharia mecânica. Faltam mais cinco semestres para ele terminar o curso, mas quando sonha com os Estados Unidos não se importa em imaginar uma vida longe da engenharia, mesmo que isso implique num trabalho considerado secundário, como muitos migrantes fazem na economia americana. “No Brasil, as coisas estão muito difíceis”, afirma. 

Nas palavras dele, há um desapontamento com o excesso de corrupção no País e uma falta de perspectiva como a crise atual. “Não gosto das coisas erradas.” Nuno tem um tio que mora há dez anos nos Estados Unidos. 

‘NÃO GANHEI NADA NÃO’

A enfermeira Eliana Gonçalves da Cruz, de 54 anos, deixou o País ilegalmente em 1991. Embarcou para os Estados Unidos por um método conhecido como montagem - quando uma pessoa compra o passaporte com visto americano e troca apenas a foto do documento.

Tirou outro passaporte e voltou ao Brasil em 1998. “Na época, os valadarenses iam para os EUA com o objetivo de trabalhar e ganhar dinheiro para conseguir alguma coisa no Brasil”, afirma. “Mas não ganhei nada, não. Quando eu vim de lá trouxe US$ 10 mil.”

No Brasil, deixou um filho. Tentou levá-lo para os EUA, mas o pai do garoto não o deixou embarcar. Até entrou na Justiça para evitar a saída do menino do País. “Na época, era como se eu estivesse raptando meu filho.”

Nos Estados Unidos, engravidou novamente. Teve uma filha. Hoje, tem esperança de retornar aos EUA. A filha de Eliana se casou com um brasileiro naturalizado americano e já teve filhos. “Por ser legal, a minha filha vai fazer a carta de chamada. Se o governo dos Estados Unidos aprovar, eu vou para lá de forma legal”, afirma. “Não é difícil, não.”

Nos consulados espalhados pelo Brasil, a enfermeira já teve o visto negado quatro vezes.

DEPORTADO APÓS ACIDENTE

No ano passado, o motorista Ronaldo da Cunha Ferreira, de 44 anos, foi deportado dos Estados Unidos. 

Ronaldo entrou no país de forma ilegal. Saiu do Brasil com uma dívida de US$ 7 mil para ser quitada em três anos. Chegou aos EUA no fim de 2002, depois de passar o Natal no México.

Nos EUA, trabalhava das 5 horas da manhã até as 22 horas em dois empregos. Dividia a rotina entre um restaurante e um hospital. Ele foi descoberto quando se envolveu num acidente de carro. “Hoje, só volto para o Canadá ou Portugal.”

A família está dividida. Metade dos irmãos e o pai moram nos EUA, e o restante - a mãe já faleceu - em Governador Valadares.

Mais conteúdo sobre:
GOVERNADOR VALADARES

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.