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Amir Khair
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Vítima do curto prazo

O governo está sendo vítima de uma política econômica, que vem se caracterizando: a) pelas ações de curto prazo, respondendo com atraso aos problemas criados pela conjuntura; b) pelo medo do fantasma da inflação, cada vez que os preços acusam temporariamente elevação e; c) por promessas de crescimento não realizadas. O resultado começa a arranhar a credibilidade da equipe econômica e reduzir a aprovação do governo.

Amir Khair, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2013 | 02h13

Curto prazo. As ações de curto prazo evidenciam a falta de visão estratégica. Exemplo emblemático é o sacrifício imposto à Petrobrás para atuar como biombo da inflação em vez de fortalecê-la para enfrentar a expansão do refino e da exploração do pré-sal. O erro começa ao colocar o ministro da Fazenda como presidente do Conselho de Administração da empresa. É natural que atue para segurar os preços dos combustíveis.

O artificialismo nos preços dos combustíveis atingiu duramente a produção de etanol, forçando a expansão do consumo de gasolina além da capacidade de refino da Petrobrás, o que vem obrigando importações crescentes de gasolina a custo superior ao preço de venda. Como resultado final: a fragilização operacional, econômica e financeira da Petrobrás, sério dano à sua imagem, ao preço de suas ações e ampliação do rombo externo na conta de combustíveis, por causa do excesso na importação de gasolina. Lamentável!!!

Na visão de curto prazo, a política de transporte se dirigiu para o estímulo ao transporte individual, saturando ainda mais as vias urbanas e piorando a poluição e mobilidade nos deslocamentos. Na visão de longo prazo, o ataque nessa área se basearia na ampliação da oferta de transporte coletivo, o que aliviaria o trânsito, reduzindo o tempo gasto com locomoção, permitido maior número de passageiros no uso da capacidade de transporte disponível, com notável redução das tarifas, sem mexer nos custos do transporte. A tarifa cai, pois ela é obtida pela divisão do custo do sistema pelo número de passageiros transportado, que cresceria muito. De quebra, boa ajuda na inflação e na despesa de combustível do País, por causa do menor uso do transporte individual.

Inflação. O medo do fantasma da inflação é o causador da política errática do sobe e desce nos juros e no câmbio, ambos fora de lugar. A taxa de juro básica (Selic) e ao tomador, embora historicamente baixas, ainda se encontram entre as mais elevadas do mundo.

A Selic é a principal responsável pelo rombo nas contas públicas e ao elevá-la o Banco Central (BC) põe lenha na fogueira da inflação ao aumentar a despesa do governo federal.

A alta taxa de juro a tomador encarece preços elevando a inflação e, ao mesmo tempo, segura o consumo comprometendo o crescimento.

A recente retirada do IOF sobre as aplicações de estrangeiros em títulos do governo mostra com clareza que o combate à inflação se dá pela via da âncora cambial.

Essa política é danosa sob vários aspectos. No curto prazo, atrai dólares especulativos, o que aprecia o real reduzindo os preços dos bens importados, mas alguns meses após o ingresso desses dólares, eles retornam aos seus aplicadores com os lucros financeiros das aplicações, o que causa depreciação do real. Saem mais dólares do que entraram. Consequência: segura a inflação no curto prazo e a eleva no médio prazo, prevalecendo este último efeito, pois saem mais dólares do que entram.

O que causou a inflação foram os alimentos in natura, por causa do choque climático. Eles cresceram 55% nos últimos 12 meses, impactando os preços dos alimentos. O IPCA ex-alimentos gira desde meados do ano passado no entorno de 4% (!) ao ano, portanto, abaixo do centro da meta de inflação de 4,5%. Como está se dissipando o choque agrícola, e como já está entrando no mercado a nova safra recorde, os preços dos alimentos estão retrocedendo. Em maio, a inflação foi de 0,37%, que anualizada é de 4,5%.

O problema é que a inflação acumulada em 12 meses vai superar neste mês o teto da meta de 6,5%, pois a inflação de junho do ano passado foi de 0,08%. Como no final de maio a inflação acumulada em 12 meses chegou a 6,5%, basta neste mês ficar acima de 0,08% para ultrapassar o teto.

Tem-se inflação mensal refluindo e inflação acumulada em 12 meses subindo. Os guardiões da inflação olham só para a superação do teto.

Assim, há erro na condução do combate à inflação, pois o Banco Central usa sempre o argumento de que a alteração na Selic leva de 6 a 12 meses para surtir efeito. Ora subir agora quando a inflação presente é cadente é contrassenso. Há sim, política de curto prazo na atuação do Banco Central. É atrair dólares para tentar segurar a depreciação do real, que é causada por fator externo ao País, que é a perspectiva de retomada do crescimento americano.

Como a inflação tende a cair pelo impacto favorável dos alimentos e pela diminuição da expansão do consumo por causa da inflação passada, que foi alta nos meses precedentes, não se poderá atribuir ao Banco Central a queda da inflação, mas sim ao retorno dos preços dos alimentos à situação anterior ao choque agrícola e à redução do consumo causada pela própria inflação.

Contas externas. A persistência do real apreciado, para segurar a inflação, levou a impressionante crescimento das importações. O último ano em que o País apresentou equilíbrio nas contas externas foi 2007. Naquela ocasião, a importação foi de US$ 120 bilhões. Em 2012, saltou para US$ 223 bilhões, crescendo nesses últimos cinco anos US$ 103 bilhões à razão de 13,1% a cada ano. As exportações também cresceram, mas seu ritmo anual foi de 8,6%.

Em 2007, ainda foi registrado superávit nas contas externas de US$ 1,6 bilhão. Em 2012, o rombo atingiu US$ 54,2 bilhões. O que explicou essa deterioração de US$ 55,8 bilhões (54,2 mais 1,6) foi: a) a balança comercial (exportação menos importação) que piorou em US$ 20,6 bilhões; b) a elevação das despesas com serviços e rendas (juros, remessa de lucros, dividendos e royalties, fretes, seguros, viagens internacionais e aluguel de equipamentos) em US$ 34,0 bilhões e; c) as transferências de brasileiros no exterior que se reduziram em US$ 1,2 bilhão.

Até o ano passado, o rombo externo foi coberto pelo investimento direto de estrangeiros (IDE), que inclui investimentos produtivos, aquisição/participação em empreendimentos e empréstimos intercompanhias. Fato é que o IDE gera aumento de transferências via lucros e dividendos e juros ao capital internacional agravando as contas externas.

Há que desvalorizar o real para no mínimo R$ 3 por dólar, mas como o governo teme o impacto inflacionário parece que isso vai ser deixado para após as eleições. Aí, então, as empresas vão ganhar forte estímulo para competir no mercado internacional e as importações vão refluir, permitindo que a expansão do consumo possa ser atendida pela oferta interna, reduzindo a ociosidade das empresas e estimulando seus investimentos. Aí se retoma o crescimento. Até lá, o governo continuará vítima da política de curto prazo.

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