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Vítimas da crise esperam retomada

Queda na produção de ferro da Vale provocou demissões em Itabira e atingiu arrecadação municipal e o comércio

Eduardo Kattah, O Estadao de S.Paulo

29 de agosto de 2009 | 00h00

O desembarque da crise internacional na economia real brasileira deixou sequelas em Itabira, na região central de Minas Gerais. Berço da Vale, a cidade é uma espécie de símbolo dos municípios mineiros dependentes do minério de ferro. Por causa disso, a turbulência global teve reflexo direto na vida de muitos moradores. Demitido em dezembro do ano passado após 28 anos na mineradora, o técnico em mecânica Luiz Citty Rosa, de 51 anos, por exemplo, procura agora retomar a vida profissional. Já o mecânico e borracheiro Márcio Antônio Quintão, 41 anos, dispensado na mesma época de uma empreiteira que prestava serviços para a Vale no complexo das minas Cauê e Conceição, depende atualmente de "bicos" na construção civil para sobreviver. Rosa e Quintão podem ser considerados duas vítimas dos efeitos da crise mundial na produção de minério de ferro no Brasil, mais especificamente no que se refere à gigante nacional da mineração. De forma abrupta, no fim do ano passado, a turbulência provocou verdadeira reviravolta no cenário de "Eldorado" que vivia a região do Quadrilátero Ferrífero. Somente em Itabira, onde a ex-estatal foi criada em 1942, o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Extração do Ferro e Metais Básicos (Metabase) do município e região calcula que cerca de 6 mil pessoas tenham perdido o emprego - na esteira das dispensas da Vale e da suspensão de contratos de prestação de serviços. Em dezembro, para se adequar à redução da produção, a mineradora anunciou a demissão de 1,3 mil empregados diretos em todo mundo, cerca de 20% em Minas Gerais. O maior impacto, contudo, ocorreu nos empregos terceirizados. Pela contabilidade do Metabase, pelo menos 2 mil funcionários de empreiteiras que prestam serviços à Vale em Itabira foram dispensados após a suspensão dos contratos. Segundo sindicalistas e autoridades municipais, a usina de beneficiamento da mina de Cauê, a mais antiga da Vale, voltou a operar, mas num nível de produção ainda reduzido. "Mas o quadro não é de normalidade. Para nós, essa crise está longe de terminar. A situação de Itabira ainda é muito difícil", avaliou o presidente do Metabase, Paulo Soares. "Para cada trabalhador do setor extrativo demitido, são demitidos também até cinco trabalhadores indiretos. É uma cadeia". No comércio, setor que é o segundo maior gerador de empregos na cidade, cerca de 6% de 7 mil postos foram perdidos, de acordo com a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL). No auge da crise, a atividade comercial no município caiu cerca de 10%. "Não foi uma queda desesperadora", ponderou o presidente da CDL, Maurício Henrique Martins. "Agora está estabilizado. Pelo terrorismo da época, o impacto da crise foi até bem menor." Porém, para manter a atividade aquecida, o comércio local - inclusive a loja de roupas e calçados do presidente da CDL - precisou estender o período de liquidação após o Natal. RECEITAImpacto mais significativo foi sentido na prefeitura. Com a redução da produção de minério, a projeção é de queda de até 25%, ou cerca de R$ 35 milhões, na arrecadação municipal em 2009. A Vale responde por 70% da receita de Itabira. "É mais do que eu tenho para investir. Praticamente, este ano a gente fica só com o custeio", diz o prefeito João Izael (PR). Para manter a máquina administrativa funcionando, o Executivo precisou cortar gastos com transporte, energia e água, além de ter cancelado o carnaval na cidade. "Nossa perspectiva para o próximo ano é de recuperação gradativa, mas é bom lembrar que as exportações hoje não trazem as mesmas receitas do passado", destacou Izael, lembrando a redução dos preços internacionais do minério de ferro.No caso da Vale, com os novos contratos, os preços caíram em média 23,8%. No primeiro semestre, a produção de minério de ferro no complexo Itabira, que faz parte do sistema sudeste da empresa, caiu 37,1% - 14,189 milhões de toneladas, ante 22, 547 milhões no mesmo período de 2008. MOBILIZAÇÃOEmbora o clima de tensão na cidade mineira já não seja o mesmo do início do ano, quando o Metabase - ligado à Coordenação Nacional de Lutas (Conlutas) - liderou protestos contra a mineradora, os sindicalistas prometem manter a mobilização. A cobrança atual é pela recontratação dos demitidos. Na quinta-feira, eles se reuniram para discutir a crise. Para Soares, a mineradora deu um "mau exemplo" no início da turbulência global ao demitir funcionários e suspender atividades na região. A reação do Metabase foi deflagrar vários atos, como uma grande passeata em janeiro. O sindicato também espalhou faixas cobrando a manutenção dos empregos e questionou no Ministério Público do Trabalho a justificativa econômica para as demissões. Apesar de a expectativa atual ser de retomada da produção de minério de ferro na cidade, Rosa, no entanto, não tem esperança de voltar ao antigo emprego. Com a indenização paga pela mineradora, comprou uma lan house no município e estuda proposta para trabalhar na Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), na vizinha Congonhas. "No princípio foi um impacto muito grande, mas depois eu fui me reabilitando", disse o técnico em mecânica, que se aposentou em junho. Já o mecânico e borracheiro Quintão espera voltar a ser registrado. "Trabalho uma semana e fico duas à toa." Como funcionário da Bailac, ele recebia R$ 927 por mês. A renda mensal caiu pela metade. A esposa, Valdete de Morais, 38 anos, precisou deixar o serviço de doméstica para cuidar da mãe, doente. "Tenho dois filhos. Tem que pagar a luz, gás, comer, como é que faz?"TURN OVERPor meio da assessoria de imprensa, a Vale disse que não vai dar informações detalhadas sobre a retomada da produção em minas ou sobre novas contratações na região do Quadrilátero Ferrífero. O presidente da mineradora, Roger Agnelli, já disse que a companhia pretende retomar a produção até o fim do ano na mina de Gongo Soco, em Barão de Cocais. Segundo a Vale, as demissões e contratações fazem parte do "turn over (rotatividade de pessoal) normal" de uma empresa desse porte.

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