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Vitória de Trump é obstáculo à retomada da economia brasileira, dizem especialistas

Eleição de republicano traz mais incertezas no cenário global e dificulta saída da recessão

Eduardo Laguna, O Estado de S.Paulo

11 Novembro 2016 | 20h55

A eleição de Donald Trump nos Estados Unidos torna o mundo mais tenso e imprevisível, o que, indiretamente, coloca novos obstáculos ao esforço do Brasil de sair da recessão, avaliaram dois especialistas em relações internacionais que participaram nesta sexta-feira, 11, de um debate sobre o resultado das eleições americanas na Fundação FHC.

Professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Matias Spektor comentou que, do ponto de vista brasileiro, a primeira perspectiva gerada pela vitória de Trump é de mais dificuldades no "longuíssimo processo de recuperação", dada a tendência de piora no ambiente econômico internacional, do qual o País é dependente.

Numa linha de raciocínio próxima, Bruno Reis, diretor da consultoria de risco político Eurasia, concordou que, embora não seja diretamente atingido, o Brasil vai sofrer com a reorganização da economia global. Haverá, em seu cenário, maior aversão a riscos nos mercados financeiros, avanço do protecionismo e tensões regionais.

"O principal efeito (da eleição de Trump) é o aumento grande das incertezas. Os sinais de risco político estouraram nos últimos dois dias", destacou Spektor, acrescentando que Trump fez promessas na contramão da doutrina básica de relacionamento dos Estados Unidos com o mundo.

Ao lembrar a campanha de Trump na corrida à Casa Branca, Spektor citou que o republicano foi o primeiro candidato no país a condenar abertamente o livre-comércio e gerou "enorme incerteza" na área de segurança internacional ao prometer cortar o apoio a aliados na Ásia - Japão e Coreia do Sul -, bem como ao questionar a legitimidade da Otan. Por fim, questionou os pilares básicos da democracia americana: as igualdades racial, de gênero e de opção sexual. "Em todas essas áreas, há muita incerteza", comentou o professor.

Reis, por sua vez, avaliou que, embora o Partido Republicano tenha eleito o presidente da República e levado a maioria das cadeiras no Legislativo, a elite do partido, que não apoiou Trump, sai das eleições tão derrotada quanto o Partido Democrata.

Trump, observa o analista, conduz a ala conservadora do Partido Republicano a uma linha mais nacionalista, protecionista e populista, suscitando dúvidas sobre como a sigla vai se organizar no futuro governo e se o presidente eleito conseguirá assumir o comando da máquina partidária.

Segundo o diretor da Eurasia, Trump terá "grande margem de manobra" para cumprir a promessa de rever a participação americana nos tratados comerciais - Nafta e Parceria Transpacífico (TPP) -, onde, avalia, o impacto de sua ascensão ao poder tende a ser grande. Já a construção de um muro na fronteira com o México deverá, na previsão do analista, ser mais simbólica. "Acho difícil erguer um muro."

Os dois especialistas manifestaram opiniões divergentes em relação ao futuro do processo de normalização nas relações entre Estados Unidos e Cuba, uma marca na diplomacia do governo de Barack Obama.

Spektor aposta que a tendência de normalização é irreversível, até porque favorece a comunidade de negócios que apoiou Trump. Reis, por outro lado, prevê maior morosidade no processo, inclusive por uma motivação política: desconstruir legados de Obama. "Trump não vai cancelar o que foi feito, mas vai retardar bastante, não vai mostrar o mesmo interesse", afirmou.

A mesma tendência é projetada por Reis ao acordo nuclear com o Irã, classificado por Trump como "catastrófico". Embora não acredite no cancelamento do pacto com o país persa, Trump poderá estender requerimentos, prazos e colocar sanções, abrindo a possibilidade de o Irã também desistir do acordo. "Isso é um risco real e iminente se ele cumprir parte significativa do que prometeu na campanha", assinalou.

Há consenso nas análises, tanto de Spektor quanto de Reis, de que a vitória do empresário trará fricções no plano comercial entre Estados Unidos e China. Em defesa dos empregos, Reis aposta numa escalada do protecionismo, com Trump fazendo valer a promessa de taxar os produtos chineses - o que deve provocar retaliação do gigante asiático.

Spektor ponderou que, pela menor ingerência sugerida por Trump em áreas de influência das potências globais, a vitória do republicano foi, para a liderança chinesa na Ásia, uma notícia menos negativa do que seria a vitória de Hillary Clinton no aspecto da geoeconomia da região. O republicano deve dar uma guinada na reorientação da diplomacia americana feita por Obama em direção à Ásia e, se confirmar a promessa de tirar os Estados Unidos do TPP, detonará o principal instrumento do presidente atual contra a ascensão comercial chinesa.

"Ao longo da campanha, o governo da China torceu por Trump porque ele concebeu a ideia de que a política externa é custosa demais para os Estados Unidos". Trump, comentou o professor, acredita que a estabilidade internacional aumenta quando há entre as grandes potências o entendimento de que uma não deve "meter o bedelho" na esfera de influência da outra.

Nesse sentido, a expectativa é de que Trump não gaste capital político na guerra da Síria, vista como problema da Rússia. Concomitantemente, Reis aposta num alinhamento maior com Israel, onde o relacionamento nunca foi tão ruim quanto no governo Obama.

O redirecionamento nas relações internacionais americanas representa, no entanto, uma ameaça ao equilíbrio da geopolítica na Ásia pelo potencial de promover uma nova corrida armamentista de países aliados que, possivelmente, não contarão mais com o apoio da força militar americana. "Se houver do ponto de vista japonês e coreano o entendimento de que eles terão que se defender por conta própria, vai haver uma corrida armamentista e um remilitarização do Japão", afirmou o consultor.

Já no Oriente Médio, mesmo que pretenda limitar as ações no combate ao Estado Islâmico, poderá ser impossível a Trump alterar a atuação que os Estados Unidos têm há seis décadas na região, dado o risco vindo do processo sucessório que tem potencial de "esfacelar" os pilares da estabilidade política da monarquia saudita, após a morte, em janeiro de 2015, do rei Abdullah.

"Se o Irã se sentir ameaçado pela instabilidade saudita, como tende a acontecer, temos um cenário em que, independentemente da vontade, o presidente americano terá que lidar de forma persistente com o Oriente Médio como aconteceu nos últimos 60 anos", disse Spektor. 

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