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Vitória na OMC pode ter sido por 13 votos

Diferença em favor de Azevêdo teria sido mais apertada que o divulgado pelo Itamaraty

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2013 | 02h02

A vitória do brasileiro Roberto Azevêdo na disputa pelo comando da Organização Mundial do Comércio (OMC) foi bem mais apertada do que o governo brasileiro declarou nos dias após o anúncio do resultado. Dados obtidos pelo 'Estado' revelam que a diferença para o mexicano Hermínio Blanco teria sido de 13 votos, entre 159 países.

Peça central na vitória do brasileiro foi a Comissão Europeia, que praticamente anulou o apoio que Reino Unido, França e Alemanha haviam dado ao mexicano.

Ao contrário da declaração brasileira de que Azevêdo teria tido até 40 votos acima do concorrente, os números que surgem uma semana depois da votação mostram uma realidade diferente. Os dados são sigilosos, mas fontes muito próximas ao processo indicaram que o Brasil teria acumulado apenas 13 apoios a mais, uma diferença de menos de 10% dos membros.

Se o número de apoios nos mercados emergentes pesou, outra constatação que começa a vazar do processo sigiloso de votação é que, no fundo, foi o posicionamento da União Europeia que acabou decidindo a vitória do brasileiro. Azevêdo não era favorito entre os governos nacionais europeus. Mas tinha o apoio da Comissão Europeia, o braço executivo do bloco e que atua de forma semi-independente em matéria de comércio.

Quinze países europeus apoiavam Blanco, e doze estavam com Azevêdo. Mas, numa manobra diplomática, a Comissão conseguiu que, na prática, o voto europeu fosse equivalente a uma abstenção. Essa realidade abriu caminho para a vitória de Azevêdo que, de fato, tinha mais votos em outras regiões.

Segundo o Estado apurou, a operação da Comissão envolveu seu próprio presidente, o português José Manuel Barroso, que decidiu fazer campanha pelo brasileiro. Para isso, teve de reverter um cenário de apoio entre os 27 países do bloco a favor do México.

A primeira parte da estratégia foi a de adiar qualquer decisão. Na quinta-feira, 2 de maio, o bloco se uniria para decidir o voto. A presidência temporária do grupo estava com a Irlanda, que sugeriu o voto em Blanco. Nesse momento, a Comissão interrompeu os trabalhos e pediu mais tempo. No dia seguinte, o debate se alongou e os diplomatas conseguiram transferir a votação interna para a segunda-feira, véspera da eleição.

Ao telefone. Com isso, deram duas cartadas. A primeira foi permitir que, no fim de semana, uma intensa movimentação reduzisse o apoio ao mexicano. O chanceler Antonio Patriota cancelou compromissos e permaneceu horas ao telefone. O mesmo fez a Comissão Europeia. "Foi nesse fim de semana que a eleição de Azevêdo foi definida", disse um diplomata.

No domingo à noite, o Itamaraty já cantava vitória. Quando a UE voltou a se reunir na segunda-feira, o apoio a Blanco já havia caído e a diferença era de apenas dois votos na Europa. A Comissão ainda conseguiu incluir uma referência que faria toda a diferença: uma declaração de que, caso Azevêdo fosse o escolhido, não iria se opor.

Quando o embaixador europeu na OMC, Angelos Pangratis, foi votar em nome do bloco, sua posição foi interpretada praticamente como voto nulo. De um lado, deu apoio a Blanco. Mas, amigo pessoal de Azevêdo, anunciou que o bloco estaria satisfeito com o brasileiro.

Isso fecharia a equação para que Azevêdo fosse eleito. Pelas regras, o brasileiro precisaria do apoio em todas as regiões e a posição da Europa foi interpretada pelo comitê de seleção como um sinal verde.

Uma semana depois, a atitude da Comissão criou uma crise no bloco, com Londres, Berlim e Paris questionando as manobras de Bruxelas e a independência de Barroso.

Pelo mundo, a demora dos europeus em definir seu voto também teve impacto. Países que dependem comercialmente da UE, como vários governos africanos, ficaram sem um sinal de Bruxelas de qual deveria ser o caminho. Isso acabou facilitando o lobby brasileiro, que ganhou votos no continente.

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