New York Times
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Vivendo um sonho americano na China

Condomínio de luxo na periferia chinesa recria atmosfera dos Estados Unidos

Andrew Jacobs, The New York Times

24 de dezembro de 2015 | 18h00

Ansiosos por respirar ar puro, um grupo de incomodados cidadãos urbanos se encaminhou para esta terra árida e selvagem juntamente com seus sonhos de uma vida livre e descomplicada. 

Mas, ao contrário dos esfarrapados pioneiros que se estabeleceram no oeste dos Estados Unidos, os primeiros habitantes de Jackson Hole, um condomínio de luxo na periferia da capital da China, chegaram dirigindo modelos fabricados pela Audi e pela Land Rover, com os porta-malas cheios de vinho francês e contas bancárias polpudas.

Na última década, mais de 1 mil famílias se estabeleceram em luxuosas casas de madeira com generosos quintais, em ruas com nomes como Aspen, Moose e Route 66. Aos domingos, alguns participam de um culto na igreja, também de madeira, que é o ponto principal da praça, onde estão instalados cowboys de bronze e uma vitrola gigante que borrifa água. 

“Os Estados Unidos representam a vida selvagem e a liberdade, além de uma casa grande”, disse Qin You, de 42 anos, que trabalha numa empresa de private equity e é proprietário de uma casa de seis quartos que tem um lago com carpas, uma árvore de Natal plantada e o que ele orgulhosamente descreve como um sistema de aquecimento elétrico “de estilo americano”. Seus pais vivem na casa e ele vai para lá nos finais de semana. “Os EUA são legais”, diz ele.

Bem-vindo à “Cidade Natal Estados Unidos”, como Jackson Hole é chamada em chinês, um empreendimento imobiliário gigantesco que é um pastiche detalhado de uma cidade de fronteira americana, embora esta tenha um pavilhão de degustação de vinhos, um spa e seguranças vestidos como guardas de parque que saúdam cada carro que passa. 

As casas mais baratas são vendidas por US$ 625 mil. Moradas maiores, descritas pelos empreendedores de Jackson Hole como castelos, têm vinhedos e valem quase US$ 8 milhões. 

A proprietária do empreendimento, Ju Yi International, diz que mais de 90% das 1,5 mil casas já foram vendidas. Ocupando mais de 259 hectares de terras áridas no nordeste da Província de Hebei, Jackson Hole tem muito espaço para expansão. 

Após o culto de fim de semana na igreja não confessional (que aceita cristãos de qualquer denominação), muitos moradores se reúnem no clube local, enfeitado com arte navajo e lustres feitos com rodas de carroça, onde há um buffet no qual é servido, entre outros pratos “costeletas de porco americanas”, salmão defumado e, num aceno aos gostos locais, cogumelos orelha de árvore. 

Num domingo recente, as roupas usadas pelos moradores poderia ser descrita, na melhor das hipóteses, como casual americano: camisas de flanela, calças de moletom e tênis. As mesas estavam cheias, com várias gerações das famílias presentes e quase todos bebiam vinho tinto importado.

Campanha. Desde que chegou ao poder, três anos atrás, o presidente chinês, Xi Jinping, vem promovendo vigorosamente o “sonho chinês”, um hino nacionalista à cultura tradicional e ao reforço do poderio militar. 

Ao mesmo tempo, decretos do Partido Comunista e comentaristas conservadores buscam demonizar os chamados valores ocidentais, como direitos humanos e democracia, como ameaças existenciais. Mesmo que a ameaça raramente seja identificada pelo nome, sua fonte geralmente é compreendida sendo como os Estados Unidos. 

Mas a campanha não tem sido eficiente em reduzir o entusiasmo popular por ideias e produtos estrangeiros. Universidades americanas continuam a ser o principal destino para estudantes que buscam educação no exterior. Consumidores chineses costumam fugir de marcas locais, o que faz com que o Buick Excelle, o Volkswagen Jetta e o Ford Focus estejam entre os carros mais vendidos aqui. Feriados importados como Halloween, Natal e Dia dos Namorados atraem cada vez mais jovens consumidores. 

Moradores de Jackson Hole ficam aborrecidos quando alguém sugere que a adoção a tudo o que é americano é, de alguma forma, antipatriótico.

Gao Zi, de 60 anos, funcionária militar aposentada responsável por organizar o grupo de pintura dos moradores de Jackson Hole, disse que “nós aceitávamos a propaganda” dos anos 50, quando a China era uma sociedade fechada. “Mas agora, as pessoas têm a oportunidade de viajar para fora e ver a verdade com seus próprios olhos.”

Ao contrário da senhora Gao, Qin, o executivo de investimentos, nunca esteve nos Estados Unidos, mas como ela é um antigo admirador dos ideais americanos como liberdade individual e justiça imparcial. Cinco anos atrás, após sua mulher dar à luz seu segundo filho, Qin conta que o governo o multou em quase US$ 30 mil por ter violado a política de controle populacional do país. “Isso não é liberdade”, disse ele, antes de continuar a mostrar o pátio nos fundos de sua casa.

Censura. Os empreendedores do condomínio, aparentemente, são um pouco mais hesitantes a respeito dos valores americanos. Dias após aprovar a visita a Jackson Hole, Liu Xiangyang, o homem por trás da Ju Yi International, desistiu da entrevista, dizendo que só concordaria se pudesse retirar qualquer conteúdo politicamente sensível da conversa.

Relatos dos meios de comunicação chineses descrevem Liu como estudante de psicologia ocidental e um ávido praticante de tai-chi-chuan, que estudou no Canadá. Liu também tem uma casa em Jackson Hole e os moradores dizem que ele se socializa com frequência com os vizinhos. “Num típico empreendimento chinês, você nunca beberia vinho e chá com o proprietário”, afirmou Qin.

Huo Zhaojie, que trabalha no departamento de marketing da Ju Yi, descreve o caráter prevalente da empresa como de “liberdade e igualdade”, mas disse que a decisão de Liu de construir uma subdivisão com tema ocidental não deve ser compreendida como uma declaração política. “A companhia já construiu complexos de estilo europeu, então queríamos algo diferente”, afirmou. 

Ainda assim, os moradores são bastante entusiasmados ao falar sobre o que chamam de caráter acessível e cordial, de inspiração americana, de Jackson Hole. Pessoas desconhecidas cumprimentam-se enquanto passeiam por lindas ruas sem saída e referem-se uns aos outros por apelidos carinhosos como “Vanilla”, “Little Lion” e “Old Hooligan.”

Meng Pu, 40 anos, moradora que ensina a fazer arranjos de flores, bordado e culinária para outros moradores, disse que a atmosfera promove os relacionamentos sem a compulsão por formar redes de contato ou a soberba que costuma permear as interações sociais na China. 

“No geral, nem sequer sabemos os nomes verdadeiros das pessoas nem perguntamos que tipo de trabalho elas fazem”, disse Meng, ex-editora de revista cujo marido é apresentador da emissora estatal de televisão CCTV. “Este lugar pode não ser exatamente como os Estados Unidos, mas definitivamente não é como uma série de outros lugares na China. Na cidade, você pode morar por anos num mesmo lugar e nunca conhecer a pessoa que vive do outro lado do corredor.”

A sensação de comunidade é reforçada pelos mais de cem grupos, conhecidos como “tribos de apanhadores de sonhos”. Há tribos de escoteiros, de beisebol, de tricô e caligrafia, mas constantemente novos grupos são formados, revelou Huo, o funcionário da incorporadora. “Se você quiser voar, podemos levá-lo a uma escola de voo”, afirmou. Todas as aulas, lembrou, são gratuitas. 

Ampliação. Com a intenção de manter os moradores vivendo no condomínio o ano todo, a incorporadora está construindo uma escola, além de 200 apartamentos de tamanho mais modesto que serão vendidos por US$ 150 mil cada um. Também estão previstas 2 mil casas geminadas no estilo dos campos de produção de vinho da Califórnia. A empresa diz que os preços dos imóveis quase que triplicaram desde que as casas começaram a ser vendidas, uma década atrás. 

Mas até mesmo a utopia tem suas falhas ocasionais. A notória poluição de Pequim geralmente encobre as montanhas que cercam Jackson Hole e a senhora Go lamenta algumas mudanças indesejáveis. Quando ela se mudou para o condomínio, oito anos atrás, era raro ver jardins fechados por portões e as casas eram construídas com a frente orientada para as ruas sinuosas do lugar.

Mas moradores mais novos têm construído suas casas num eixo norte-sul, de acordo com a tradição chinesa do feng shui. Um número crescente de residentes também tem colocado cercas em suas casas, colidindo com a sensação de espaço aberto. “Erguer muros é parte da mentalidade chinesa”, afirmou ela. 

Mesmo assim, a senhora Gao e o marido, que é professor de música, não gostariam de viver em nenhum outro lugar. O casal costumava fazer uma viagem de 90 minutos, saindo de Pequim, nos fins de semana, mas agora a senhora Gao insiste em ficar no condomínio a semana toda. “Eu nunca quero sair daqui.” / TRADUÇÃO DE PRISCILA ARONE

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