Vizinhos já aceitam socorro do FMI à Grécia

frança ainda resiste, mas cresce o número de países que admitem o socorro externo para debelar a crise antes que ela se alastre pela região

Andrei Netto, O Estadao de S.Paulo

20 de março de 2010 | 00h00

A disposição do primeiro-ministro da Grécia, George Papandreou, de apelar ao Fundo Monetário Internacional (FMI) se não obtiver socorro da União Europeia abriu um fosso na União Europeia. A unânime resistência inicial à intervenção do fundo em um país da zona euro já não existe mais.

Ontem, a hipótese de socorro externo foi elogiada em público pela Alemanha e pela Holanda. Já França, o outro gigante que comanda o bloco, não quer a intervenção e envia sinais de insatisfação a Berlim, sem, no entanto, defender os erros da Grécia.

Há duas semanas, ninguém admitia o socorro. Depois, a ajuda passou a ser cogitada nos bastidores. Agora é oficial. Alemanha, Holanda, Finlândia - três membros da zona euro -, além de Reino Unido e Suécia, agora consideram que o recurso ao fundo é a melhor solução. Ontem, o governo alemão, que até aqui enviava sinais ambíguos aos parceiros europeus, admitiu a possibilidade abertamente.

"Caso seja necessário chegar a esse ponto, o governo não exclui os recursos do FMI", afirmou o porta-voz da chanceler de Angela Merkel, Ulrich Wilhelm.

A proposta recebeu também o apoio da Holanda. Segundo o ministro de Finanças do país, Jan Kees de Jager, mesmo que a União Europeia corra em socorro à Grécia, os recursos serão provavelmente insuficientes. "Somos partidários de uma via de comunicação com o FMI", afirmou na quinta-feira à noite, garantindo que apoiará a posição da Alemanha. "Mas o FMI sozinho não será suficiente, já que as necessidades financeiras da Grécia chegam a cerca de ? 40 bilhões neste ano. Uma solução paralela deve ser criada no bloco", argumentou, reconhecendo a necessidade de impedir que "o fogo grego se propague até a Holanda".

Além dos apoios oficiais à solução FMI, outros países já teriam enviado sinais a Bruxelas indicando suas posições. Em favor da Alemanha, estariam o Reino Unido e a Suécia. Já a Itália, cujas finanças também correm risco, se mostra dúbia. Ontem, Giulio Tremonti, ministro de Finanças, lembrou da experiência do fundo em intervir nos países em crise. "É preciso ver o FMI não como uma organização externa que se envolve no que não lhe diz respeito, mas como um banco que oferece seu capital e sua experiência".

Do outro lado está a França, e sua posição em favor da solidariedade europeia, seguida também pela maior parte dos parceiros da UE. O governo de Nicolas Sarkozy não oficializa sua posição contrária à intervenção do FMI na Grécia. Em entrevista à versão alemã do jornal Financial Times, a ministra da Economia, Christine Lagarde, protestou contra duas diretrizes macroeconômicas de Berlim: o elevado saldo comercial favorável e o desestímulo ao consumo, que desequilibrariam a relação com os vizinhos . Apesar do tom de críticas, o governo francês tenta manter aparências, e a própria ministra garante que não há nenhuma divergência franco-alemã sobre o pacote de socorro à Grécia.

A decisão do impasse entre Alemanha e França tem data para acontecer: 25 e 26 de março, em Bruxelas, quando ocorrerá a reunião de cúpula do Conselho Europeu, órgão que reúne os 27 chefes de Estado e de governo do bloco. Forçado a se posicionar sobre o assunto, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, afirmou em entrevista à rede de TV France 24 que uma eventual intervenção do FMI não seria uma humilhação. "Grécia e todos os países-membros da UE são membros do FMI", afirmou.

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