'Você deve desconfiar de qualquer sucesso que teve na vida'

Líder considera mito capacidade de fazer bem apenas uma coisa por vez

Entrevista com

CLÁUDIO MARQUES, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2013 | 02h12

Culto, ativo e profundamente envolvido em todas as suas diversas atividades. Muito se poderia falar de Rafael Steinhauser, que transita com a mesma paixão pelo mundo corporativo e pelo das artes cênicas. Engenheiro aeroespacial formado e pós-graduado pela Technische Universität Berlin, na Alemanha, o argentino naturalizado brasileiro de 54 anos é vice-presidente sênior da multinacional americana Qualcomm e presidente da corporação para a América Latina. A empresa produz chipsets para celulares. Steinhauser também é ator de teatro profissional, tendo atuado em peças como "Crime e Castigo", de Dostoiévski, e "O Jardim das Cerejeiras", de Tchekhov. Para ele, que desenvolveu sua carreira executiva na área de tecnologia e telecomunicações, é um mito dizer que só uma atividade pode ser bem feita. A multiplicidade de ações enriquece, segundo ele. Um pensamento coerente com quem tem uma vida em constante movimento e acredita que persistir no sucesso pode ser um erro. O executivo tem mais de 25 anos de experiência na indústria de alta tecnologia e comunicações e já comandou outras companhias como Nextwave, Cisco e Nortel, trabalhou em organizações europeias e na Vésper. É fundador do Centro Internacional de Teatro e organiza a primeira mostra internacional de teatro em São Paulo, prevista para março. A seguir, trechos da entrevista.

Como se deu a ida para a área de telecomunicações?

Difícil dizer. Às vezes é muito complicado saber o que é bom para sua vida quando se é jovem. Eu acho que um bom conselheiro é sempre a intuição, até mais do que a razão. Porque você pode racionalizar sobre qualquer coisa e achar aspectos positivos para algo que queira demonstrar. Isso não necessariamente tem a ver com a paixão que você tem, com aquilo que o motiva, que você gosta. Acho fundamental fazer aquilo que se tem vontade e que se goste de verdade, sentir paixão todos os dias. Porque, se não for assim, você acaba dedicando boa parte do tempo e energia a algo que não seja condizente com o que se quer. Mas a vida dá muitas voltas, e meu problema é que tenho muitas paixões. E só quando adulto é que fui me adentrando em diferentes disciplinas e dimensões. Eu estudei engenharia, mas o que foi bom na minha fase de estudante não foi nem aquilo que estudei, mas a forma como a minha universidade me ofereceu uma instrução. A formação consiste muito mais em aprender a pensar, a refletir, a resolver problemas, a agir e se virar. Se você compreender tudo isso, pode fazer qualquer coisa na sua vida.

Como você conjuga a reflexão, o racional e a intuição?

Eu preciso ter um domínio racional importante, principalmente sendo líder de uma empresa, e mais ainda, uma empresa de alta tecnologia. É preciso ter um domínio racional das matérias básicas, vamos dizer, do pacote de funções que se tem como líder de uma companhia dessas. Mas muitas vezes, é necessário decidir o rumo a tomar tendo nas mãos informações que não são completas, ou tem de aprender a navegar no escuro, sobretudo quando se trata de coisas que vêm por aí. Você tem de saber desenvolver um bom sentido para as oportunidades que vão levar a sua empresa a ter mais sucesso. É difícil de explicar, mas aprender a lidar com incertezas é fundamental. Não é que você deva ser somente intuitivo, mas também deve ter uma capacidade de intuição. Você deve ir atrás do máximo possível de informação. Mas, em última instância, não vai ter todas as informações, porque nem tudo é evidente na hora de tomar uma decisão.

Ter intuição é um atributo importante para quem dirige uma empresa?

Para mim é importante, com certeza. Essa e várias outras coisas. A intuição é importante, assim como a racionalidade. Ganhar experiência também é essencial, porque isso dá ferramentas para melhor navegar, sobretudo em tempos difíceis. As maiores experiências que alguém pode ter são as de crises, de épocas difíceis e até de fracassos. Eu também acho importante saber que aquilo que você fez bem e o levou ao sucesso deve ser descartado imediatamente. É preciso desconfiar de qualquer sucesso que você tenha tido na vida, uma vez que ele sempre acontece num dado momento, num certo ponto do espaço, numa linha de tempo, etc. E nunca mais voltará a se repetir.

Por quê?

Porque tudo muda. O mundo, os fornecedores, os clientes, as economias, os competidores, tudo está em constante movimento. Então, se você quer ter sucesso no futuro, você tem de partir do zero e pensar 'bom, o que eu vou poder fazer aqui de diferente?'. Falamos também do racional, mas só que a razão tem um limite. Ela só nos leva até onde é possível colocar as coisas que você conhece e as relaciona em um contexto. E, se você se restringe a isso, não cria nada novo. Não vai passar daquilo que já existe, muito menos se diferenciar dos competidores e lançar algo novo, porque você está trabalhando num universo que já é conhecido, para você e para os outros.

Num certo sentido, persistir no sucesso também é um erro?

Claro, com certeza. As grandes empresas que faliram ou foram para o brejo acreditaram tanto no sucesso que tinham que ficaram cegas. Não viram que o mundo avança. As tecnologias, os materiais, o gosto das pessoas, as economias, tudo muda, tudo evolui. Se você fica naquela fórmula já conhecida, você vai para o brejo indefectivelmente. Você tem sempre de desconfiar de tudo na vida e tem sempre de se posicionar de novo.

Como foi que você se tornou ator de teatro?

Bem, eu sempre gostei de teatro, mas nunca tinha feito. Um dia, um pouco depois dos 40 anos, tive um tempo entre uma presidência e outra e decidi que iria fazer tudo que queria mas nunca havia feito. Foi uma crise. Eu fui presidente de uma empresa grande muito jovem. Era meu sonho, também, e eu havia trabalhado muito para isso. Era muito esforçado e queria crescer. Quando cheguei à presidência, pensei: 'E agora, o que faço?'. Decidi perseguir o que sempre desejei na vida. Entre outras coisas, entrei num curso de teatro, que era vocacional. As aulas aconteciam à noite, duas vezes por semana. Gostei muito e fiz um semestre em uma escola chamada Célia Helena. Depois da primeira fase, era o momento de fazer o curso profissionalizante. Fiz a prova, passei e, depois de três anos e meio, me formei. Desde então, sempre trabalhei como ator e já fiz muitas peças em vários teatros, no Brasil e no exterior.

Por que o teatro é uma boa atividade para sua vida?

Acho que é um complemento muito bom para a vida de um executivo. O trabalho envolve o lado mental, intelectual, racional. E o teatro desenvolve outros hábitos que, como executivo, não são tão demandados: o emocional e o físico. São mundos complementares. Inclusive, há muitas coisas que você faz no teatro que ajudam diretamente a função de executivo.

Quais?

Primeiro, a comunicação, pois como líder, você tem de saber se comunicar bem. Isso vale, tanto para a comunicação verbal quanto a não verbal, com seus funcionários, sua corporação, seus clientes, fornecedores, governo, imprensa. O executivo tem de fazer apresentações, se expressar com clareza, ter uma boa dicção, boa projeção, bom uso da língua. O segundo ponto tem a ver coma interação. É preciso saber interagir bem com as pessoas, porque essa é a base de seu trabalho. O principal é lidar com os indivíduos, e isso requer ouvir e falar. A terceira é o foco que você precisa ter, a persistência. Você deve estar treinado para manter um objetivo claro, saber o que quer daquele cliente, fornecedor, ou daquela empresa. É importante informar o interlocutor com clareza, com firmeza, com convicção, ao longo de um tempo e de um período talvez extenso. No teatro, isso é muito praticado em cena. A última coisa que acho fundamental é team play. Em uma empresa moderna, um grupo de pessoas deve jogar como se fosse um time. É imprescindível, assim como no teatro, onde você nunca está sozinho. O ator entra no palco e todos os colegas estão lá. Você olha para eles, mesmo sem vê-los, e os sente ainda que não encoste neles. Esse jogo do teatro também é importante no mundo corporativo.

Qual é a sua dica para os executivos iniciantes?

É um mito dizer que, para ter sucesso, só tem de fazer uma coisa e acabou. Por exemplo, se quiser ser executivo, deve focar nisso e esquecer o resto. É o contrário. Quanto mais coisas você fizer com paixão, com seriedade, com vontade, com dedicação, com carinho, com amor, mais sua vida vai se enriquecer. É sinérgico. Então, eu sou ator, e isso me traz energia, impulso e qualificações que depois posso usar como executivo, e vice-versa. Eu recomendo a todos praticar pelo menos uma atividade artística. Isso é muito importante para o desenvolvimento pessoal e de atributos que normalmente não caberiam no nosso mundo racional.

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