Você trabalha demais? Veja provas econômicas da necessidade de aproveitar mais a vida

Estudos mostram que longas jornadas de trabalho podem diminuir a produtividade dos empregados e, assim, os lucros dos patrões

Economist.com

10 Dezembro 2014 | 15h46

Você trabalha demais? No ano passado, a Economist publicou um artigo simpático que apresentava uma correlação interessante entre jornada de trabalho e produtividade. Com jornadas de trabalho mais longas, a produtividade do trabalho por hora teve queda. Eis novamente o gráfico:

Mas este gráfico é apenas uma correlação: isso não basta para muitos economistas. Agora um novo estudo de John Pencavel, da Universidade Stanford, também mostra que a redução da jornada de trabalho pode ser positiva para a produtividade.

Já faz algum tempo que os economistas suspeitam que a jornada de trabalho demasiadamente longa prejudica a produtividade. O economista britânico John Hicks calculou que "nunca deve ter entrado na cabeça dos empregadores…que a jornada pode ser reduzida mantendo a produtividade". Hicks mostrou que, com jornadas mais longas, a produtividade por hora cairia. Conforme os trabalhadores passam mais e mais horas ocupados no emprego, eles perdem energia, tornando-se menos produtivos.

Pencavel analisa um conjunto de dados incomum: pesquisas realizadas pela "Comissão Britânica para a Saúde dos Trabalhadores da Indústria de Munições" (HMWC) durante a 1.a Guerra Mundial. A Grã-Bretanha estava desesperada para aumentar ao máximo a produtividade, dada a demanda quase insaciável por armas e munições. A HMWC tinha de orientar o governo com relação a práticas que garantissem a saúde e eficiência dos trabalhadores nas fábricas de munições: como seria possível maximizar a produtividade? Como parte de suas investigações, a Comissão solicitou estudos dentro das fábricas de munições concentrados no elo entre jornada de trabalho e desempenho no trabalho.

Depois de muita análise, o estudo concluiu que os trabalhadores britânicos da indústria de munições precisavam de jornadas de trabalho mais curtas. Pencavel analisa os dados reunidos pela comissão e verifica se os cálculos estavam corretos.

Os pesquisadores coletaram um imenso volume de dados (a maior parte envolvendo mulheres, que dominavam a indústria das munições). Era fácil medir o número de horas trabalhadas. Também era bastante simples medir a produtividade, já que muitos dos trabalhadores eram pagos com base no número de peças produzidas. Pencavel faz os cálculos e revela a existência de uma relação "não-linear" entre jornada de trabalho e produtividade. Abaixo da marca de 49 horas semanais, as variações na produtividade são proporcionais às variações na jornada de trabalho. Mas, quando as pessoas trabalhavam mais do que cerca de 50 horas semanais, a produtividade passava a aumentar num ritmo menor. Em outras palavras, a produtividade por hora começa a cair (em linguagem técnica, "o produto marginal das horas é uma constante até o nó de [aproximadamente 50] horas, após o qual o primeiro diminui"). Para ter uma ideia, observe os dados no gráfico abaixo:

A redução da jornada de 55 para 50 horas semanais, por exemplo, teria pequeno impacto na produtividade. Os resultados chamam ainda mais atenção se analisarmos as jornadas de trabalho extremamente longas. A produtividade de 70 horas de trabalho diferiu pouco da produtividade de 56 horas. Essas 14 horas adicionais foram tempo desperdiçado.

A conclusão crucial que emerge da análise de Percavel é que reduções na jornada de trabalho nem sempre resultam numa maior produtividade por hora (algo que nossa correlação inicial parecia indicar). Em vez disso, o nível inicial de horas de trabalho precisa ser alto. Esse gráfico tem como base a análise regressiva dele:

A HMWC também calculou que a ausência de um dia de descanso (como domingo) prejudicava a produtividade por hora. A análise regressiva de Pencavel confirma isso. Ele estima que a produtividade seja um pouco mais alta na semana de trabalho de 40 horas (sem trabalho no domingo) do que num cronograma de trabalho de sete dias semanais.

É claro que esses resultados nada nos dizem a respeito da produtividade das profissões do setor de serviços, que emprega a maioria das pessoas nas economias avançadas contemporâneas. Mas eu apostaria que os resultados seriam ainda mais acentuados. Para trabalhos que são em geral de determinação autônoma, exigindo envolvimento intelectual, é possível realizar mais numa hora de trabalho duro do que num dia inteiro de procrastinação. Pencavel anuncia solenemente que "o empregador interessado em maximizar o lucro não se mostrará indiferente… à duração da jornada de trabalho de um dia ou semana". Tente dizer isso ao seu chefe na próxima vez que tentar ir embora do escritório às duas e meia da tarde.

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Da Economist.com, traduzido por Augusto Calil, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com

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