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O aumento da volatilidade sinaliza piora nas tendências para a economia mundial

Paulo Leme*, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2018 | 06h00

Na primeira metade de outubro, a volatilidade (ou vol, no jargão do mercado) dos mercados financeiros nos Estados Unidos subiu muito, enquanto os preços das ações e títulos de renda fixa caíram. No entanto, os mercados voltaram a subir na semana passada, graças aos excelentes resultados financeiros das empresas americanas durante o terceiro trimestre.

O aumento da volatilidade sinaliza uma piora nas tendências para a economia mundial e na confiança dos mercados financeiros. As perspectivas para a economia mundial para o resto deste ano e 2019 ainda são boas, mas já há sinais de ventos contrários na proa. Depois de se acelerar de forma sincronizada e acima de 4,0% ao ano entre junho de 2017 e março de 2018, a média de crescimento da economia mundial para 2018 e 2019 cairá à velocidade cruzeiro de 3,7% registrada em 2017.

Ainda que 3,7% ao ano seja satisfatório, a economia mundial enfrentará três grandes desafios pela frente. Primeiro, os ciclos de crescimento não estarão mais sincronizados, com algumas regiões desacelerando mais do que outras. Em segundo lugar, o grau de divergência da política macroeconômica entres os países desenvolvidos aumentará, principalmente no que diz respeito à política monetária, fiscal e comercial. Os Estados Unidos continuarão a subir a taxa de juros e afrouxar a política fiscal, enquanto o presidente Trump intensificará a sua campanha protecionista. Terceiro, o viés de risco para o crescimento mundial é para baixo, principalmente para a China e para as economias emergentes.

Para o mercado financeiro, essas divergências e assincronias são equivalentes a pequenos tremores gerados pela tensão entre placas tectônicas. Quando os preços dos ativos financeiros (bolsa, renda fixa, câmbio) são caros para padrões históricos, o mercado não reage bem às más notícias sobre atividade econômica e a política macroeconômica. Más notícias geram incerteza, o que se traduz em maior volatilidade na medida em que o apetite por risco diminui e os investidores recompõem as suas carteiras com ativos de menor risco. Isso é o que observamos em fevereiro e outubro deste ano. O que não quer dizer que estamos entrando num “bear market”, mas significa que os investidores enfrentarão um cenário caracterizado por menores retornos e maior risco.

Para o Brasil, o arrefecimento da atividade econômica mundial e o aumento do protecionismo limitará o crescimento das exportações e diminuirá os preços das commodities. A medida que o banco central americano suba a taxa de juros de 2,25% para 3,5% em 2019, o dólar continuará a se fortalecer e os fluxos de capitais voltarão das economias emergentes para os Estados Unidos. Tudo mais constante, isso diminuirá o volume de financiamento externo para o Brasil e o real seguirá pressionado.

Para poder navegar de forma segura nessa conjuntura externa mais volátil, o presidente a ser eleito no próximo domingo terá de sair marcando gols mesmo antes de entrar em campo em janeiro. Ele terá de compor um ministério que seja capaz de trabalhar harmoniosamente com o Congresso. Uma vez formada a equipe econômica, ela terá de apresentar um programa econômico que ataque de frente o difícil ajuste fiscal e anuncie as reformas estruturais necessárias para reconstruir os motores do crescimento econômico.

A recuperação da bolsa e do mercado de câmbio observados após a conclusão do primeiro turno não significa que o mercado financeiro comemorou a vitória de Bolsonaro. Na semana passada, o mercado apenas diminuiu o prêmio de risco atribuído a uma vitória do PT no primeiro turno. Na semana passada, refletiu, principalmente, a recuperação dos mercados no exterior.

Com um bom governo, o potencial de ganhos para o mercado financeiro e a economia brasileira é expressivo. Na medida em que a equação risco-retorno vai se complicando no exterior, o investidor estrangeiro vê no Brasil uma oportunidade para diversificar e melhorar o rendimento da sua carteira. No entanto, ele não tem pressa e não vai ser o primeiro a entrar, preferindo esperar para ver resultados concretos antes de investir no Brasil. Se o concreto virar pó, a recíproca é verdadeira: teremos saída de capitais e uma pressão financeira que pode e deve ser evitada a todo custo.

* PROFESSOR VISITANTE DE FINANÇAS NA UNIVERSIDADE DE MIAMI

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