Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

"be water"

Coluna Leandro Miranda: como se moldar à nova economia após a covid-19?

Volatilidade do mercado recua de recordes, mas deve seguir elevada com tensão entre EUA e China

A oscilação dos mercados internacionais disparou nos últimos meses, com o agravamento da pandemia do coronavírus; no Brasil, incertezas políticas ainda devem pressionar a Bolsa

Altamiro Silva Junior, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2020 | 09h00

A volatilidade diminuiu no mercado financeiro local e externo, após atingir, em março e abril, marcas jamais vistas, superando inclusive os picos da crise mundial de 2008. Mas especialistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast acreditam que os preços dos ativos vão seguir com níveis de volatilidade elevados, influenciados pelo aumento da incerteza política no Brasil e, no mercado internacional, pela piora das relações entre China e Estados Unidos e as dúvidas sobre a retomada da economia em meio à pandemia do coronavírus.

Medidas de volatilidade mostram que os níveis de oscilação dispararam com o avanço da pandemia de covid-19. O índice de volatilidade VIX, considerado um "medidor do medo" dos mercados, negociado em Chicago, chegou a superar o nível de 82 pontos, até então a marca mais alta alcançada na história, só atingida na crise financeira de 2008. Este mês, o indicador está na casa dos 30 pontos.

A volatilidade das moedas também se reduziu recentemente, embora menos que nas Bolsas. No caso do Brasil, a volatilidade implícita do dólar para três meses disparou a partir de fevereiro, saindo de um nível abaixo de 12% ao ano, que vinha desde novembro de 2019, para o pico de 24% em março. Este mês voltou a cair, mas segue acima de 20%. Quanto maior o índice, a sinalização é de maior demanda por dólar, com o investidor tentando se proteger da volatilidade.

Os estrategistas do JPMorgan destacam que abril marcou a transição de um período de volatilidade aguda nos mercados, em meio à rápida disseminação do coronavírus ao redor do mundo.

No Brasil, foram vários circuit breakers, bilhões de dólares injetados pelo Banco Central no câmbio e juros ora atingindo limites de alta, ora de baixa, no mercado futuro. No caso brasileiro, o JPMorgan alerta que nas últimas semanas cresceram os riscos políticos e fiscais, que devem seguir contribuindo para a incerteza do cenário econômico e pressionando os preços.

Para o economista-chefe de mercados emergentes da consultoria inglesa Capital Economics, William Jackson, a piora do ambiente político no Brasil, com melhoras pontuais em alguns dias, mas sem sinal de que vai sair do foco dos investidores, deve seguir causando volatilidade acima de outros emergentes, levando os agentes a embutir um prêmio maior nos ativos brasileiros pelo aumento do risco político. Como ele ressalta, os casos de coronavírus só aumentaram, a economia mundial está em colapso, mas é a política que domina o noticiário no Brasil.

O Bank of America observa que os governos, sobretudo os bancos centrais, têm atuado para manter baixa a volatilidade nos mercados, especialmente de moedas. Mas a tendência é que o nível de oscilação prossiga alto nas divisas de emergentes por conta da piora dos fundamentos macroeconômicos.

Para o Brasil, o banco americano projeta queda de 7,7% do Produto Interno Bruto (PIB) este ano, além de forte piora fiscal e real mais depreciado. "Também estamos preocupados que a dinâmica política e social está piorando."

Algoritmo

A analista de tecnologia, Beth Kindig, baseada em São Francisco, alerta em artigo recente na revista americana Forbes que os mercados entraram em uma "nova era" de volatilidade, onde os movimentos tendem a ser mais "rápidos e profundos". Tudo isso por conta do crescente uso nas gestoras de fundos de hedge, inclusive no Brasil, de estratégias baseadas na utilização de algoritmos em transações de alta frequência, que podem fazer os fundos lucrar tanto nos movimentos de alta acelerada como de baixa dos ativos.

Estudo da gestora Jupiter Asset Management mostra que 80% do mercado acionário americano é controlado por robôs. "Essas máquinas podem mudar suas alocações mais rapidamente que um piscar de olhos", ressalta Beth Kindig, citando estudos que apontam que uma transação é feita em 79 milionésimos de segundo.

O sócio e gestor da Kadima Asset Management, Rodrigo Maranhão, gestora especializada em estratégias quantitativas, usando algoritmos, ressalta que os robôs são programados com regras pré-definidas levando em conta "décadas de dados". Por isso, o robô toma a decisão, retirando o componente emocional que uma pessoa teria caso tivesse de mudar a estratégia rapidamente. O algoritmo tem de ser capaz de saber quando mudar alocação, quando zerar tal estratégia, seja para parar perdas ou realizar lucros, disse em live esta semana da Genial Investimentos.

Maranhão contou que dois fundos multimercados da Kadima usam algoritmos que buscam tendências de curtíssimo prazo, de um a três dias. "Nesse cenário, esse tipo de algoritmo se beneficia desse ambiente de maior volatilidade", afirmou. "Nossos multimercados se beneficiaram muito da volatilidade do dólar este ano, como também de mercados no exterior, como a platina e o paládio, commodities metálicas com muita volatilidade este ano", disse. "Historicamente os nossos fundos tiveram melhor resultado em períodos de maior volatilidade."

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