José Patrício/ Estadão
José Patrício/ Estadão

Volatilidade é risco para negócio, diz empresário

Presidente da Bosch pede estabilidade nas cotações; importadores já avaliam repassar aumento de custos com dólar para preços no varejo

Cleide Silva, Douglas Gavras e Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2019 | 04h00

Maior fabricante de autopeças da América Latina, a Bosch teme pela volatilidade cambial que, na visão do presidente da companhia, Besaliel Botelho, pode atrapalhar tanto as importações quanto as exportações do grupo no Brasil.

Para ele, “dólar bom é o dólar estável, indiferente do valor em que esteja, pois as flutuações tiram nossa previsibilidade”. O grupo operava com cotação de R$ 3,85 para o ano.

Segundo Botelho, a empresa importa bastante itens tecnológicos não produzidos no País e a volatilidade cambial “afeta negativamente o negócio”. Já as exportações caíram 12% neste ano em razão do enfraquecimento de mercados como Europa e China, e a cotação mais alta não altera esse quadro.

Daniel Amorim, diretor da calçadista gaúcha Tabita, pensa diferente. Há cinco anos, só um terço da produção era vendido ao exterior.

Com a crise e a perda de fôlego do mercado interno, a situação se inverteu. Hoje a empresa exporta 75% da produção e comemora o dólar favorável. Como a Tabita trabalha com poucos insumos importados, a alta do dólar é mais benéfica, avalia Amorim. “Estudamos reativar uma linha de produção que empregaria 120 pessoas.”

Repasses

Empresas importadoras avaliam até quando vão conseguir evitar o repasse do aumento de custos ao consumidor. Dona da importadora de azeites e vinhos Sicilianess, Ana Salustiano diz que o consumidor está resistente a aumentos de preços e que a maioria das empresas prefere absorver a alta do câmbio. “Se repassar os custos não vendo.”

Na indústria farmacêutica, que tem 95% de seus insumos importados, o clima é de apreensão. As empresas projetavam que o dólar estaria na casa dos R$ 3,70 no fim do ano e agora veem o custo de produção subir vertiginosamente. “Como há controle de preços não tem como repassar os custos”, diz Nelson Mussolini, do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma).

Algumas empresas não devem conseguir segurar os reajustes. José Kovacs, sócio da C. Kovacs Indústria e Comércio conta que a resina plástica responde por um terço do custo de produção de escovas de dente. A matéria-prima é cotada em reais, mas, por derivar do petróleo, sente a alta do dólar.

Como tem 120 dias de estoque da matéria-prima, por enquanto a fabricante não vai enfrentar pressões de custos mas, se a moeda ficar acima de R$ 4, Kovacs diz que terá de reajustar os preços em até 8%. “Não trabalho com prejuízo”, afirma.

Dependente de componentes importados, o setor de eletroeletrônicos também avalia que, no médio prazo, caso o real continue se desvalorizando frente ao dólar, as fabricantes terão de reajustar preços, diz José Jorge do Nascimento Júnior, da Eletros, entidade do setor. / CLEIDE SILVA, DOUGLAS GAVRAS E MÁRCIA DE CHIARA

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