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Volatilidade no câmbio deve ser menor do que em 2002, apontam especialistas

Volume de reservas atual é dez vezes superior ao de 16 anos atrás e favorece o País; situação fiscal preocupa

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2018 | 04h00

A volatilidade no mercado financeiro até as eleições deste ano deve ser menor do que a registrada em 2002, durante a corrida vencida pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “A fragilidade do Brasil hoje é fiscal, e não externa. Então ela não deve se expressar tanto no câmbio”, diz o economista-chefe no País do banco suíço UBS, Tony Volpon.

O economista destaca que a principal diferença entre 2002 e 2018 é o nível das reservas internacionais, hoje quase dez vezes maiores do que as de 16 anos atrás. “O Banco Central não tinha capacidade de sinalizar que poderia conter (a volatilidade)”, acrescenta.

À época, a relação entre reservas e dívida externa total brasileira era de 17%. Em 2018, essa proporção deve ficar em 67%, segundo estimativa do Credit Suisse. “O cenário de que a dívida não vai ser paga é muito menos provável. O País pode ter de pagar juro mais caro, mas tem grande capacidade de financiamento”, diz o economista Lucas Vilela, do Credit. 

Para a cotação real (incluindo inflação) chegar ao patamar de 2002, o dólar teria de ultrapassar a casa dos R$ 7 – algo improvável, segundo os economistas. Na comparação com as corridas eleitorais de 2006, 2010 e 2014, no entanto, a volatilidade registrada até agora é maior. Levantamento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostra que o real se desvalorizou 3,41% entre junho e 20 de agosto deste ano. No mesmo período de 2014, a perda de valor da moeda brasileira foi de 2,53%. Em 2006 e 2010, houve, respectivamente, valorização de 1,3% e 2,32%.

Para Volpon, a tendência é que a volatilidade atinja um pico às vésperas da votação. Depois, a tendência é que o mercado se acalme conforme o eleito indique as medidas que adotará, reduzindo as incertezas. No México, que elegeu um presidente de esquerda – Andrés Manuel López Obrador – em julho, a volatilidade diminuiu até antes das eleições, já que a vitória do candidato era dada como certa. “Esse processo de comunicação antecipada acalmou o mercado”, diz Volpon. 

 Apesar da situação externa mais favorável, a crise fiscal preocupa o mercado e torna a sustentabilidade dos fundamentos econômicos mais delicada que em 2002, de acordo com o economista Luiz Fernando Figueiredo, sócio-fundador da Mauá Capital e ex-diretor do Banco Central.

O resultado fiscal primário no ano em que Lula foi eleito ficou positivo em 3% do PIB, enquanto, hoje, há um déficit de 2% do PIB. “Agora, a questão não depende apenas de confiança. Àquela época, era só manter a situação fiscal. A dificuldade será maior no ano que vem. Se não se resolver o caminho da dívida pública, vai haver uma enorme volatilidade”, diz Figueiredo. Essa fragilidade demandará uma solução para o problema fiscal, o que incluirá uma reforma da Previdência, já no primeiro semestre de 2019, de acordo com o economista. 

Cenário externo prejudica

Assim como em 2002, o cenário externo prejudica a situação brasileira. Enquanto, atualmente, a guerra comercial e as elevações na taxa de juros dos Estados Unidos pressionam o câmbio, o calote da Argentina e a recessão da economia americana após o ataque às Torres Gêmeas tornavam o financiamento brasileiro mais difícil. “O período também era bastante hostil internacionalmente. Mas a participação do estrangeiro no País, principalmente na Bolsa, era muito menor”, diz Volpon.

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