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Volta ao crescimento

No Brasil, o investimento precisa aumentar com vistas a um crescimento adequado

Albert Fishlow, O Estado de S. Paulo

17 Setembro 2017 | 05h00

Por todo o mundo há sinais de movimento rumo a índices mais altos de expansão. O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial divulgaram relatórios em junho e julho que serão revistos para cima antes de suas reuniões anuais em outubro.

specialmente para os Estados Unidos e o Brasil, as revisões deverão ser favoráveis. Uma das principais razões são os grandes déficits governamentais inesperados. Eles resultam dos prejuízos causados pelos poderosos furacões que atingiram os EUA e, no Brasil, da incapacidade do país em cumprir metas ambiciosas traçadas antecipadamente. 

Essa visão de curto prazo é consistente com a necessidade implícita de se fazer muito mais para aumentar a produção nos dois países. Isso se faz com maiores investimentos e aumento da eficiência. A relação é clara. 

No Brasil, mantém-se entre alguns a crença de que um Estado maior e mais intervencionista seja essencial para esse fim. Deixa-se assim de se avaliar as deficiências de uma política industrial voltada para dentro. A substituição de importações segue sendo considerada essencial para se obter resultados positivos – e não a melhora da eficiência e a maior integração por meio do comércio internacional, que dão mais ênfase a cadeias produtivas globais.

No Brasil, o investimento precisa aumentar substancialmente com vistas a um crescimento adequado. Os índices de poupança interna têm de crescer. O elevado consumo individual e governamental precisa ficar abaixo da relação com o PIB. O boom das commodities da primeira década do século possibilitou ganhos em termos de comércio, mas as promessas de lucros extraordinários com a produção petrolífera do pré-sal não se realizarão. Os preços do petróleo vão continuar relativamente estáveis, influenciados por grandes exportações de propano e petróleo de xisto. 

O Brasil tem uma regulamentação constitucional para restringir déficits fiscais. Será preciso mais flexibilização e menos rigidez para determinar a distribuição de investimentos. De outro modo, importantes programas sociais sofrerão impactos negativos. Há espaço para menos centralização, mas a administração fiscal é crítica para manter a dívida dentro de limites e evitar ter de recorrer à solução de receitas maiores. 

O Brasil terá de incentivar a competição interna. Menos dependência de barreiras protecionistas e aumento da margem para importações e exportações são prioridade. O Brasil sempre quis ser uma potência global. Para isso, esses passos são fundamentais.

Nos EUA, o namoro com o protecionismo, o aumento dos poderes dos Estados e a eliminação de regulamentações positivas e de proteção vão começar a perder força. Trump deseja, acima de tudo, ser reconhecido por seus poderes de negociador. Seu Partido Republicano, cada vez mais dividido, falhou em apoiar seus planos de acabar com o Obamacare, refazer e simplificar o sistema tributário e estimular investimentos em infraestrutura. Talvez com mais jantares com os líderes do Partido Democrata, Nancy Pelosi e Chuck Schumer, ele descubra que alterações mais modestas são possíveis e desejáveis. 

Acima de tudo, Trump parece começar a compreender melhor a responsabilidade de ser presidente dos EUA. Isso se traduziu na aceitação do diálogo com o Irã sobre limites no desenvolvimento de armas nucleares. As discussões sobre relações comerciais com o México não foram encerradas. A China não teve de recuar do papel de principal fonte de importações. 

Trump teve de ceder, embora com certa tristeza, maior controle sobre sua agenda (e seus tuítes) ao general Kelly; precisou delegar ao general Mattis mais responsabilidade pela estratégia no turbulento Oriente Médio; e, ao nomear o general McMaster assessor para Segurança Nacional, pôs fim à presença de um grupo de assessores incompetentes ligados a Stephan Bannon. Surge agora nova oportunidade – após a saída do Acordo de Paris – de realinhar a política americana nessa área. A mudança climática é uma realidade.

A tempestade recente foi real. A atenção ao controle de carbono e aos jovens imigrantes prejudicados pelo fim do Daca podem impulsionar o papel de um centro moderado que ocupe espaço dos extremos à direita ou à esquerda. 

Nesse ponto, o problema político no Brasil é semelhante ao dos EUA. Uma abordagem centrista acenaria com um futuro muito melhor para o país que aquele baseado na confiança na extrema direita ou na extrema esquerda./TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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