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Volta ao ‘normal’?

Governo tenta se equilibrar entre garantias a Petrobrás e alívio aos consumidores

Cida Damasco, O Estado de S.Paulo

04 Junho 2018 | 05h00

Os brasileiros entraram no feriadão com a esperança de que na segunda-feira tudo voltaria à rotina. Bendita rotina. Ansiedade compreensível para quem passou quase duas semanas sem saber se haveria combustível para encher o tanque do carro ou do ônibus e se os supermercados estariam abastecidos. Aos poucos caminhoneiros voltaram às estradas, petroleiros desistiram da greve, enfim tudo rumo à normalidade. A saída de Pedro Parente do comando da Petrobrás na sexta-feira, contudo, mostra que a instabilidade não dá trégua. De 2013 para cá, o anormal é o novo normal. 

Quem imaginou que apresentar a fatura do aumento de preços do diesel serviria para “conscientizar” a população de que concessões têm preço, e contribuiria para conter pressões, acabou se frustrando. Tudo indica que muitos leram o recado de outra forma: por que não mudar a política de preços e seu executor em vez de sacrificar gastos sociais, benefícios a exportadores e a vários setores industriais? O ato seguinte foi a queda do presidente da empresa, o que os mercados temiam e o próprio Temer vinha negando - naquele estilo que os políticos tomam emprestado do futebolês, com uma mensagem do tipo “o técnico continua prestigiado”. O resultado não poderia ser outro. Com a saída de Parente e as incertezas sobre o futuro da Petrobrás, as ações da empresa tiveram um baque de 15% na sexta-feira, solapando R$ 40 bilhões do seu valor de mercado. 

A expectativa agora é qual será o impacto nos pregões da escolha do ex-diretor financeiro Ivan Monteiro para suceder Parente. É verdade que Monteiro é bem visto pelos mercados desde sua atuação no Banco do Brasil. Mas as dúvidas não se esgotam nesse ponto. O governo se move num terreno estreito, tentando conciliar sinais aos investidores de continuidade na gestão da Petrobrás, como foi o caso do aumento da gasolina no sábado, e garantias de alívio aos consumidores, com a extensão de mecanismos de amortecimento dos reajustes também para gasolina e gás de cozinha. Os mercados “entenderão” que, mesmo com esses arranjos, a política de preços da Petrobrás continua a mesma? Persistirão as tentativas de ingerência política também no leilão de barris excedentes do pré-sal, reveladas em reportagem do Estadão? As pressões sobre o governo ficarão delimitadas ao setor de combustíveis ou esse é apenas o começo? Há fôlego para novas manifestações nesta semana, como corria nas redes sociais? 

Considerando que o cenário-base é de que o governo se arraste até as eleições, o tranco na Petrobrás terá pelo menos quatro grandes desdobramentos nesse interminável fim de mandato de Temer. O primeiro é que a ala política do Planalto e a base parlamentar ganham peso na gestão da economia. Com cacife formal de ministro das Minas e Energia o “conselheiro” Moreira Franco teria sido o maior crítico de Parente e agora ganha ainda mais espaço com o comando das discussões sobre mudanças na política de preços de combustíveis. A segunda conclusão, derivada da anterior, é que a equipe econômica perde protagonismo. Na crise, seus integrantes pareceram mais observadores do que participantes das decisões. 

Há também uma avaliação geral de que o controle fiscal fica em segundo plano, apesar do empenho do governo de demonstrar que, a cada nova despesa, será feito um corte de gasto correspondente. Dificilmente esse “amplia aqui, reduz lá”, como foi anunciado para cobrir os subsídios de R$ 13,5 bilhões do diesel, será suficiente para manter o estrito cumprimento do Orçamento, caso as concessões se ampliem muito. Está cada vez mais claro que a vulnerável situação fiscal da economia poderá desandar já no ano que vem ou no seguinte - atropelando o teto de gastos e a regra de ouro, por exemplo. 

O quarto e último desdobramento diz respeito a quem vier depois de Temer. Não dá mais para contar, como se acreditava, com um início de governo marcado por atividade econômica em alta e quadro fiscal “acomodado”. Também não dá mais para chegar ao Planalto com aquele desgastado discurso de ataque à herança maldita e/ou promessa de “milagre” só com a mudança de expectativas. Tem de ser rápido e certeiro.

Aos leitores: nas próximas duas semanas estarei ausente. Até a volta, no dia 25 de junho.

* É jornalista.

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