Volta querida

Mesmo que exista a possibilidade técnica, regimental, a volta de Dilma Rousseff ao poder é algo improvável e seria um desastre para o País. Claro que é preciso dar amplo direito legal de defesa, cumprir todos os atos até para que não pairem dúvidas sobre os motivos de sua saída. Mas, diante das profundas transformações que se deram desde que ela deixou o poder, como extinção de Ministérios e cargos, nomeações, alterações de políticas públicas e sociais, seu retorno representaria um retrocesso ainda maior ao Brasil e, o que é pior, retomaríamos um cenário que apenas nos empurrava cada vez mais para a crise.

Roberto Duailibi*, O Estado de S.Paulo

22 Julho 2016 | 05h00

Não é demasiado lembrar que há muito Dilma não dispunha de instrumentos para governar. Sua equipe era formada por nomes possíveis, muitos não aceitavam mais fazer parte dela. As políticas enfrentavam resistências no Congresso e não reuniam chances de aprovação. Sua credibilidade atingiu os piores marcos. O que numa nova etapa a faria retomar de forma antagônica esse cenário? Sinceramente não vejo a menor perspectiva. A não ser que queiramos de fato promover no Brasil uma crise sem precedentes.

Trata-se de falta de responsabilidade, diante desse cenário, imaginar sua volta. Acompanhando o noticiário, vejo que o formato da defesa é exatamente igual ao já visto ao longo de meses, contemplando pontos exaustivamente revisitados, discutidos ao limite. Como poderia haver outro prognóstico, senão o do afastamento definitivo? O que poderia mudar o rumo ou o julgamento das pessoas que já a julgaram?

Se for feita uma pesquisa popular que resultado daria? Suponho que diante das novas expectativas que se abriram para o equilíbrio da economia e a retomada do emprego, a resposta da maioria seria óbvia. Já há levantamentos mostrando que as pessoas estão mais animadas, que há no horizonte as chances de o Brasil finalmente deixar esse momento ruim no passado. Se as pessoas que pregam esse retorno imaginam que a situação econômica está ruim, é porque não aceitam o fato de que pode piorar. 

Acontece que há um exército de pessoas nas ruas, jogadas à sorte e que não têm essa opção de escolha política. São pessoas que todos os dias acordam e torcem para as coisas darem certo, para encontrar um emprego, qualquer um. É gente que vê acumular as contas, que está à beira do desespero. A esses não restam alternativas, não podem apenas protestar e dizer que houve golpe.

Outro ponto que é muito importante: o governo atual conseguiu atrair nomes de peso. É verdade que, por conta da acomodação política própria da democracia, fez nomeações erradas e teve de voltar atrás diante de denúncias e pressões. Poderia ter-se precavido disso. Mas a média é muito boa. Nomes como Pedro Parente, Maria Silvia Bastos Marques, Blairo Maggi, José Serra, Henrique Meirelles, Raul Jungmann, Ilan Goldfajn, entre outros. Será que o governo anterior conseguiria atrair pessoas desses prestígio e reputação?

Independentemente desse cenário, continua a tentativa de retorno. Pensando no campo externo: no momento em que os países se acostumam à atual configuração governamental, viria outra mudança. Seríamos vistos como uma republiqueta, incapazes de gerir problemas. Isso traria enorme instabilidade para a presença do Brasil no exterior, produziria desconfianças e com toda certeza adiaria sine die qualquer intenção de investimento.

Com o intuito de conseguir esse retorno, além dos artifícios permitidos pela lei, há promessas feitas para agradar sobretudo aos movimentos sociais e de esquerda. Acenam com plebiscito para novas eleições, como se isso resolvesse as mazelas do passado, os descaminhos, a falta de preparo. Esquecem que uma nova eleição não estaria assegurada e que a perspectiva de seguir até 2018 num governo sem credibilidade é algo impensável. Infelizmente os políticos olham apenas para as próprias biografias. 

Preocupam-se todo o tempo em ter foro privilegiado. Por isso é um bom momento para rever essa situação na Justiça, de colocar políticos como pessoas normais, mortais e comuns, que podem ser investigadas, julgadas e punidas.

*É publicitário

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